A macabra sessão de cinema da Assembleia Legislativa de São Paulo

Um grupo de deputados abriu as portas do auditório Paulo Kobayashi, dentro da Alesp, para a exibição do filme "1964, o Brasil entre armas e livros". A obra é da Brasil Paralelo, uma produtora que tem se especializado em reescrever a história do Brasil a partir de ideologias, distorções e mentiras

Reprodução/Youtube
Escrito en POLÍTICA el
Por Joana Monteleone*, no Opera Mundi Quando morreu, o historiador francês Marc Bloch deixou inacabado o manuscrito Apologia da história ou O ofício do historiador, publicado em 1949 pelo amigo e também historiador Lucien Fevbre. Judeu, Bloch deixara a direção da mais importante revista de história da época, a Revue des Annales, para entrar na resistência ao nazismo. Foi pego, torturado e fuzilado por nazistas próximo à cidade de Lyon no dia 16 de junho de 1944, dias antes da libertação da França. No manuscrito inacabado, Bloch, incontestavelmente um dos maiores historiadores do nosso tempo, discorre sobre a importância da história para a humanidade. Ele conclama os historiadores a saírem dos gabinetes de pesquisa e colocarem as experiências teóricas na vida prática, da luta. Essa longa preleção se fez necessária para comentar os terríveis acontecimentos que tiveram lugar no último dia 8 de abril na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Um grupo de deputados abriu as portas do auditório Paulo Kobayashi, dentro da Alesp, para a exibição do filme 1964, o Brasil entre armas e livros. O filme é da Brasil Paralelo, uma produtora que tem se especializado em reescrever a história do Brasil a partir de ideologias, distorções e mentiras. O evento foi organizado pelo deputado do PSL Douglas Garcia, que atacou a comunidade LGBT num dia e acabou por se assumir homossexual na sequência, e Castello Branco, também do PSL. Ainda na mesa, se encontravam o Cabo Anselmo, informante da ditadura, o delegado Paulo Sérgio Oppido Fleury (filho do delegado Fleury, do Dops) e o ex-delegado Carlos Alberto Augusto. Anselmo, Fleury pai e Carlos Alberto, todos muito envolvidos com os crimes da ditadura militar. Na plateia estavam apoiadores da ditadura e do presidente Bolsonaro. Não houve qualquer debate ou polêmica, já que os presentes apoiaram os integrantes da mesa quando os mesmos homenagearam com aplausos e palmas o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, conhecido torturador paulista que dirigiu o DOI-Codi, o órgão responsável pelo sequestro, tortura e morte de opositores da ditadura, localizado na rua Tutoia. Foi no DOI-Codi, por exemplo, que o jornalista Vladimir Herzog morreu, depois de uma sessão de tortura em 25 de outubro de 1975. O filme exibido no auditório é recheado de incongruências, distorções e mentiras históricas, que não vale a pena abordar, tão batidas que são – e tão inconsistentes e contestadas por historiadores comprometidos com os fatos. Não passam nem por detector de mentiras, nem por uma análise mais apurada. O principal objetivo da sessão era marcar um território, recolocar a Alesp – e o auditório Paulo Kobayashi – sob as asas da ditadura. Foi na Alesp, com muitas sessões no auditório, que tomou lugar a Comissão da Verdade Estadual Marcelo Rubens Paiva, encabeçada pelo geólogo e então deputado estadual Adriano Diogo. Nas audiências públicas neste auditório, ficou claro o papel na ditadura militar, as técnicas de tortura foram explicitadas com depoimentos e documentos, os agentes da repressão foram nomeados, as vítimas puderam contar suas histórias de terror nas mãos dos agentes do Estado. Durante uma das audiências da comissão, foi lançado o livro A casa da vovó, uma biografia do Doi-Codi, do jornalista Marcelo Godoy, vencedor do prêmio Jabuti de 2015. O livro, do que qual fui editora, juntamente com Haroldo Ceravolo Sereza, é o mais contundente relato de como funcionava a repressão e o que acontecia exatamente na delegacia da rua Tutoia. Marcelo Godoy conversou com os próprios agentes, policiais civis, policiais militares e militares do Exército, que trabalharam lá. Muitas vezes esses depoimentos foram anônimos, tamanho terror que causam inclusive nos torturadores até hoje. Histórias de violência gratuita e morte foram reveladas, como a do arquiteto e artista plástico Antonio Benetazzo, que depois de torturado, deveria ter sido morto. Seu corpo estava no carro, pronto para ser protagonista de um falso acidente, quando acordou. Os responsáveis por essa ação, então, voltaram ao sítio na zona sul da cidade de São Paulo, onde Benetezzo passara a última noite, e voltaram a golpeá-lo no rosto, provavelmente com um tijolo, até terem certeza de sua morte. Em seguida, foi levado a um ponto de ônibus, à espera do melhor momento para o “teatrinho”, como os integrantes do DOI chamavam esse tipo de operação: quando um caminhão estava passando, seu corpo foi lançado, numa simulação de suicídio. Um caminhão passou por cima dele. No inquérito aberto na delegacia para o caso de atropelamento, o motorista afirmou que estranhou que o rosto de Benetazzo estivesse tão desfigurado, uma vez que não tivera a sensação de ter passado por cima de sua cabeça. O delegado que registrou o BO, codiretor do teatrinho, explicou: talvez o corpo tenha subido e batido no assoalho do caminhão quando a roda passou por cima dele. O motorista, então, não ousou insistir em contestar a autoridade. O livro de Godoy foi lançado no dia 11 de dezembro de 2014, no mesmo auditório Paulo Kobayashi na Alesp, numa sessão presidida pelo deputado Adriano Diogo. Na plateia, muitas vítimas da ditadura, entre elas Amelinha Teles, torturada por Ustra, e sua filha Janaína Teles, que, criança, viu sua mãe ensanguentada, após um espancamento na chamada “cadeira do dragão”. Janaína e seu irmão Edson foram sequestrados pelos policiais do DOI e enviados para a casa de um tio delegado em Belo Horizonte, sem o consentimento dos pais, aonde ficaram em cárcere privado até serem resgatados por outros familiares. Em determinado momento do evento, entrou, tentando ser solene, o ex-delegado Carlos Alberto Augusto, também conhecido como Carteira Preta ou Carlinhos Metralha. Chegou vestindo um smoking dos anos 1970, com um capacete antigo, usado em 1932 – numa alusão à intentona paulista que tentou derrubar Getúlio Vargas. Ele veio acompanhado de outros delegados e policiais do interior do Estado, todos armados, dentro do auditório, fazendo questão de exibir seus coldres e pistolas. Na parte em que o público podia fazer perguntas, Carlos Alberto pegou o microfone e passou a dizer impropérios desconexos, afirmando que Janaína e Amelinha mentiam. O vídeo com a sessão pode ser visto aqui. Imediatamente, Marcelo tomou o microfone e passou a descrever alguns dos atos praticados pelo Carteira Preta, incluindo o Massacre da Chácara São Bento, nos arredores de Recife em 1973. Na ocasião, morreram 6 militantes da VPR, incluindo Soledad Viedma, grávida de 6 meses do Cabo Anselmo, o mais conhecido agente infiltrado na esquerda, que também estava presente na sessão de cinema macabro de dia 8 de abril de 2019. Desde o lançamento do livro, nenhum fato descrito do volume foi contestado por nenhum agente da repressão. Não podem alegar desconhecimento, pois na ocasião Carlos Augusto levou dois exemplares, um deles para o coronel Ustra, que ainda vivia. A Comissão da Verdade usou diversas vezes o auditório Paulo Kobayashi. Em muitas sessões, apoiadores da ditadura assistiram, mudos, à fala de historiadores e depoimentos de vítimas – foram mais de mil depoimentos e muitos casos esclarecidos. A entrega do relatório final, em março de 2015, foi feita numa sessão abarrotada, sendo aplaudidos de pé os diversos oradores que falaram naquele dia. Usar o auditório hoje para passar um filme que exalta a ditadura militar e seus torturadores, recheado por mentiras e fatos distorcidos largamente já contestados por vítimas e historiadores, tem vários significados macabros. O primeiro significado, e mais evidente, é a tentativa de apagamento da história recente do país: 1964 não foi um golpe, nunca tivemos uma ditadura, ninguém nunca foi torturado (apenas alguns excessos foram, talvez, cometidos pela esquerda), mas, paradoxalmente, o golpe, a ditadura e a tortura que não existiram livraram o país do fantasma do comunismo. Os acontecimentos que envolveram a ditadura militar – a repressão e morte de militantes de esquerda, de líderes camponeses, de sindicalistas, de índios – está fartamente comprovada por depoimentos de vítimas e torturadores, e também por documentos produzidos pelo próprio regime, que incluem relatórios de espionagem e tortura, organogramas das agências de espionagem nas empresas e instituições públicas (as ASIs e DSIs), filmes, fotos, programas de rádio e televisão. O que o regime militar fez está fartamente documentado – e isso inclui também dos diversos casos de corrupção, mas essa é outra história. Muitos documentos foram destruídos no apagar das luzes do regime, mas muitos dos que sobreviveram estão disponíveis para pesquisadores e historiadores. O segundo sentido é a importância que a Comissão Nacional da Verdade teve para esclarecer os fatos, elucidar casos, apontar documentos e histórias falsas. A comissão poderia ter ido mais longe – mas ela foi muito, muito longe na visão dos que hoje estão no poder. A multiplicação das comissões da verdade pelo país – estaduais (como a extremamente bem-sucedida de São Paulo), municipais, empresariais, institucionais, escolares etc. – mostrou uma face ainda mais terrível ditadura. É esta a face que querem distorcer ou esconder com mentiras, documentos requentados e falas polêmicas em filmes como o 1964, o Brasil entre armas e livros e best sellers que se tornam séries de TV e “referência” para Youtubers, como o Guia politicamente incorreto da história do Brasil.  Querem esconder com tudo isso que a repressão foi uma política de Estado. Querem dar a entender que foram alguns poucos casos e que estava em curso uma guerra de uma facção contra outra, a direita e os militares contra a esquerda e os grupos armados. Nada mais falso. Não existiu uma guerra a não ser aquela do Estado contra seu próprio povo. Todas as Comissões da Verdade do país mostraram que o Estado organizou e pôs em prática as políticas de repressão feitas não apenas contra uma minoria que tentava fazer ações armadas para derrubar os militares, mas contra líderes sindicais, camponeses, índios, homossexuais e diversas condutas consideradas, de forma muitas vezes delirante, de “desviantes” e  “subversivas”.   O Estado considerou seu próprio povo o inimigo interno a ser derrotado e exterminado. Em boa medida, cumpriu a meta de atacá-lo sem dó ou piedade. Todos os fatos que demonstram o terror do Estado foram comprovados pela ciência da história, por meio de documentos e depoimentos ao longo das últimas décadas. O que está em curso não é uma simples disputa de narrativa – porque tal disputa pressupõe que existam dois lados que podem ter razão. Nesse caso, não: o que está em jogo é aceitarmos ou não o pressuposto da realidade. A história, ensinou Bloch com seus textos e ações, se faz e se conta com fatos e argumentos, não com mentiras e falsificações. Há os morrem pela história, e os que matam para escondê-la. * Joana Monteleone é historiadora e editora da Alameda Casa Editorial. Atualmente faz pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)