A prisão de Temer e a divisão da esquerda

A Lava Jato tem sido uma aberração jurídica de abuso de poder, e a prisão de Temer foi um espetáculo para legitimar a intimidação da maioria burguesa no Congresso Nacional

Por Valerio Arcary

Tanto é ladrão o que vai à vinha como o que fica à porta.

Um tatu cheira o outro.

Sabedoria popular portuguesa

Não existe vento favorável para o marinheiro que não sabe aonde ir.

Seneca

A prisão de Temer pela operação Lava Jato voltou a colocar a esquerda brasileira diante de um desafio que a dividiu. Um desafio porque Temer é mesmo um corrupto e, portanto, merece ser preso.

A operação Lava Jato foi conduzida, intencionalmente, por um grupo de procuradores de extrema-direita, como um instrumento jurídico para criar as condições do golpe parlamentar de 2016. Foi uma das chaves de explicação para a eleição de Bolsonaro, porque armou as condições para Lula ser preso. Mas goza ainda de grande popularidade, e não só entre o núcleo duro de classe média reacionária que saiu às ruas gritando “vai para Cuba”.

A Lava Jato tem sido uma aberração jurídica de abuso de poder, e a prisão de Temer foi um espetáculo para legitimar a intimidação da maioria burguesa no Congresso Nacional, diante da disputa de poder com o núcleo duro do governo Bolsonaro. Complicado, portanto.

As duas posições mais simples eram, igualmente, perigosas. A primeira era apoiar a prisão de Temer, ocultando que quem a fazia era a extrema direita dos procuradores aliados ao bolsonarismo como chantagem sobre os partidos que, historicamente, garantem a representação da classe dominante, e ainda são a maioria no Congresso Nacional.

Romantizar o papel da Lava Jato, depois do que aconteceu desde 2015/16 é, dramaticamente, ingênuo. A Lava Jato não é uma investigação técnica idônea. Trata-se de uma operação política orientada, desde o início, como braço auxiliar da luta pelo poder.

A segunda era denunciar a Lava Jato e defender os direitos democráticos de Michel Temer, diminuindo o peso das denúncias devastadoras que o incriminam. Essa posição é, igualmente, insustentável. Michel Temer é um meliante, um ladrão, um bandido. Enriqueceu durante décadas com propinas. O episódio da corridinha de seu assessor com uma mala de meio milhão de reais é um “clássico” ridículo da corrupção “mesopotâmica” institucional. Sua prisão foi precipitada pela Lava Jato, em um movimento estapafúrdio articulado com Sergio Moro à frente do Ministério da Justiça, para intimidar o centrão. Mas isso não justifica, pelo ângulo da defesa dos trabalhadores, qualquer defesa. Essa defesa não ajuda a campanha por Lula Livre. Temer nunca será um preso político.

A bússola para definir uma posição justa neste tipo de episódios deve ser o critério de classe. Aonde se situa a defesa dos interesses da classe trabalhadora? A defesa da independência política da classe trabalhadora é um princípio para os marxistas. Ela se resume a uma ideia poderosa, mas que não é simples. Ela é poderosa porque é legítimo defender que a imensa maioria do povo que, em uma sociedade capitalista, vive da venda da força de trabalho, deve ter o direito de se organizar em função dos seus próprios interesses.

Não é simples porque o antagonismo do trabalho com o capital não é o único conflito dentro da sociedade. Evidentemente, para os marxistas, este antagonismo é o mais importante, porque é aquele que, potencialmente, abre o caminho para luta pelo socialismo.

Mas há muitos outros conflitos. Neste episódio, a defesa dos direitos e liberdades  democráticas contra ameaças autoritárias, por exemplo. Os socialistas devem analisar todos os conflitos através desta lente.

O Psol declarou que Temer deve ser condenado como corrupto, mas não aplaudiu o “vale tudo” da Lava Jato. Defendeu que Temer seja julgado, condenado e preso, mas denunciou o abuso de poder da Lava Jato, que tem sido um instrumento da ultradireita para, a pretexto da luta contra a corrupção, subverter os direitos democráticos. Uma posição independente das duas frações burguesas que disputam o poder no Brasil. Esteve, portanto,  muito bem.

Outros na esquerda se aliaram a uma das duas frações. Uma parcela do PT condenou a prisão de Temer porque só enxergou o abuso de poder da Lava Jato e a ameaça que ela representa, ao serviço da extrema-direita, para as liberdades democráticas. Mas, paradoxalmente, silenciou sobre Temer, um golpista que além de corrupto, teve um papel criminoso durante o processo que culminou no golpe parlamentar do impeachment de Dilma Rousseff.

Já uma parcela da esquerda radical, como o PSTU e setores minoritários do Psol, apoiaram a prisão de Temer, silenciando sobre a arbitrariedades da Lava Jato.

Estas duas posições opostas são, igualmente, equivocadas. A esquerda não deve aplaudir tudo que é popular só porque é popular. Ser de esquerda deve ser, também, defender princípios, resistir às pressões, ter firmeza quando em minoria entre os trabalhadores e combater as ilusões.

A esquerda não pode ser o último vagãozinho de nenhum dos dois trens dirigidos pela classe dominante. Nem nos aliarmos à ultra-direita contra a direita, nem o contrário. Não diminui ninguém ficar em uma posição minoritária, quando a realidade nos impõe um transitório isolamento. Ao contrário. Engrandece.

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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