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06 de novembro de 2019, 06h36

Bolsonaro inicia consolidação do golpe com leilão do pré-sal

A venda dos blocos do pré-sal de Atapu, Búzios, Itapu e Sépia, na Bacia de Santos, região do litoral do Rio de Janeiro, representa um prejuízo estimado em R$ 1,3 trilhão, segundo nota técnica assinada por ex-diretores da Petrobras, e consolida plano de entrega do petróleo às petrolíferas transnacionais

O ex-presidente Lula na Petrobras (Ricardo Stuckert)

Com o leilão que dará o direito às grandes transnacionais de explorar 10 bilhões de barris de petróleo já descobertos na chamada camada pré-sal, Jair Bolsonaro inicia nesta quarta-feira (6) a consolidação do golpe que tirou Dilma Rousseff (PT) do Planalto, aprisionou e tirou qualquer possibilidade de Lula voltar à presidência e fez com que o capitão chegasse à Presidência – e levasse com ele o ex-juiz Sergio Moro, grande responsável pelo processo, e Paulo Guedes, um defensor implacável da concentração de dinheiro e poder pelo sistema financeiro internacional.

A venda dos blocos do pré-sal de Atapu, Búzios, Itapu e Sépia, na Bacia de Santos, região do litoral do Rio de Janeiro, representa um prejuízo estimado em R$ 1,3 trilhão, segundo nota técnica assinada por ex-diretores da Petrobras – equivalente ao montante que o ministro da Economia, Paulo Guedes, pretendia com sua proposta original de “reforma” da Previdência.

A privatização à toque de caixa, comandada pelo ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que vem da mesma linhagem militar do atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, é tramada desde que foi confirmado potencial do petróleo no pré-sal, em 2006, e caminha junto com as tentativas sucessivas de tomada do poder dos representantes das grandes petrolíferas, como conta William Nozaki, professor de ciência política e economia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos para o Setor de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP/FUP), em artigo publicado em 2018, nos 10 anos de início de exploração do pré-sal.

“Em momentos históricos decisivos para a estratégia de desenvolvimento nacional, a elite brasileira parece sempre ceder à sua cômoda posição de sócia-menor do capitalismo central e das grandes petrolíferas estrangeiras, uma posição favorável para sua acumulação privada, mas muitas vezes danosa para o projeto de desenvolvimento do país, que, a propósito, de tempos em tempos se vê sabotado diante de grupos de pressão cujos interesses pessoais e corporativos acabam levando à instabilidade das nossas instituições políticas e à entrega do nosso patrimônio nacional”, descreve.

Fim da autonomia
O que está em jogo na transação, segundo Guilherme Estrella, é uma visão de sociedade e de mundo “ideológica”. Em entrevista à RBA, o geólogo lamentou a realização do leilão. “Na nossa visão, o pré-sal é riqueza estratégica para o Brasil, de garantir para nós uma fonte energética absolutamente gigantesca durante todo o século 21, dentro de um projeto de país em que nós o aproveitaríamos para o desenvolvimento brasileiro integral, da ciência, da tecnologia, no qual a saúde e a educação teriam parte conforme o marco regulatório original”.

No entanto, essa visão foi substituída por uma outra. “Uma visão financista, que tem como objetivo principal o lucro máximo, no menor prazo de tempo possível, e a maior remuneração também no menor tempo para os acionistas da companhia privada”. O descobridor do pré-sal avalia que a realização do megaleilão tira do Brasil a oportunidade de, pela primeira vez na história, ter uma fonte de energia capaz de sustentar um projeto de país autônomo, tendo uma empresa estatal como operadora da produção dessa grande riqueza – o pré-sal.


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