Bolsonaro interferiu no Iphan por interesse de véio da Havan, confirma presidenta demitida do órgão

No vídeo da reunião ministerial, Bolsonaro diz que "o Iphan para qualquer obra do Brasil, como para a do Luciano Hang. Enquanto tá lá um cocô petrificado de índio, para a obra, pô! Para a obra. O que que tem que fazer? Alguém do Iphan que resolva o assunto, né?"

Ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa afirmou à coluna Painel, na Folha de S.Paulo neste domingo (24), que Jair Bolsonaro efetuou uma série de interferências no órgão – incluindo a sua demissão – para atender interesses do empresário Luciano Hang, o véio da Havan.

“E vem com esse discurso mentiroso de que teria que ter perfil técnico para ocupar cargos no governo. Tudo mentira! É triste ver o Iphan invadido por gente sem formação”, disse Kátia.

Ela afirma que antes de ser demitida, após uma obra do empresário da Havan parar no Sul do país, começou uma sucessão de trocas de cargos, após a queixa de Hang. Primeiro, caiu um diretor técnico, em seguida, coordenadores em importantes superintendências, como a de Minas Gerais e do Rio, que foram trocadas por pessoas sem formação.

No dia 7 de agosto de 2019, Luciano Hang reclama que técnicos do Iphan encontraram fragmentos fósseis e teriam paralisado obra de uma loja da Havan em Rio Grande, no Rio Grande do Sul.

“Queremos inaugurar a loja em novembro, mas como os burocratas no Brasil não têm pressa, me pergunto: quando teremos uma resposta do IPHAN?”, tuitou, junto a um vídeo em que ironiza os achados arqueológicos. “Eu não sei se é louça portuguesa, se é louça lá da Oxford, de Santa Catarina, ou de alguém que morou aqui. Até, de repente, pode ser de um índio. Pode ser”, diz o véio da Havan.

https://twitter.com/luciano_hang/status/1159125790019260416

Segundo Kátia Borgea, a obra foi paralisada após a empresa contratada por Hang reportou ao Iphan um achado arqueológico. “Ele criou esse escarcéu porque nem a mais simples das obrigações eles querem fazer. Estávamos ali para cumprir a Constituição. O que queriam é que não observássemos a lei”, diz ela.

No vídeo da reunião do dia 22 de abril, Bolsonaro reclama da burocracia do Iphan, que paralisa qualquer obra do Brasil.

“O Iphan para qualquer obra do Brasil, como para a do Luciano Hang. Enquanto tá lá um cocô petrificado de índio, para a obra, pô! Para a obra. O que que tem que fazer? Alguém do Iphan que resolva o assunto, né? É assim que nós temos que proceder”, disse o presidente.

Flávio Bolsonaro
Kátia ainda relata um outro caso que teria resultado em sua saída do comando do Iphan.

Segundo ela, Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) se reunir com construtoras em Salvador, na Bahia, que reclamavam de uma portaria do instituto limitando e criando regras para novas construções na Barra, bairro nobre da capital baiana, alvo de investimentos do ex-ministro de Michel Temer, Geddel Vieira Lima.

Kátia Bogéa, que estava no comando do instituto desde 2016, foi exonerada no dia 11 de dezembro de 2019. Ela foi substituída por Larissa Rodrigues Peixoto Dutra, nomeada apenas em maio desse ano.

Larissa é casada com Gerson Dutra Júnior, mais conhecido como Patropa, agente da Polícia Federal que trabalhou na segurança de Bolsonaro em 2018 e é amigo de Leonardo de Jesus, o Leo Índio, primo dos filhos do presidente.

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