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25 de julho de 2019, 06h00

O Brasil isolado: preâmbulo da destruição da ciência nacional, por Marcos Danhoni

Ou a comunidade acadêmica brasileira se rebela, ou estaremos fadados ao analfabetismo científico, cultural, tecnológico dos mais atrozes

Foto: Marcos Corrêa/PR

Por Marcos Cesar Danhoni Neves*

“Nenhum medo pode suportar a fome, nenhuma paciência pode esgotá-la, a repugnância simplesmente não existe onde há fome; e quanto a superstições, crenças e o que se poderia chamar de princípios são menos do que palha soprada pelo vento”.
(Joseph Conrad, O Coração das Trevas)

Desde o golpe 2016, que destituiu a presidenta legitimamente eleita, Dilma Rousseff, a democracia brasileira começou uma vertiginosa e tenebrosa queda dentro de um abismo sem fim. Perdemos direitos trabalhistas, educacionais, sociais, culturais, científicos e tecnológicos.

O golpe eleitoral de 2018, com a propulsão de milhões de fake news e o teatro da facada fictícia em Bolsonaro, consolidou a erosão voraz da democracia e o isolamento do país diante de todos os ataques às garantias institucionais e ao seu atrelamento total à política de Donald Trump.

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O desgoverno Bolsonaro cercou-se das criaturas mais grotescas para levar adiante tudo (ou a única coisa) que prometera na campanha: a destruição completa de todos os avanços obtidos a duras penas nas últimas duas décadas. Com uma ministra sequestradora de criança indígena e mitômana neopentecostal; com um ministro da Educação analfabeto; com um chanceler terraplanista; com um ministro do Meio Ambiente falsificador de fotos de satélite para conceder ocupação a áreas de preservação a indústrias de seu interesse; com um presidente do BNDES arrombador de condomínios; com um filho fritador de hambúrguer quase embaixador, não se poderia esperar que tivéssemos chance de construir um processo civilizatório no país.

Para demonstrar o grau de insanidade e isolacionismo internacional que estamos passando, deter-me-ei aqui sobre a questão da ciência e da tecnologia brasileira. Perdemos a Embraer, a indústria naval, o submarino nuclear, a Base de Alcântara, a tecnologia de prospecção de petróleo em águas ultraprofundas, ou seja, perdemos imensos ativos no atacado. No varejo, no entanto, estamos perdendo conquistas, que consolidam a visão de que o intuito deste desgoverno é isolar a ciência brasileira do mundo pelo seu depauperamento progressivo e pela impossibilidade de intercâmbios e colaborações internacionais.

A destruição pelo desgoverno Temer do Programa “Ciência sem Fronteira” já tinha acenado para esse isolacionismo. Cem mil bolsistas perderam seus proventos e foram obrigados a retornar ao Brasil, encerrando precocemente projetos inovadores e possibilidades importantíssimas de futuras colaborações e intercâmbios internacionais. Devemos lembrar que a Coreia do Sul, antes de se tornar uma potência tecnológica, enviou mais de duzentos mil bolsistas para o exterior e o retorno destes profissionais fez elevar os padrões de ciência e tecnologia naquele país, levando-o à condição de “tigre asiático”, no sentido de detentor de milhares de patentes e de uma indústria tecnológica pujante.

Continuando a política destrutiva de seu antecessor, o usurpador Bolsonaro liquida agora o “Idiomas sem Fronteiras”, importante programa, estabelecido dentro de uma política pública, para capacitar candidatos a enfrentar o desafio do idioma em países que ainda mantêm intercâmbio de pesquisa com o Brasil.

Aliado a isso, fomos informados esta semana da suspensão, por parte do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – MCTI – Ministro Marcos Pontes), de novas bolsas de pesquisa, cancelando Edital já divulgado no valor de R$ 60 milhões de reais. No primeiro semestre 648 projetos no país e 133 no exterior foram exterminados.

Se somarmos às perdas impostas na CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior – MEC – Ministro Abraham Weintraub), envolvendo o cancelamento de milhares de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, teremos um quadro que é muito pior que a inscrição contida na entrada para a descida horrenda no Inferno de Dante: “Vós que aqui entrais, abandonai toda esperança!”.

Se somarmos além do mais, os ataques ao INPE, ao Butantã, ao Instituto Osvaldo Cruz (FioCruz), entre outros grandes institutos de ciência e tecnologia no país, não temos dúvida de que o desmonte brasileiro vai além da velha “teoria da dependência” de FHC: nos lança diretamente, e em queda livre, no abismo do isolacionismo científico e da destruição sistemática das instituições brasileiras produtoras de C&T.

As ameaças se consolidam quando olhamos diretamente nos olhos de seus destruidores imediatos: Marcos Pontes e Abraham Weintraub. Ambos desviam os olhares de repórteres, de suas câmeras ou dos olhos de pesquisadores e estudantes que os fitam incisivamente. Como Kafka apontou em sua obra prima O Processo: “era como se a vergonha lhes devesse sobreviver!”.

Durante os anos nazifascistas na Europa de 1922-1945, milhares de cientistas e pensadores foram presos, exilados e mortos. Para citar alguns exemplos: Freud, Jung, Fermi, Einstein, Bohr, exilados. Korczack, Walter Benjamin, Huizinga, Perelman, mortos. Primo Levi preso e sobrevivente de campo de extermínio. Essa destruição do pensamento filosófico, científico, humanista atrasou a Europa por décadas a fio, tornando-a refém dos ditames da política imperialista dos Estados Unidos.

O que se impõe no Brasil de Bolsonaro é, guardadas as proporções, a mesma política de destruição. Didático é o embate entre o presidente do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o físico Ricardo Galvão e o Des-Presidente Jair Bolsonaro e seu assecla (e caroneiro espacial Marcos Pontes), diante da tentativa de se esconder da comunidade internacional os dados do desmatamento criminoso e acelerado da Amazônia nos últimos dois anos. Ricardo Galvão foi íntegro à ética e deve ser elogiada sua extrema coragem diante de um governo fascista.

É essa coragem que está nos faltando neste momento tão difícil; assim como faltou aos pensadores na Itália de 1922 e na Alemanha de 1933. Ou a comunidade acadêmica brasileira se rebela, manifestando-se publicamente contra a destruição de suas universidades e de seus institutos de pesquisa, além da erosão de recursos e políticas públicas, ou estaremos fadados ao analfabetismo científico, cultural, tecnológico dos mais atrozes. Estaremos condenados ao fundamentalismo religioso, sacramentando a desastrada frase da ministra sequestradora, quando lamentava que a ciência tivesse ficado com os cientistas e não com as Igrejas …

*Marcos Cesar Danhoni Neves é professor titular da Universidade Estadual de Maringá, autor do livro “Lições da Escuridão” entre outras obras.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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