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07 de abril de 2019, 08h45

A sinfonia do caos – Por Vagner Marques

Cada um dos atores do governo e todos juntos constituem a harmonia sinfônica do caos, de um imaginário de Brasil que nega a própria história, os direitos das minorias, as garantias das liberdades individuais, o diálogo com a comunidade internacional e a promoção da cultura da paz

Foto: Divulgação/Palácio do Planalto

Por Vagner Aparecido Marques*

Durante a campanha eleitoral do governo atual, ficou evidente que o projeto de sociedade proposto por Jair Bolsonaro e também por sua equipe “técnica” traduz nesses primeiros meses a ideia da sinfonia do caos, de retrocessos, perdas e constantes trapalhadas.

Antes de tudo, não podemos esquecer que foi eleito um candidato com uma trajetória marcada por polêmicas e posicionamentos contrários aos direitos humanos, à diversidade e à promoção da cultura de paz. Foi eleito um governante que em visita a um quilombo afirmou que “o negro mais leve pesava sete arrobas“. Há de se ressaltar ainda que foi eleito um representante que verbalizou para uma deputada que não “deveria ser estuprada porque era feia“. Foi eleito um chefe de Estado que sobre a possibilidade de ter um filho gay afirmou que “começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro ele muda o comportamento“. Foi eleito um presidente que ao falar sobre o fato de ter uma filha, disse “a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher“. Foi eleito um governante que sem pudor afirmou que “o erro da ditadura foi torturar e não matar“. Foi eleito um presidente que corrobora com a violência contra LGBTs, pois declarou: “não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater“. Foi eleito um presidente com um imaginário de um Brasil atrasado e que deve ser combatido.

Muitos subestimaram a possibilidade de tais aberrações ganharem espaço e a própria cadeira da presidência. Agora, após sua vitória, assistimos assustados à expressiva força das barbáries de seu (des)governo, o tamanho do monstro que foi eleito e dos retrocessos em consequência de sua vitória.

A composição do governo e a escolha de cada ministro foi e está sendo um processo de (des)montagem bem elaborada de um projeto “social” que foi amplamente anunciado durante a campanha e encarnado na figura de um messias. O desenvolvimento de seu governo e a execução desse projeto nos deixa atônitos diante da ideia de um Brasil atrasado, que tem negado insistentemente a existência da Ditadura Militar, das práticas de tortura e violação do Estado de Direito.

Cada ministro e componente do alto escalão imprime a execução do projeto de sociedade que, levado adiante nas eleições, ganha força a cada dia, mesmo com os tropeços dos ministros e dos filhos do próprio presidente.

Os devaneios da Ministra Damares, os consecutivos equívocos do Ministro Ernesto de Araújo, as derrapadas do Gustavo Bebbiano, as bizarrices do Olavo de Carvalho, as burrices e absurdos dos filhos de Bolsonaro, a carta branca e sem volta concedida ao Paulo Guedes, o pacote anticrime do Moro e as loucuras do Ministro de Educação, Ricardo Vélez Rodrigues, constituem o desenho de Brasil que deve ser evitado.

Cada um desses sujeitos e todos juntos são responsáveis pela execução do projeto “messiânico”. Deste modo, não cabe a crítica isolada ao ministro Ricardo Vélez Rodrigues por declarar que não houve golpe em 1964, que período o militar não foi Ditadura e que livros didáticos vão mudar, ou por orientar as escolas filmarem os alunos cantando o Hino Nacional com a leitura do slogan de campanha de Jair Bolsonaro, ou por afirmar que “as Universidades devem ser reservadas para uma elite intelectual” e que “o brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo”.

Não cabe a crítica isolada ao ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que afirmou que os regimes totalitários, o fascismo italiano e o nazismo alemão, são perspectivas políticas de esquerda.

Não cabe a crítica isolada a ministra Damares que em suas inumeráveis tolices declarou que “menina deve vestir rosa e menino deve vestir azul”. Entre outros absurdos, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos demonstrou desconhecer de geografia ao colocar a cidade de Genebra, da Suíça na, Alemanha, mas também sugeriu aos pais de meninas fugirem do Brasil, pois estão no “pior país da América do Sul para criar meninas”. Em 2013, Damares afirmou que “na Holanda […] ensinam que o menino deve ser masturbado com sete meses de idade para quando chegar na fase adulta possa ser um homem saudável sexualmente, e a menina precisa ter a vagina manipulada desde cedo para que ela tenha prazer na vida adulta”.

Cada um dos atores do governo e todos juntos constituem a harmonia sinfônica do caos, de um imaginário de Brasil que nega a própria história, os direitos das minorias, as garantias das liberdades individuais, o diálogo com a comunidade internacional e a promoção da cultura da paz. Cada um e todos juntos são os promotores pela execução de um projeto caótico, retrógrado e contraditório.

A questão não são as asneiras da Ministra Damares, a irracionalidade do Ernesto Araújo ou as tolices do Ministro da Educação Vélez Rodrigues; o problema é o próprio projeto e seu executor, o regente, traduzido no messias, e não indivíduos isolados.

O barulho da tragédia é audível, os gritos dos maus são altos, estridentes, confusos e vêm deixando marcas expressivas; contudo, silêncio dos bons é angustiantemente preocupante e com consequências não raro danosas.

Na economia, nas relações exteriores e na educação; a cada dia não assistimos outra coisa a não ser a execução de um projeto “PPP” (Projeto Power Point) arcaico que foi apresentado na campanha. O plano de governo do Bolsonaro é público e não escondeu que iria expurgar o pensamento de Paulo Freire, daí as falas do Ministro Vélez, que não sabe se fica no cargo ou se será demitido, caminharem para esse sentido.

Em seu projeto de governo e em suas falas públicas, é notório o alinhamento e a submissão aos Estados Unidos; as consequências não poderiam ser outras a não ser inevitáveis perdas de parceiros econômicos, queda no volume de exportação, aumento do desemprego. Uma reação em cadeia, incapaz de ser solucionada pelo ministro Posto Ipiranga, Paulo Guedes.

A cada movimento do projeto estamos fadados a negativas e expressivas consequências. Os filhos governam o país pelo Twitter e contas do Instagran e colocam o pai em constantes constrangimentos e desafetos. A ala conservadora marcha em intenso e acelerado movimento com pautas medievais, mas com comportamento de filho mimado se não conseguirem a embaixada brasileira em Jerusalém. Os “técnicos”, traduzidos especialmente no ministro da Economia Paulo Guedes e no ministro da Justiça, Sérgio Moro, perderam forças na linha de frente e negociam sozinhos com um Congresso Nacional que já apresentou significativas derrotas ao projeto do Bolsonaro.

Por fim, os militares não sabem onde se encaixam, tampouco como resistir em seus privilégios na proposta da reforma da previdência e continuam sendo objeto de críticas diárias do lunático Olavo de Carvalho.

O projeto do Bolsonaro se torna líquido, rasteiro e sem objetividade, em cada asneira proferida por um de seus ministros ou pelos próprios filhos. A cada fala e em cada apresentação de seu projeto, as ressonâncias são profundas e inevitáveis, traduzindo a sinfonia do caos regida pelo maestro bozo.

O filho e senador Flávio Bolsonaro, em viagem oficial a Israel com o pai e presidente, após saber de manifestações do Hamas em decorrência da divulgação que o Brasil abriria um escritório comercial em Jerusalém, publicou no Twitter que o Hamas “que se exploda”. A explosão negativa de sua declaração foi rápida e profunda e a publicação excluída de sua rede social, mas o senador não mensurou o impacto de sua frase e o risco de perda de parceiros comerciais do mundo árabe com profundos impactos econômicos é uma realidade.

Os militares pressionam o governo a cada delírio do guru Olavo de Carvalho, setores dos evangélicos pressionam para a abertura da embaixada brasileira em Jerusalém, provocando significativos impactos econômicos e nas relações exteriores, área de Ernesto Araújo que até o momento não sabe para que veio.

O ministro Vélez Rodrigues está na corda bamba desde que assumiu, sem o menor preparo de gestão e refém de várias indicações, está contando os dias para sua saída. Com o ministério parado, demissões do presidente do INEP Marcus Vinicius Rodrigues, após a enxurrada de críticas em decorrência do anúncio da suspensão da Avaliação de Alfabetização, e da Secretária de Educação Básica Tania Leme de Almeida, e declarações que beiram a insanidade, sua manutenção é incerta e sua saída uma realidade mas, se ficar, já deu provas de que não sabe e, se sair, quem vir irá seguir o mesmo projeto; deste modo, não há diferença entre estar ou sair.

A sinfonia do caos segue adiante, com um projeto sem pé ou cabeça, sem estrutura, solidez ou direcionamento, um projeto que se quebra por si só a cada anúncio de seus representantes.

A crítica deve ser ao regente, ao maestro e aos grupos que ele representa e aqueles que o sustenta. Ao contrário, a cada insanidade de um ministro e a repercussão negativa de suas loucuras, as peças são trocadas, mas o comando central continua e a sinfonia do caos se mantém.

Por essa razão, fica Vélez, fica Damares, fica Ernesto de Araújo, fica Olavo de Carvalho com suas loucuras, fica Guedes em suas insanidades e brigas no Congresso, ficam os filhos, pois a manutenção de vocês é a certeza de que o projeto irá afundar.

*Vagner Aparecido Marques é professor universitário, historiador, doutor em História Social e mestre em Ciências da Religião, ambos pela PUC-SP 


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