Bolsonaro já pediu para apagar foto em que militante imita gesto supremacista feito por seu assessor no Senado; assista

"Pega mal pra mim", disse Bolsonaro ao ver um apoiador fazendo um gesto idêntico ao de Filipe Martins, que justifica afirmando que estava "ajeitando a lapela do terno"

Apesar do assessor internacional do presidente Jair Bolsonaro, Filipe Martins, negar que o gesto que fez nesta quarta-feira (24) durante audiência no Senado seja uma referência a um símbolo de supremacistas brancos, seu chefe, o próprio Bolsonaro, parece saber bem o que o gesto significa.

Em um vídeo divulgado pelo jornalista Samuel Pancher, o presidente se incomoda com um apoiador, que fez com as mãos o mesmo gesto de Martins. “Esse gesto aí… Se não foi um gesto bacana, pega mal pra mim”, disse Bolsonaro, ao que um segurança de sua equipe endossou, mandando o homem apagar a foto em que aparecia fazendo o sinal com as mãos.

Asssista.

Entenda

O assessor internacional do presidente Jair Bolsonaro, Filipe Martins, parece ter aproveitado presença em audiência no Senado Federal nesta quarta-feira (24) para mandar um recado incitando grupos de supremacia branca, atitude chamada de “dog whistle” (“apito de cachorro”, em português).

Em momento que aparecia nas câmeras da TV Senado atrás do presidente da casa legislativa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), Martins fez com as mãos um gesto que parece remeter ao símbolo “WP”, em referência a lema “white power” (“supremacia branca”). Esse gesto, que se assemelha a um “OK”, é classificado desde 2019 como “uma verdadeira expressão da supremacia branca” pela Liga Antidifamação dos EUA, segundo reportagem da BBC.

“Ele fez um sinal de supremacia branca enquanto arruma o terno. É muito difícil ele dizer que não sabe o que está fazendo. É um sinal de supremacia branca. É um sinal que é usado como senha em diversos grupos, como o Proud Boys”, disse à Fórum a antropóloga Adriana Dias, que é doutora em antropologia social pela Unicamp, pesquisa o fenômeno do nazismo e atua como colunista,

A cena ganhou repercussão nas redes sociais e foi apontada como mais um episódio em que figuras do governo Bolsonaro flertam com o neonazismo. Martins é seguidor do astrólogo Olavo de Carvalho e coleciona fotos com figuras da extrema-direita dos Estados Unidos, como Donald Trump e Steve Bannon.

“Um dos principais assessores de Bolsonaro, Felipe Martins, fez um sinal supremacista branco, um gesto que representa WP – White Power – ao fundo de uma fala do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Neonazistas entenderam muito bem a força disso. Resta saber se o senador também”, escreveu o jornalista Bruno Torturra, editor-chefe do programa Greg News.

Após a repercussão do gesto, Martins negou que tenha feito referência ao supremacismo, dizendo que estava “ajeitando a lapela o terno”. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), mandou a instaurar um procedimento de investigação contra o assessor.

Museu do Holocausto se manifesta

O Museu do Holocausto se posicionou nesta quarta-feira (24) contra o gesto feito por Filipe Martins. Para o museu, o bolsonarista gesticulou um símbolo supremacista, de ódio.

“Estupefatos, tomamos notícia do gesto do assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República durante sessão no Senado Federal. Semelhante ao sinal conhecido como OK, mas com 3 dedos retos em forma de ‘W’, o gesto transformou-se em um símbolo de ódio”, escreve a entidade em seu perfil oficial.

“Recentemente, o gesto foi classificado pela Liga Antidifamação (ADL) como um sinal utilizado por supremacistas brancos para se identificarem. A ADL diz que o símbolo se tornou uma ‘tática popular de trolagem’ por indivíduos da extrema-direita, que postam fotos nas redes de si mesmos fazendo o gesto”, prossegue.

O museu ainda afirma que “é estarrecedor que não haja uma semana que o Museu do Holocausto de Curitiba não tenha que denunciar, reprovar ou repudiar um discurso antissemita, um símbolo nazista ou ato supremacista. No Brasil, em pleno 2021. São atos que ultrapassam qualquer limite de liberdade de expressão”.

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Ivan Longo

Jornalista, editor de Política, desde 2014 na revista Fórum. Formado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Twitter @ivanlongo_

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