Banido da mídia corporativa desde que foi preso por corrupção e cumpriu pena, o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, tem um motivo especial para celebrar a prisão do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil).
Rodrigo é filho do cacique político que disputa com a família Garotinho o curral eleitoral de Campos dos Goytacazes.
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Marcos, o pai, foi vereador por três mandatos e emplacou o filho deputado estadual em 2018, pelo Solidariedade, com 26.135 votos.
Bacellar surfou no bolsonarismo e em 2022, pelo PL, teve 97.822 votos. Há indícios de que a máquina pública turbinou sua votação.
Bacellar chefiou a Secretaria de Governo, o coração do governo de Cláudio Castro, do PL, em 2021 e 2022.
Sintonia com Cláudio Castro
Em seguida, Rodrigo Bacellar tornou-se presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, cargo para o qual foi reeleito sempre em sintonia com Castro, que pretendia lançá-lo candidato a governador em 2026.
Os dois teriam rompido depois que Bacellar, exercendo o cargo temporário de governador, afastou um aliado de Castro do governo sem consultá-lo.
Hoje, o presidente da Alerj foi preso pela Polícia Federal acusado de vazar para o deputado TH Joias a Operação Zargun, da PF, que levou o ex-deputado joalheiro à cadeia.
Bacellar teria avisado TH Joias horas antes da ação, permitindo que o então deputado estadual destruisse provas e trocasse de celular.
Condenado por tráfico de drogas, TH Joias só assumiu sua cadeira na Alerj depois da morte de dois deputados.
Ele chegou a cumprir alguns meses de sua condenação de 14 anos de prisão por tráfico. Mesmo assim, através de um habeas corpus, o traficante ligado ao CV passou a responder ao processo em liberdade e assumiu a vaga na Alerj com apoio de Bacellar.
A Polícia Federal suspeita que TH Joias tenha um caso com o traficante Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, do Comando Vermelho.
Ele é suspeito de utilizar uma franquia do Flamengo em Mato Grosso do Sul para lavar dinheiro.
A operação de hoje foi batizada de Unha e Carne, justamente por conta da intimidade entre TH Joias e Bacellar.
Apesar do rompimento entre Bacellar e Cláudio Castro, é impossível apagar a vida pregressa de ambos.
Castro era íntimo de TH Joias, o deputado bandido, que colocou em seu gabinete da Alerj pessoas ligadas ao crime organizado.
Na Operação Zargun, a original, a PF prendeu um delegado da Polícia Federal, Gustavo Stteel, e três policiais militares.
Carracena teria sido indicação do senador Flávio Bolsonaro, que nega.
O delegado Steel, da PF, era um notório ostentador nas redes sociais e chegou a publicar um anel de noivado produzido por TH Joias:
Olha sua obra de arte!!! Obrigado.
O objetivo de Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, expulso às pressas do MDB, era saber antecipadamente de todas as ações da polícia contra o crime organizado, especialmente o Comando Vermelho.
A PF suspeita que ele importava fuzis do Paraguai, comprava equipamento antidrone na China e lavava o dinheiro do CV.
Ainda não se sabe se a operação de hoje foi a sequência natural da Zargun, ou se TH Joias deu a dica buscando fazer delação premiada.
A intimidade entre TH Joias e Bacellar era tamanha que, além de orientar o deputado do MDB a fugir, Bacellar trocou mensagens com o colega de Alerj, dando orientações para que ele deixasse tudo para trás:
Deixa isso, tá doido? Larga isso aí, seu doido.
Era referência a um freezer que TH Joias tinha em casa.
Garotinho fez a previsão
Anthony Garotinho, cuja opinião agora é desprezada pela mídia corporativa, havia advertido nas redes sociais:
Como eu havia previsto há alguns dias, Rodrigo Bacellar acaba de ser preso.
Garotinho, que tem seus informantes em Campos e no Rio, foi muito além.
Segundo ele, o ouro com o qual TH Joias confeccionava suas jóias seria originário de propinas pagas por empresas que fecharam contratos com o governo de Cláudio Castro.
Ou seja, TH Joias seria um "laranja" do esquema para lavar dinheiro.
Zargun, o nome dado pela PF à primeira fase da operação, significa "banhado em ouro".
Ela aconteceu no dia 3 de setembro.
Em 28 de outubro, Cláudio Castro deflagrou a megaoperação que matou 121 pessoas na Maré e na Penha, Zona Norte do Rio, tendo como alvo o Comando Vermelho.
Pela cronologia, há a suspeita de que Castro agiu assim para se afastar do Comando Vermelho, de TH Joias e de Bacellar e posar de vestal.
A megaoperação de Castro vazou e nenhum daqueles que eram alvos de mandado de prisão foi preso. O governador não avisou a Polícia Federal antes de agir.
Castro, candidato a senador pelo Rio de Janeiro, recuperou parte de sua popularidade em função da mortandade.
Porém, com a prisão de Rodrigo Bacellar, o castelo de cartas do governador do Rio de Janeiro pode desabar a qualquer momento, especialmente se TH Joias, sem outro recurso, decidir "cantar" tudo o que sabe.
Lavagem em Delaware
O governador Cláudio Castro vem posando de combatente do crime organizado apesar da PGE do Rio de Janeiro, sob seu comando, ter dado parecer para liberar a apreensão de navios de Ricardo Magro, o dono da Refit, determinada pela Receita Federal.
Magro, em vez de refinar petróleo em Manguinhos, importava combustível pronto para consumo, deixando de pagar impostos e tratorando a concorrência.
O ministro Fernando Haddad resumiu:
Queremos pautar, com os Estados Unidos, conversas sobre crime organizado. Estão abrindo empresas em Delaware (EUA). Faz um empréstimo para esses fundos, que é a suspeita da Receita de que jamais serão pagos, e voltam em forma de aplicação no Brasil, como se fosse um investimento estrangeiro direto.
A suspeita é de que Magro contaria, no mínimo, com a anuência de Cláudio Castro para operar seu esquema.
A juíza do caso, Marcia Mayumi Okoda Oshiro, escreveu:
O conjunto probatório de autoria e materialidade revela a existência de uma sofisticada organização criminosa de natureza familiar, liderada por Ricardo Andrade Magro, que instrumentalizou a sonegação fiscal como seu principal motor de financiamento.
O prejuízo à União teria sido de R$ 26 bi.
Magro vivia em Miami numa mansão que já foi do astro do basquete Le Bron James. Foi avaliada em R$ 100 milhões em uma transação recente. A mansão tem seis quartos, oito banheiros e casa de hóspedes, além de ancoradouro com vaga para duas embarcações.
Maior devedor de ICMS do Rio de Janeiro e de São Paulo, Magro se tornou alvo do governador Tarcísio de Freitas, que correu para assumir a paternidade da Operação Poço de Lobato, que nasceu da Carbono Oculto. Nenhuma delas teria acontecido não fossem a Polícia e a Receita federais.
Tarcísio é o candidato da Faria Lima, onde a PF desbaratou esquemas de lavagem de dinheiro do PCC.
Castro, o governador do Rio, não fez o mesmo que Tarcísio por motivos óbvios: ele esteve presente a um evento promovido por Magro em Nova York, no qual o sonegador encontrou-se reservadamente com três secretários de Estado do governo do Rio.
Do evento também participaram o presidente da Câmara, Hugo Motta, o ministro Luís Roberto Barroso e o senador petista Jaques Wagner.