“Guedes é alguém que pratica um cinismo aberto”, diz Christian Dunker

Para psicanalista, frases de Guedes são o reflexo de uma elite sem pudor alinhada a um neoliberalismo que "descobriu que pode aumentar o sofrimento como forma de extrair mais desempenho e produtividade”

Psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP, Christian Dunker vê nas frases do ministro da Economia, Paulo Guedes, o reflexo de uma elite sem pudor alinhada a um neoliberalismo que “descobriu que pode aumentar o sofrimento como forma de extrair mais desempenho e produtividade”.

“Enquanto o liberalismo clássico tinha um pudor, um respeito e até mesmo tentava proteger as pessoas dos excessos de sofrimento — porque isso interferiria na produção e no consumo — os neoliberais descobriram que podem aumentar o sofrimento como forma de extrair mais desempenho e produtividade”, disse, em entrevista ao El País.

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Guedes, que ganhou a alcunha de Caco Antibes – personagem interpretado por Miguel Falabella que ficou conhecido pelo bordão “odeio pobre” no humorístico Sai de Baixo, da Globo -, coleciona frases em que tripudia das camadas mais populares. Na última semana, o ministro de Bolsonaro desdenhou da inflação ao falar da alta no preço da energia, de que “não adianta ficar chorando, a luz vai ficar mais cara“.

“Quem pode desdenhar do aumento da inflação? Só alguém com muito poder e que presume que sua declaração não vai chegar nas pessoas comuns. Ela vai chegar naqueles que têm uma relação com o aumento da opressão”, afirma Dunker.

Para o psicanalista, “Guedes é alguém que pratica um cinismo aberto”, comparando o comportamento do ministro de Bolsonaro a de senhores de escravo, coronéis e latifundiários.

“Ele é um síndico regressivo ― está nos anos sessenta, setenta, porque a política que ele adota está, no mínimo, em crise teórica―, que não percebe que está a serviço dos outros, ele acha que é ele quem está mandando”, diz.

Para Débora Freire, economista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a onipotência de Guedes indica “um desespero de quem não está sabendo como lidar com a crise econômica”.

“O que vemos é que Paulo Guedes é movido por ideologia. É um técnico com um viés ideológico muito forte”, diz ele, alinhando as ideias de Guedes com visão da Ditadura sobre a economia, de que era preciso fazer crescer o bolo, para depois dividir com a população.

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“Isso é totalmente arcaico. Desigualdade traz uma série de problemas não só sociais, como também econômicos”, diz. “Crescimento depende da perspectiva de demanda, e se a maioria da população tem renda muito baixa, então a perspectiva é muito ruim”, emenda.

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Plinio Teodoro

Jornalista, editor de Política da Fórum, especialista em comunicação e relações humanas.

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