Não é só coincidência: os flertes com o fascismo de integrantes do governo Bolsonaro

Gesto supremacista de assessor do presidente não é caso isolado. Governo coleciona atitudes, gestos e símbolos que remetem à doutrina autoritária

O gesto supremacista realizado pelo assessor especial de Jair Bolsonaro no Itamaraty, Filipe Martins, não é um caso isolado de referência ao fascismo no governo atual. Para além do discurso nacionalista, o ódio à esquerda e o apelo à violência, membros do alto escalão do governo Bolsonaro já explicitaram diversas vezes atitudes, gestos e símbolos que remetem à doutrina autoritária.

Um dos casos mais emblemáticos de referência ao fascismo no governo atual ocorreu em discurso do ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim, em janeiro do ano passado. O diretor de teatro copiou diversos trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha Nazista, para divulgar, em vídeo, o Prêmio Nacional das Artes.

No mesmo ano, um outro episódio chamou atenção nas redes sociais. Em maio, o presidente Jair Bolsonaro apareceu em live bebendo um copo de leite puro, alegando que estaria cumprindo um desafio de ruralistas. Pesquisadores, no entanto, enxergaram uma correlação do gesto com movimentos neonazistas – que adotam o copo de leite como símbolo.

A doutora em antropologia social pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Adriana Dias, que há anos pesquisa o fenômeno do fascismo e nazismo, afirmou à Fórum na época que há uma referência clara entre o episódio e as doutrinas autoritárias. “O leite é o tempo todo referência neonazi. Tomar branco, se tornar branco. Ele vai dizer que não é, que é pelo desafio, mas é um jogo de cena, como eles sempre fazem”, declarou.

No mês seguinte, em junho de 2020, Bolsonaro mais uma vez deixou rastros de seu gosto por símbolos fascistas. O presidente publicou um vídeo em suas redes sociais em que um italiano reproduz uma frase amplamente difundida por Mussolini, ex-primeiro-ministro italiano que liderou o Partido Nacional Fascista: “É melhor um dia de leão do que 100 anos de ovelha”.

Dossiê e perseguições

Outro marco do governo Bolsonaro que o assemelha às práticas fascistas é a perseguição a críticos e membros da oposição. Em julho de 2020, o Ministério da Justiça elaborou um dossiê contra servidores estaduais e federais identificados como “antifascistas”. A ação sigilosa do governo Bolsonaro listou um grupo de 579 pessoas, com nomes e, em alguns casos, fotografias e endereços de redes sociais das pessoas monitoradas.

Militantes e personalidades ligadas à oposição também já sofreram com atitudes autoritárias do governo. O influenciador Felipe Neto foi uma das pessoas afetadas. O filho do presidente e vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) moveu uma ação contra o youtuber após ele ter se referido ao presidente como “genocida”. A juíza Gisele Guida, da 38ª Vara Criminal do Rio, no entanto, decidiu suspender o processo no último dia 18.

Além disso, cinco militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) foram presos nestes mês, em Brasília, após estenderem uma faixa contra Bolsonaro com a palavra “genocida” escrita. Manifestantes foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, legislação criada na ditadura militar.

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Luisa Fragão

Jornalista.