60 anos da renúncia de Jânio Quadros: Paralelos com Jair Bolsonaro

Na data que marca o aniversário da frustrada tentativa de autogolpe do homem que varreria a corrupção do Brasil, a Fórum foi ouvir historiadores sobre as semelhanças entre ele o atual presidente, assim como as diferenças

25 de agosto de 1961. O presidente da República, Jânio Quadros, renuncia ao cargo e alega ser vítima de “forças terríveis”. Num bilhete escrito à mão, diz ter sido vencido pela “reação” e dedica seu sacrifício “às famílias, estudantes, operários e às Forças Armadas”. Seu vice (à época eleito separadamente em relação à chapa do presidente) era João Goulart, herdeiro do Varguismo e com a pecha de comunista, figura diametralmente oposta, no espectro político, a ele.

O cálculo de Jânio foi claro: Renunciaria, deixando “a população”, as Forças Armadas e o Congresso de cabelos em pé com a possível chegada de um amigo da União Soviética ao poder. Na sua cabeça, seria reconduzido à Presidência pelas súplicas do povo, dos militares e dos parlamentares, agora sim dando valor a ele e temerosos com a ameaça vermelha. Só que deu tudo errado.

A renúncia de Jânio foi aceita em dez minutos pela mesa da Câmara dos Deputados, presidida por Ranieri Mazzilli, e ninguém pediu para que ele permanecesse. Mesmo com toda a celeuma que surgiria na sequência por conta da ascensão de João Goulart, o agora ex-presidente nascido no Mato Grosso do Sul e que fizera carreira política ocupando os cargos de deputado, prefeito e governador de São Paulo, passaria para a História como uma figura excêntrica, moralista, desajeitada e, para muitos, patética e de nuances autoritárias.

Jânio elegeu-se com 48% dos votos em 1960, pela coligação PTN-PDC-UDN-PR-PL. Sua meteórica popularidade foi construída com base num discurso conservador, ultramoralista, recheado de clichês, como o combate à corrupção, que serviu inclusive de inspiração para sua campanha, que usava uma vassoura, instrumento que seria utilizado pelo homem de português castiço para varrer os corruptos brasileiros do mapa.

O discurso e as bobagens moralistas lembram alguém? E a tentativa de se opor às demais forças políticas do Brasil, colocando-se num pedestal como divindade anticorrupção e única saída para salvar a nação? Pois bem, a reportagem da Fórum foi ouvir historiadores nesta data tão marcante para traçar um paralelo entre Jânio Quadros e Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil, e explicar melhor essas semelhanças entre os dois chefes de Estado desengonçados, dramáticos e cheios de ambições autoritárias, assim como também para traçar as diferenças fulcrais entre eles.

Para Cesar Agenor Fernandes da Silva, professor da Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO-PR), que é doutor em História pela UNESP, realmente os dois presidentes usaram e abusaram da imagem de “outsiders”, embora vivessem na política por muito tempo. Mas ele salienta que há também muitas diferenças nesse aspecto.

“O Jânio veio com esse discurso muito forte de ‘outsider’, de ser antissistema, anti-establishment político, um discurso que Jair Bolsonaro vai adotar já alguns anos antes da eleição de 2018, de quem é contra o sistema, contra tudo isso que tá aí, sendo que ambos eram políticos experimentados. A única diferença é que Jânio já tinha experiência no poder Executivo e o atual presidente não tinha experiência nem como presidente de comissão na Câmara. Vale lembrar que esse discurso anticorrupção é muito presente ao longo de toda a História do Brasil. Lá em setores do Império, os próprios militares já tinham um discurso desse tipo, por exemplo. Os militares lá atrás já tinham essa conversa de que eles detinham uma reserva moral, ainda no Império. E não para por aí, já que lá em 1924, no tenentismo, oriundo das forças públicas, as antigas polícias militares, assim como o baixo oficialato do Exército, obviamente sob comando de algumas figuras mais graduadas, também havia o discurso de que os políticos acabavam com a nação. O Jânio então repete esse discurso, e de certa forma também o JK (Juscelino Kubitschek). Jair Bolsonaro vai, em 2018, por esse mesmo caminho e se aproveita do desgaste dos partidos e figuras políticas tradicionais, como o PT e o PSDB, e junto na esteira vem o MDB, por uma série de razões e contextos, mas sobretudo pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff”, explicou.

Sobre o papel de vítima assumido por Jânio, que estaria sendo vencido pelas “forças terríveis” e pela corrupção, que de alguma maneira é similar ao discurso de Bolsonaro, que vive pelos cantos reclamando que não o deixam em paz e nem governar, quando na verdade ele próprio mostra-se completamente inapto para governar o país, criando crises desnecessárias o tempo todo, o acadêmico contextualiza.

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“O Jânio falava dessas ‘forças terríveis’ e tinha um governo com pouco apoio no Congresso. Diante disso, ele tentava mobilizar a opinião pública para se impor ao Congresso, e há registros históricos que mostram que ele queria, que ele estava tentando um golpe contra o Congresso, que seria ao mesmo tempo um autogolpe, para se fixar no poder e estabelecer um governo autoritário. No entanto, sempre que algo não saía da forma como ele desejava, ele terceirizava a culpa, muito parecido, embora não exatamente igual, ao que faz Jair Bolsonaro. O atual presidente sempre terceiriza a culpa daquilo que é de responsabilidade dele, ou do governo federal comandando por ele, pondo a culpa no outro. A criação desses ‘inimigos artificiais’ por parte de Bolsonaro faz parte, na verdade, de uma estratégia para manter sempre a sua base em movimento, sempre em campanha, sempre em combate ao ‘inimigo’. Ele sempre faz surgir novas crises para não perder esse sentido e essa sensação de movimento. Com seus 25% de bolsonaristas fiéis, o que parece é que ele está trabalhando apenas para a reeleição, e não trabalhando para governar. Isso já foi visto em outros momentos da História, como nos movimentos e regimes autoritários da Europa das décadas de 20 e 30 do século passado, que adotam essa mesma estratégia, de eleger um inimigo forjado para manter as bases em movimento constante.”, compara.

O historiador da UNICENTRO-PR faz questão de ressaltar uma diferença substancial que há entre os dois ocupantes: a relação e os mecanismos de apoio dentro do Congresso Nacional.

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“Quando Jânio passa a enfrentar o Congresso, e ele se elege por uma base que é a UDN, por um pilar importante da política brasileira, e que fazia política, ele perde essa capacidade de fazer política e parte para o conflito. Ele não tinha muito como governar, então vai forçando a situação, impondo ao Congresso alguma governabilidade. Já o presidente Jair Bolsonaro, se analisarmos essa votação recente da PEC do voto impresso, que mesmo não sendo vencedora recebeu um número de votos favoráveis por parte dos deputados maior do que os votos contrários, não tem perdido o Congresso. Suas bases no parlamento ainda são fortes, sobretudo com essa levada de figuras tradicionais da política, do tal centrão, para dentro do governo, que fortalecem o governo. O que ocorre é que ele agora está refém dessa situação, ele precisa cada vez mais dar espaço para o chamado centrão, numa espécie de chantagem. Isso marca uma forte diferença da situação dele (Bolsonaro) para o Jânio.”, disse.

O tal apelo popular e amparo político no povo, que ambos sempre frisaram desde a chegada ao Planalto, mas que no caso de Jânio não se mostrou real, uma vez que após sua renúncia quase ninguém se levantou para demovê-lo da ideia, foi igualmente comparado por Silva.

“O Jânio tinha apoio popular, ele era uma figura popular, mas essa popularidade não era grande o suficiente para gerar uma base janista que fosse pra rua pra se revoltar contra o sistema político, pra que fosse clamar para que Jânio ficasse, algo como “pelo amor de Deus, fique!”. Soma-se a isso o fato da Constituição de 1946 estipular que você votasse para presidente e vice-presidente separadamente, o que neste caso elegeu duas forças políticas completamente antagônicas. Então Jânio representava o antivarguismo, o antissistema, até mesmo o anti-JK, e ao mesmo tempo havia sido eleito vice-presidente o Jango (João Goulart), o herdeiro político do varguismo e do trabalhismo. Ele calculou que sua renúncia provocaria uma reação nos militares que impediria a chegada ao poder de Jango e que com isso voltaria por cima, com mais força. Mas não deu certo, até porque a renúncia dele foi aceita em dez minutos pelo Congresso. Não houve mobilização popular alguma. No caso de Jair Bolsonaro há um movimento popular muito bem organizado, que tem como fonte de informação principal uma manipulação da realidade. Você diz a essas pessoas ‘não assista aos jornais, toda a mídia é comunista’ e elas seguem isso. E ele faz uso disso. Como diz o Érico Verissimo em Incidente em Antares, todo setor reacionário vai se utilizar do fantasma do comunismo, mas isso nos dias de hoje, em 2021, é algo ridículo, completamente fora de propósito. Ele não tem a maioria da população em torno de si, mas tem uma minoria e que é muito barulhenta e essa questão do apoio de pessoas armadas, do poder repressivo do Estado.”, completou.

Moralismo como fonte de mobilização no Brasil

O historiador Marcelo Cardoso da Silva, professor há mais de 20 anos em cursos preparatórios pré-vestibulares do Estado de São Paulo e formando na Universidade Estadual Paulista (UNESP), falou a respeito de uma característica comum de Jânio Quadros e Jair Bolsonaro: o papel central dado a aspectos morais que muitas vezes soam como oportunismo político e hipocrisia.

“O moralismo de Jânio era um dos principais instrumentos para angariar simpatia e apoio. O processo de formação de sua figura política está entrelaçado com as suas opiniões e posturas moralistas, como todo populista. Ocorre que Jânio ainda misturou o moralismo com uma teatralidade que dava aspecto de tragédia e comédia ao mesmo tempo, impondo a moralidade com uma certa sutileza, que os outros populistas não conseguiram impor”, esclareceu.

Ainda assim, para Cardoso da Silva há uma significativa diferença nos aspectos apelativos morais entre os dois presidentes, até mesmo por conta das diferenças percepção política entre eles.

“Em geral, todo o moralista é dissimulado, e esses dois com certeza são. O moralismo janista era mais calculado, interpretando o que a sociedade esperava dele e mantendo os seus opositores sempre sob pressão. As suas palavras eram medidas e suas ações, geralmente, eram muito bem premeditadas. Jânio sabia jogar com a sua figura moralista com estratégia. Um exemplo é a condecoração de Ernesto Che Guevara, em plena Guerra Fria, com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, uma das maiores honrarias nacionais. O moralista Jânio, se comparado com Bolsonaro era um gentleman, não só pela sua formação intelectual, mas também pela inteligência e perspicácia. Bolsonaro, neste caso, é um oportunista que se escora em grupos moralistas para ter o local de fala e apoio, mesmo que seja ‘fake’. Acredito que a diferença fundamental entre o moralismo de Jânio e o de Bolsonaro é que o primeiro tinha domínio sobre as suas ideias moralistas, enquanto que o segundo é controlado por elas, um fantoche desastrado diante do mundo real.”, opinou.

Quando perguntado sobre o destino de Jânio, com a renúncia, e a hipótese de que algo do tipo ocorra com Jair Bolsonaro, o historiador se esquiva de previsões, como é normal entre esses profissionais, mas faz algumas considerações tendo em conta informações do passado e o cenário político atual do Brasil.

“É muito difícil prever o futuro. O papel do historiador de certa forma é apenas ‘prever’ o passado, o que já não é nada fácil. No entanto, é possível retomar a resposta anterior. Jânio tomava atitudes individuais, não existia, como no caso de Bolsonaro, uma ‘equipe’ de apoio, incluindo os seus filhos, alguns militares e outros que não quero nem imaginar quem são. Jânio Quadros tinha esperança num levante popular ou no medo dos conservadores com a figura do seu vice João Goulart, que o manteriam no poder com poderes ilimitados como um guardião de um Brasil não comunista. Muitos apontam que ele estava embriagado ao escrever e enviar a carta de renúncia ao Congresso, o que nunca foi provado, mas é possível. No caso do Bolsonaro a situação é outra, ele não age só e o grupo que o apoia tem muito a perder com uma saída imediata. Existem muitos processos e investigações em andamento, que têm seus filhos e outros aliados próximos como alvos. Acredito que se ele sair (renunciar), sairá atirando, ou seja, buscando atingir a maioria dos seus opositores para tentar escapar de processos e julgamentos futuros”, encerrou.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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