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09 de julho de 2020, 21h56

Fórum aceita desafio de Bolsonaro e lista 10 vezes que o presidente propagou o ódio

Irritado com a remoção de perfis ligados a ele que formariam uma rede de fake news, o presidente afirmou que nunca propagou ódio e desafiou a imprensa

Foto: Reprodução/Instagram Jair Bolsonaro

Um dia depois do Facebook anunciar a remoção de contas ligadas ao presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e apoiadores que formavam uma rede de fake news e disseminação de ódio, o ex-capitão desafiou veículos de imprensa a apresentarem episódios em que ele tenha difundido ódio nas redes sociais.

A Fórum decidiu aceitar o desafio. No entanto, cabe destacar que o perfil do presidente não foi suspenso pela operação da rede social – o que indica que a conta de Bolsonaro não era diretamente responsável por disseminar o ódio. Por isso, a Fórum vai recorrer a declarações dadas pelo presidente fora das redes, que estimularam apoiadores a radicalizarem.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, publicou um artigo em julho do ano passado no portal da ONU colocando o discurso de ódio como um dos principais desafios do momento.

“Nós reconhecemos o discurso do ódio como um ataque contra a tolerância, a inclusão, a diversidade e a essência de nossas normas e princípios de direitos humanos. Mais amplamente, ele compromete a coesão social, desgasta valores compartilhados e pode criar a base para a violência, retardando a causa da paz, da estabilidade, do desenvolvimento sustentável e da dignidade humana”, define.

E é com essa definição que a Fórum faz a lista abaixo. Cabe destacar ainda que, o presidente da ONG Safernet, Thiago Tavares, aponta que a disseminação de notícias falsas contribui para estimular um ambiente de ódio, mas esses episódios não entraram diretamente na relação.

1 – Discurso da vitória (2018)

O discurso da vitória do presidente Jair Bolsonaro, realizado em 22 de outubro de 2018, pode ser classificado como o primeiro episódio do ex-capitão promovendo ódio como representante do país.

“A faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão pra fora ou vão pra cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”, disse o recém-eleito presidente.

“Petralhada, vai tudo vocês pra ponta da praia. Vocês não terão mais vez em nossa pátria porque eu vou cortar todas as mordomias de vocês. Vocês não terão mais ONGs para saciar a fome de mortadela de vocês. Será uma limpeza nunca visto na história do Brasil”, disse ainda, fazendo uso de expressão usada por torturadores – “ponta da praia”.

2 – Fuzilar a petralhada (2018)

Durante a campanha, um episódio “mais extremo” gerou grande repercussão. Em um evento realizado no Acre, em setembro, Bolsonaro fez um gesto de “fuzilamento” e chamou seu público a, em suas próprias palavras, “fuzilar a petralhada toda aqui do Acre”

A coligação “O Povo Feliz de Novo” (PT/PCdoB/Pros) ingressou na Justiça com uma representação criminal, junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), contra Jair Bolsonaro (PSL) por ameaça, e também com notícia crime por injúria eleitoral e incitação ao crime. A queixa foi suspensa pelo STF em fevereiro de 2019.

3 – Ponta da Praia (2019)

Durante a live presidencial realizada em 1º de novembro de 2019, o ex-capitão usou novamente a gíria “Ponta da Praia”, dessa vez para enquadrar servidores públicos.

“Vão entrar alguns órgãos do governo que eu não tenho ascendência, porque os diretores, o presidente tem mandato. Porque se não tivessem (mandato), eu cortava a cabeça mesmo. Quem quer atrapalhar o progresso, vá atrapalhar na Ponta da Praia, aqui não”, declarou.

4 – Ataques à imprensa (2019/2020)

Durante a gestão, o presidente Jair Bolsonaro tem feito diversos ataques a jornalistas e a órgãos de imprensa. Essas ações foram alvo de denúncia apresentada à ONU pela relatora especial das Nações Unidas sobre a Violência contra a Mulher, suas Causas e Consequência, Dubravka Šimonovic.

A jornalista Bianca Santana, que apresentou a denúncia, as jornalistas foram atacadas pelo presidente ou seus ministros por, pelo menos, 54 vezes, um número sem precedentes na história recente do país.

Esses constantes ataques motivaram agressões físicas por parte de seguidores do presidente a profissionais de imprensa em Brasília e em outras cidades do país.

5 – Hebraica (2017)

O discurso dado no clube Hebraica, no Rio de Janeiro, em abril de 2017, Bolsonaro deu diversas declarações racistas e misóginas e ainda prometeu acabar com todas as reservas de terra de indígenas e quilombolas. “Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”, disse, em tom de ameaça.

 “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”, disse em outro trecho polêmico do discurso.

“Eu tenho 5 filhos. Foram 4 homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”, afirmou em outro momento.

6 – “Sou homofóbico sim, com muito orgulho” (2013)

Voltando um pouco mais para trás, o então deputado federal disse em 2013 a um site que era homofóbico e que a imunidade parlamentar o permitia assumir esse discurso. Hoje, Bolsonaro diz que chamá-lo de homofóbico é “fake news”.

“[Antigamente] não existia essa quantidade enorme de homossexuais como temos hoje em dia. E eles não querem igualdade, eles querem privilégios. Eles querem é nos prender porque nós olhamos torto pra eles, nos prender porque nós não levantamos de uma mesa pra tirar nossos filhos ‘menor’ de idade de ver dois homens ou duas mulheres se beijando na nossa frente, como se no restaurante fosse um local pra fazer isso. Eles querem é privilégios! Eles querem é se impor como uma classe à parte. E eu tenho imunidade pra falar que sou homofóbico, sim, com muito orgulho se é pra defender as crianças nas escolas”, declarou.

7 – Dilma “infartada” (2015)

Em 2015, o presidente Jair Bolsonaro já desejou a morte da ex-presidenta Dilma Rousseff. O episódio voltou à tona nos últimos dias após o ex-capitão afirmar que está com o novo coronavírus.

“Espero que o mandato dela acabe hoje, infartada ou com câncer, de qualquer maneira”, disparou, durante visita em Goiânia. “O Brasil não pode continuar sofrendo com uma incopetente, ou ‘incompetenta’, à frente de um país tão grande e maravilhoso como esse aqui”, completou.

8 – Ustra, o pavor de Dilma Rousseff (2016)

Em abril de 2016, ao votar pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, Bolsonaro homenageou “a memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra”, um dos torturadores da presidenta golpeada.

“Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família, pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim”, declarou à época.

O uso do termo “pavor” já indica, por si só, o ódio contido no discurso.

9 – Surra em “filho gayzinho” (2010)

Em 2010, o presidente sugeriu que homossexuais deveriam levar porrada para “virar homem”. A declaração foi dada no programa Participação Popular, da TV Câmara, e debatia sobre a “Lei da Palmada”.

“O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele. Vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem. Ter filho gay é falta de porrada”, disse.

10 – Matar 30 mil (1999)

Para fechara a lista, voltamos ao ano de 1999, quando o então deputado federal defendeu no programa Câmera Aberta, da TV Bandeirantes, que o regime militar deveria ter matado 30 mil pessoas, começando pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Através do voto você não vai mudar nada neste país, nada! Absolutamente nada! Você só vai mudar, infelizmente, no dia que nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro… e fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil! Começando com FHC, não deixar pra fora não! Matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, em tudo quanto é guerra morre inocente. Eu até fico feliz se morrer, mas desde que vá outros 30 mil outros, outros junto comigo”.

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