A ativista, jornalista e escritora Manuela D'Ávila esteve no Fórum Onze e Meia desta sexta-feira (22) e conversou sobre as últimas agitações políticas em torno do debate da regulação das redes sociais para a proteção de crianças e adolescentes na internet. A ex-deputada também debateu a violência política de gênero contra mulheres que se arriscam nas candidaturas políticas, como foi o caso dela.
Manuela, que tem se dedicado ao estudo sobre a influência das ideias de liberdades americanas na regulação da internet brasileira, analisou que a aprovação do PL 2628/2022 nesta semana aconteceu porque desde o início dos marcos legais sobre internet no Brasil há um pânico sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes em ambiente digitais, o que mobilizava a própria direita.
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"A pedofilia sempre mobilizou uma parte da direita a favor do regramento da internet. Então, o que aconteceu ali foi a junção do que a gente chama de 'janela de oportunidade'. Porque junta a turma que defende regulação das redes com a turma que tem pânico do ambiente virtual se transformar em um ambiente de pedofilia, proporcionado por um youtuber que se relaciona num sentido mais amplo com uma parte da sociedade", analisou Manuela. "Então, foi uma combinação de elementos que proporcionou a primeira votação."
No entanto, ela ressaltou que não é possível prever como esse projeto chegará ao Senado, e a "porta" das big techs pode voltar a ser materializada como aconteceu com a votação do PL 2630, chamado de "PL das Fake News". Ela relembrou que o projeto começou a avançar quando houve o episódio de ameaça de atentados simultâneos em escolas brasileiras na data de nascimento do Hitler, em abril de 2023. Porém, na época, o Google entrou forte nesse processo e começou a promover anúncios que relacionavam o PL com "censura".
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Nesse sentido, ela defendeu que a aprovação em primeiro turno do "PL da Adultização" não é um parâmetro comparativo para a regulação das redes. Porém, celebra que pelo menos essa pauta já se intensificou no governo, porque com o PL 2630, até o próprio governo errou. "Acho que o governo errou muito por um período tentando construir um projeto ideal e não entrando de cabeça no Relatório do Orlando", afirmou Manuela, se referindo ao projeto do deputado federal Orlando Silva (PCdoB).
"Então, acho que pelo menos já entrou na agenda. Não estava centralmente na agenda internacional do governo até anteontem", criticou Manuela, que também relembrou que, quando ela falava sobre o tema em 2018, era taxada de "jovenzinha rebelde" que não estaria tratando de pautas centrais e sendo "identitária" e "feminista" demais.
Nesse cenário, a jornalista também afirmou que os ataques de Donald Trump contra o Brasil também facilitam esse processo de debate da regulação das redes, porque fica nítido que as big techs não são empresas transnacionais, mas sim de interesses estadunidenses. Manuela destacou que seu trabalho resgata justamente o momento em que a internet se torna comercial no mundo,entre o final da década de 1980 e começa da década de 1990. "É também o momento da queda do Muro de Berlim, então a gente ignora que o modelo de internet vitorioso é fruto de uma vitória geopolítica maior dos Estados Unidos", afirmou.
"E é o momento que uma parte da esquerda – aqui eu não falo querendo demarcar – mas uma parte da esquerda anticomunista, no sentido de que refutava a União Soviética, acha que ali [internet] é um espaço de construção da liberdade. E o que eu relato na minha tese é justamente a ideia de como essa liberdade sempre foi a liberdade norte-americana, que sempre foi uma disputa fadada ao fracasso", analisou Manuela.
"Porque originalmente o projeto vencedor, ou seja, a internet que nós conhecemos, que não é a soviética, que não é a chilena, é essa internet forjada por grupos que, inclusive, originalmente são masculinistas. Olha que louco, né?", acrescentou.
"Então, eu faço uma revisão grande sobre essa origem da internet pra gente perceber como muitas das coisas que a gente vê agora, elas têm uma história de construção, e é uma história forjada no ideal de liberdade do Thomas Jefferson, que achava que os seus escravos não eram humanos como ele", destacou Manuela.
Ela completou o tema afirmando que isso também tem a ver, mais profundamente, com a falta de um projeto nacional, forjado com o complexo de vira-lata, de que é impossível o Brasil desenvolver coisas grandiosas e de realizar um grande destino.
Violência política de gênero
Questionada sobre a possibilidade de se candidatar nas eleições do próximo ano, Manuela destacou os fatores que a levaram a sair da política, como a intensa violência que sofreu por ser uma candidata mulher, de esquerda e feminista. "Eu sou a única pessoa no Brasil que disputou dois segundos turnos contra o bolsonarismo. Porque eu disputei 2018, disputei 2020, e disputei em termos que também foram muito cruéis, porque em 2018 poucos de nós sabíamos o que era fake news. Setores expressivos da esquerda ainda achavam que a responsabilidade das fake news era das vítimas", relembrou ela, que sofreu violentas campanhas de desinformação, além de ataques e ameaças misóginas nas redes.
Manuela ressaltou que o movimento "Ele Não", que tomou as redes e as redes em 2018, teve sua grandiosidade apagada da história justamente porque sofreu com intensas fake news e as organizações não sabiam como lidar com isso.
"O 'Ele Não' foi apagado da história da esquerda porque nós, uma parte da esquerda, não sabíamos lidar com a desinformação. Olha que loucura. As mulheres do Brasil se levantaram, fizeram em 2018 o que o presidente Lula fez em 2022, defenderam frente ampla contra a extrema direita. Vocês lembram que no "Ele Não' tinha até o Novo? Até o mandato do Amoedo participava do "Ele Não'. E aí a gente conseguiu a tática da frente ampla com uma agenda avançada para a extrema direita e nós apagamos da história a maior manifestação de rua do último período conduzida pelas forças progressistas. Por quê? Porque fizeram fake news e a gente não soube lidar com aqui", analisou.
"Então, a minha reflexão sobre a minha volta é uma reflexão que passa pelo fato de eu ter me afastado da política institucional para conseguir superar a dimensão da violência que sofre uma mulher no ambiente público", destacou.
"Uma dimensão que nos faz ameaçadas de morte todos os dias, uma dimensão que coloca a vida das nossas crianças em risco e que, felizmente, a maior parte dos nossos companheiros sequer entende. Eu digo que felizmente porque eu não quero que eles passem pelo que a gente passa, mas a gente precisa entender o que é a dimensão da violência contra mulheres no espaço público brasileiro, mulheres políticas, mulheres educadoras", afirmou.
Manuela citou, por exemplo, o Movimento Brasil Livre (MBL), que tem como principal alvo ataques às mulheres. "Eles perseguem, em sala de aula, professoras. São as mulheres que estão na base da nossa sociedade nas salas de aula, são as advogadas que são perseguidas, as jornalistas que foram perseguidas. Então, assim, não falar sobre isso é não entender uma parte da construção de ofensiva política da extrema direita contra a esquerda", declarou.
A ativista afirmou, ainda, que traz destaque a esse tema porque, às vezes, as pessoas acham que disputar a eleição é questão de desejo. "Para quem é militante, para quem tem compromisso, não é só de desejo, é de compromisso", disse.
"Mas o compromisso que as mulheres têm que assumir para concorrer tem um grau de destruição da possibilidade de seguirem vivas", afirmou Manuela. E acrescentou que não é saudável que a esquerda brasileira negligencie esse fator e faça de conta que não acontece para seguir adiante.
"Fazer de conta que não aconteceu nada comigo nesse último período, que eu não concorri porque eu não quis é não entender o que aconteceu e acontece no Brasil com as nossas mulheres políticas. Quase todas as nossas deputadas federais andam de carro blindado. E a gente passou a achar isso normal. Algo de errado há, né? Gravíssimo".
Confira a entrevista completa de Manuela d'Ávila ao Fórum Onze e Meia
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