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03 de junho de 2019, 09h29

Após protestos, Câmara cria grupo de trabalho para destravar pesquisas nas universidades

O Grupo de Trabalho (GT) vai discutir formas de combater a burocracia em pesquisas desenvolvidas no país e driblar os efeitos do desinvestimento na ciência brasileira

Foto: Ana Oli/Câmara dos Deputados

Na semana em que estudantes e professores de todo o país voltaram às ruas para protestar contra os cortes de recursos destinados à educação, membros da Comissão de Ciência e Tecnologia, da Câmara dos Deputados, criaram um Grupo de Trabalho (GT) para discutir formas de combater a burocracia em pesquisas desenvolvidas no país e driblar os efeitos do desinvestimento na ciência brasileira.

Reiterando a proposta feita pelo presidente da Comissão, Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), o deputado federal Márcio Jerry (PCdoB-MA) solicitou que o GT funcione de forma articulada à Iniciativa para a Ciência e a Tecnologia no Parlamento (ICTP.br), movimento organizado da comunidade brasileira de C&T para atuação permanente ao Congresso Nacional e, também, em Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais.

Diante do atual contexto brasileiro, Jerry disse apostar na consolidação de ações de incentivo ao trabalho científico para contornar o que chamou de retorno à idade das trevas.

“Vivemos em um tempo em que a terra é plana e que a temperatura global aumentou porque o termostato está perto do asfalto. Esta é a temperatura contextual da política brasileira. Há uma pregação das trevas, e toda treva é contra a ciência, contra a tecnologia, contra qualquer luz. Então é muito importante que a gente reforce este tipo de iniciativa”, destacou.

Na quinta (30), deputados federais presentes na audiência pública ouviram relatos de representantes de associações e órgãos de pesquisa sobre os problemas enfrentados pelos cientistas durante o desenvolvimento de estudos e investigações. Entre eles, o do Presidente do Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), Fernando Peregrino.

Com 193 mil normas sendo criadas a cada dia, Pelegrino apontou que os principais gargalos na inovação acontecem em razão do excesso de controle sobre recursos empregados em pesquisas. “Atualmente, o Brasil ocupa o 64º lugar no ranking da inovação, abaixo de pelo menos sete países da América Latina. Somos um país retardatário em termos de pesquisa e inovação no Brasil”, afirmou.

De acordo com dados do presidente do Confies, pesquisadores desperdiçam 35% de seu tempo cumprindo burocracias. Como solução, ele apontou a necessidade de unificação das rubricas de custeio e dispêndios usados em projetos de pesquisa, definindo estes gastos como investimento, para que seja possível dar flexibilidade e racionalidade aos controles atualmente empregados.

Para o Membro do Comitê Gestor do Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem (Cenabio) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Antonio Carlos Campos de Carvalho, responsável por pesquisas com células-tronco, os entraves à pesquisa no país são tantos que geram constrangimento.

“Há um mês e meio tentando resolver problemas burocráticos para liberação de insumos usados em sua investigação. Passamos uma vergonha, junto ao colaborador estrangeiro, explicando que a célula ficou retida”, confidenciou.

O risco do desinvestimento em pesquisas, segundo Carvalho, é a proliferação de doenças e o aumento do abismo de tratamentos entre a população que depende do atendimento público de saúde e aqueles que têm acesso a recursos. “Daqui a alguns anos, o que vamos ver, provavelmente, é que vamos estar tratando dos filhos dos ricos, que têm condições de judicializar esta questão, e vamos ver recrudescer tuberculose, hipertensão e diabetes neste país”, apontou.


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