No rastro do óleo do Nordeste
30 de outubro de 2018, 17h44

Bernardo Cotrim: Devagar com o andor

Não existem respostas simples. O fenômeno da reorganização da extrema direita, combinando comportamento fascista com neoliberalismo radical, é uma dinâmica global, uma resposta ainda mais bárbara à corrosão do modelo de civilização capitalista

Foto: Ricardo Stuckert

Por Bernardo Cotrim*

“Quem tem consciência para ter coragem

Quem tem a força de saber que existe

E no centro da própria engrenagem

Inventa a contramola que resiste”

(Secos & Molhados – Primavera nos Dentes)

Pululam nas redes balanços apressados sobre a expressiva vitória de Jair Bolsonaro nas eleições do último domingo. Alguns parecem prontos desde antes do resultado das urnas: expressam velhas teses e vontades políticas. Basicamente, os textos guardam em comum o anúncio da “extrema unção” do PT, a sua responsabilização pela derrota, o seu “egoísmo” em disputar as eleições, a sua “teimosia” em defender Lula. São teses que brigam com a democracia, com as urnas, com a vontade do povo. Se estas não explicam o momento, basta “torcer a realidade” até que ela se molde à conveniência das opiniões.

Devagar com o andor: é preciso um debate mais amplo para investigar as razões econômicas, políticas, sociais e culturais da ascensão do movimento “bolsonarista”. O sistema político foi solapado quase por inteiro; embora a dinâmica antissistêmica da campanha Bolsonaro seja mais estética do que programática – e o amplíssimo apoio angariado nas corporações empresariais e no sistema financeiro indicam que a plutocracia mandou a democracia às favas para melhor controlar as torneiras do Estado – é fato que os grandes partidos fiadores da Constituição Federal de 1988 pereceram. No seu lugar, emerge uma legião de outsiders das mais variadas origens a ocupar cadeiras no parlamento, nos governos e, principalmente, na presidência da República.

Sobrevive, no entanto, como seu guardião, justamente o único grande partido a criticar os limites do pacto de 88. É justamente o PT, detentor da maior bancada federal, com 4 governadores do partido eleitos, o principal polo de resistência ao tsunami de nítidos contornos fascistas, liderado pelo capitão da reserva. Mesmo submetido a uma saraivada de críticas cotidianas pelo aparato empresarial de comunicação, criminalizado nas suas ações e perseguido por setores reacionários do judiciário brasileiro, o PT sobrevive como depositário dos votos de quase 30% do eleitorado no primeiro turno.

Reconhecer esta condição não significa eximir o PT de seus erros estratégicos, dos desvios cometidos por alguns de seus membros ou negar a necessidade de um balanço profundo, atualizando programa, organização, direção e prática. Mas uma demarcação se faz necessária: a resistência aos ataques à democracia e aos direitos do povo trabalhador morrerá de inanição se, na sua gênese, virar as costas para o PT e substituir a construção de uma ampla coalizão sob direção da esquerda democrática por blocos de ocasião que carecem de unidade programática e, principalmente, de base social. Ou, ainda pior: nem chegará a nascer se resolver ouvir os satélites do PSDB – este sim, arrasado nas urnas – que posam de dedo em riste, como alguns articulistas da mídia empresarial (e o próprio editorial da Folha desta terça, 30 de outubro).

O ponto de partida para enfrentar o governo Bolsonaro e a sua agenda política já anunciada – “fim do ativismo”, criminalização de partidos de esquerda e movimentos sociais, reforma da previdência, privatizações, desmanche do Mercosul, alinhamento automático ao governo Trump, entrega do pré-sal – é o polo democrático que ganhou corpo na reta final do segundo turno, reunindo a chapa formada por Haddad e Manu e seus respectivos partidos, PT e PCdoB; Boulos e as novas lideranças do PSOL, eleitas com expressivas votações no sudeste, principalmente; o PSB, os setores que reivindicam o trabalhismo no PDT e o amplo movimento cidadão formado por jovens ativistas, personalidades da cultura e das artes, sindicalistas e inúmeras outras expressões da cidadania ativa que ocuparam as ruas e praças, construíram novos espaços de diálogo e, sem depender dos formalismos da estrutura burocrática da campanha, protagonizaram o único momento do processo eleitoral onde a direita perdeu temporariamente o domínio da pauta e da iniciativa política.

De resto, não existem respostas simples. O fenômeno da reorganização da extrema direita, combinando comportamento fascista com neoliberalismo radical, é uma dinâmica global, uma resposta ainda mais bárbara à corrosão do modelo de civilização capitalista. Apresentar uma alternativa radicalmente inclusiva, democrática, capaz de desarticular o núcleo central do movimento que impulsionou a vitória de Bolsonaro – corrupção, segurança pública, Deus e família – e reconstruir legitimidade pública, enraizamento popular, inteligência comunicacional e dinâmica solidária é o grande desafio do próximo período.

*Bernardo Cotrim é jornalista


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