domingo, 25 out 2020
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Além de eleitoreiro, discurso de Trump na ONU incita “guerra fria”, diz Celso Amorim

Ex-ministro de Relações Exteriores diz ainda que o mundo vive uma "guerra cibernética", sendo o Brasil vítima de ataques e espionagem dos EUA

Em entrevista ao Fórum Café nesta quarta-feira (23), o ex-ministro de Relações Exteriores e da Defesa nos governos Lula e Dilma Rousseff, Celso Amorim, criticou os discursos dos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump na 75ª reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). Para o ex-ministro, que já foi embaixador da ONU, a fala do mandatário norte-americano incita um tipo de conflito semelhante à guerra fria com a China.

Na ONU, o presidente dos EUA se referiu ao coronavírus como “vírus chinês” e acusou a China de ter “lançado esta praga no mundo”. Trump também atacou a Organização Mundial de Saúde (OMS), afirmando, novamente, que a entidade deu direcionamentos errados no início da pandemia e “é virtualmente controlada pela China”.

“Discurso de Trump é de ‘guerra fria’, não só eleitoreiro, mas de preparação para guerra. Uma coisa espantosa. Os EUA sempre tiveram uma agenda para o mundo, bem ou mal. Hoje não tem. Agora é ‘America First’ e agressão à China. É uma coisa um pouco aterrorizante”, disse Amorim.

Questionado sobre a possibilidade de uma guerra fria com o país asiático, Celso Amorim diz que o conflito é possível, mas em outros moldes. “Existe, mas não vou chamar de guerra fria. Foi uma expressão utilizada para caracterizar o pós-guerra. Hoje, a situação é diferente. Há uma sanção à China, que já vem de alguns anos, mas vai ser acelerada”, disse.

“A China já vinha ultrapassando a economia americana. Então, isso obviamente cria tensões. Há maneiras de lidar com o conflito, mas pela retórica de Trump será a pior possível. É uma coisa complexa que vai depender do manejo e que vai precisar de interferência externa para evitar o conflito frontal”, continuou.

Em relação ao discurso de Bolsonaro na ONU, Amorim disse que fala foi “lamentável” e distante da realidade. “Um discurso lamentável. Não sei nem se de vereador, porque vereador fala de coisas reais. É uma coisa quase que surreal. Se não soubéssemos que as coisas são tão distantes da realidade, o discurso era um nada”, disse.

Guerra Cibernética

Ao comentar sobre as disputas em torno do 5G, tecnologia citada por Bolsonaro no discurso à ONU, o ex-ministro afirmou que o mundo vive uma guerra cibernética de “baixa intensidade”, sendo o Brasil vítima de ataques dos Estados Unidos.

“Há uma guerra cibernética de baixa intensidade, para usar uma expressão militar. Não é uma guerra aberta, mas é constante. O que temos que cuidar é não sermos vítimas disso. O Brasil é alvo de ataque cibernético norte-americano. A NSA fez uma espionagem do Brasil total, explícita, espionaram a Petrobras, a presidenta Dilma, e no WikiLeaks saíram outras coisas”, afirma.

Em seguida, o ex-ministro defendeu o desenvolvimento de tecnologias nacionais para proteção de dados. “O Brasil ficou muito pra trás, desenvolveu pouco essa tecnologia. No governo Dilma, tentamos desenvolver um software para nos comunicarmos entre os ministérios, temos que nos proteger. Isso começou a ser abandonado no governo Temer, agora querem privatizar a estatal que tem dados sobre todo mundo. Vão dar isso tudo para uma empresa estrangeira?”, questionou.

Confira a entrevista completa:

Luisa Fragão
Luisa Fragão
Jornalista.