Áudios de Dominghetti provam que Dias mentiu ao dizer que não marcou encontro para negociar vacinas

Ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde disse a CPI que encontro em que aconteceu suposto pedido de propina foi "acidental"; Omar Aziz o deu voz de prisão

Áudios do celular do cabo da PM de Minas Gerais Luiz Paulo Dominghetti, que se diz representante de empresa de vacinas, sob posse de membros da CPI do Genocídio, e que foram reproduzidos na sessão desta quarta-feira (7), provam que o ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, mentiu ao dizer para os senadores que o jantar com o suposto vendedor de imunizantes foi “acidental”.

Dias havia afirmado aos senadores que conheceu Dominghetti na noite do dia 25 de fevereiro. Dominghetti, que se diz representante Davatti Medical Supply, empresa que queria vender doses da vacina Oxford/Astrazeneca ao governo, afirmou que Dias o pediu propina de 1 dólar por dose do imunizante. Dias nega.

O ex-diretor de Logística afirmou aos senadores que não havia marcado o encontro com Domenghetti, e que estava apenas tomando um “chopp casual” com um amigo [José Ricardo Santana, ex-servidor da Anvisa] em um restaurante de Brasília neste dia 25 de fevereiro quando foi abordado por Dominghetti e pelo coronel Marcelo Blanco, ex-servidor da Saúde, com a oferta de 400 milhões de doses de vacina.

Mensagens de áudio do celular de Dominghetti, que prestou depoimento à CPI na última semana, no entanto, desmentem a versão de Dias e mostram que o ex-diretor já saberia do encontro para negociar as supostas doses – apesar de ter dito aos senadores que essa não era uma atribuição sua.

Um áudio de 23 de fevereiro [dois dias antes do encontro] enviado por Dominghetti a um interlocutor identificado como Rafael dá conta da participação de Dias nas conversas sobre a aquisição dos supostos imunizantes. “Rafael, tudo bem? A compra vai acontecer, tá? Estamos na fase burocrática. Em off, pra você saber, quem vai assinar é o Dias mesmo, tá? Caiu no colo do Dias… e a gente já se falou, né? E quinta-feira a gente tem uma reunião para finalizar com o Ministério”, diz a mensagem.

No próprio dia 25 de fevereiro, data do encontro em que teria ocorrido o pedido de propina, Dominghetti recebeu um áudio Odillon, apontado como o contato que o aproximou dos militares para “abrir as portas” do Ministério da Saúde, em que pergunta: “Queria ver se vocês combinaram alguma coisa para encontrar com o Dias”.

À própria CPI, Dias admitiu que no dia seguinte ao encontro encaminhou um e-mail solicitando uma reunião oficial no Ministério da Saúde com Dominghetti, manifestando interesse em adquirir as supostas vacinas oferecidas pelo policial. Áudio deste dia também reforça as tentativas da negociação com indícios de irregularidades.

“Rafael, acabei de sair aqui do Ministério. Tudo redondinho. O Dias vai ligar pro Cristiano (representante da Davati no Brasil) e conversar com o Herman (CEO da Davati) ainda hoje, tá. Ele tá afinando essa compra aí, várias reuniões certificando a turma de que a vacina já está à disposição do Brasil. Se for da Astrazeneca, melhor ainda”, diz Dominghetti.

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As contradições de Dias em seu depoimento à CPI fizeram o presidente do colegiado, senador Omar Aziz (PSD-AM), mandar prendê-lo.

“Estou cansado de mentiras. Pedi à polícia do Senado para que o senhor seja preso. Ele está mentindo desde de manhã. Vai ser preso por perjúrio”, disse Aziz.

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Ivan Longo

Jornalista, editor de Política, desde 2014 na revista Fórum. Formado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Twitter @ivanlongo_

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