DISPUTA

Eduardismo: núcleo radical de Bolsonaro, ligado ao filho "02", se coloca nova alcunha

Racha público mostra que sucessão de Bolsonaro virou guerra aberta entre seus próprios herdeiros políticos

Créditos: Reprodução de Vídeo/YouTube
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A crise aberta por Michelle Bolsonaro dentro da própria família acentuou a fragmentação do bolsonarismo, que agora se movimenta em torno de diferentes projetos para disputar o espólio político de Jair Bolsonaro. O conflito interno expôs a disputa entre grupos que tentam ocupar o vácuo deixado pela inelegibilidade do ex-presidente.

Embora ainda precise resistir ao teste do tempo, o "michelismo", direcionado ao voto feminino evangélico e ao discurso da “família tradicional”, passou a disputar espaço diretamente com outra corrente que, nos bastidores, já vinha se consolidando: o "eduardismo".

Eduardo Bolsonaro, que hoje vive nos Estados Unidos, tenta se firmar como herdeiro político direto do pai. Desde o início, foi considerado o filho mais “intelectualizado” do clã e se tornou o principal elo da extrema direita brasileira com a direita internacional, especialmente com os republicanos norte-americanos.

Nos últimos meses, ao lado do lobista Paulo Figueiredo, Eduardo usou essa influência para pressionar o governo dos EUA a retaliar autoridades brasileiras por causa do julgamento do pai por tentativa de golpe. Porém, a vitória contra Alexandre de Moraes, sancionado pela Lei Magnitsky, não teve o impacto que esperava, tampouco impediu a prisão de Bolsonaro após o anúncio de Donald Trump sobre a taxação em 50% sobre produtos brasileitos 

O eduardismo se ancora em um discurso radicalizado, com forte componente familiar, defendendo que a sucessão política do pai deve continuar, quando não dentro da própria linhagem biológica, referendada por ela. É uma posição que rejeita soluções do “sistema” e que resiste ao crescimento de Tarcísio de Freitas como alternativa moderada para disputar 2026.

Para Eduardo, qualquer aproximação com o centro dilui o bolsonarismo "puro sangue"; o que, ao seu modo, foi confirmado por Gilberto Kassab (PSD), que declarou nesta terça-feira (02) que Tarcísio erra ao não se distanciar do bolsonarismo. 

Esse movimento difere do "nikolismo", ligado ao deputado Nikolas Ferreira e à deputada Ana Campagnolo, que desde 2023 articulam uma estrutura política própria, marcadamente "digital" e relativamente autônoma da família Bolsonaro. O racha em Santa Catarina marcou esse distanciamento: Campagnolo se recusou a apoiar Carlos Bolsonaro ao Senado e defendeu candidaturas locais. Nikolas apoiou a colega, e Eduardo reagiu acusando o mineiro de liderar uma “dissidência”.

Segundo mensagens divulgadas por Eduardo, Nikolas estaria querendo romper com o peso Bolsonaro, mas sem perder o eleitor bolsonarista. 

Eduardismo X Michelismo 

É nesse contexto que Michelle Bolsonaro entrou em rota de colisão mais aberta com a família. À frente do PL Mulher, Michelle percorre o país e se tornou um dos maiores ativos eleitorais do partido, associando sua imagem ao público feminino conservador. Analistas destacam que seu apelo religioso e maternal dialoga com setores que possuem resistência à figura agressiva de Jair Bolsonaro.

Mas a relação com os enteados sempre não é uma novidade. O deputado Julian Lemos (União-PB), ex-aliado de Bolsonaro, já chegou a afirmar  publicamente que Michelle e os filhos do ex-presidente mantêm um histórico de conflitos, em especial com Carlos. O pouco que restava de cordialidade pública terminou após Eduardo acusá-la, está semana, de atropelar decisões do pai sobre alianças no Ceará.

O atrito se segue recente ocorreu quando Michelle divulgou o livro de Campagnolo e Nikolas, em meio a uma briga interna sobre candidaturas ao Senado. Na ocasião, ela reforçou apoio à deputada Carol de Toni, que ameaçou deixar o PL caso o partido priorizasse Carlos Bolsonaro na disputa.

O resultado é uma divisão explícita em três núcleos definidos dentro do bolsonarismo:

  • o "eduardismo", centrado na família, no radicalismo e na articulação internacional;
  • o "tarcisismo", apoiado por setores do centrão, do mercado e da mídia liberal;
  • e o "michelismo", que, podendo assumir uma aliança "tática" com a “juventude” de Nikolas e Campagnolo contra aqueles outros dois, tenta se sustentar no eleitorado feminino religioso, considerado hoje um dos grupos mais decisivos das eleições majoritárias.

A disputa pelo espólio de Jair Bolsonaro deixou de ser velada e passou a ocorrer à luz do dia. E, ao que tudo indica, ainda está longe de um desfecho.

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