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16 de agosto de 2019, 16h39

O preço do fascismo para a política ambiental brasileira, por Marcos Danhoni

Bolsonaro dispõe hoje das piores figuras para fazer seu trabalho sujo de liquidar a educação, a ciência, a tecnologia, os direitos sociais, trabalhistas e implantar sua política destrutiva completa

Foto: Isac Nóbrega/Presidência da República

Por Marcos Cesar Danhoni Neves*

“Sob um governo que prende injustamente, o lugar de um homem justo é também na cadeia“ (Henry David Thoreau).

Alemanha e Noruega acabam de anunciar que congelarão o fundo Amazônia e, portanto, não patrocinarão mais projetos de proteção à cobertura florestal amazônica devido à fascistização do atual desgoverno Bolsonaro, seja pelo desprezo que alimenta com relação aos países europeus (e também com China, Venezuela e Cuba), seja pela possibilidade concreta do fundo amazônico acabar indo parar nas mãos de mineradoras e grileiros ou outras atividades corruptas que marcam o desgoverno brasileiro atual.

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Bolsonaro em sua esperada reação lombrosiana e ferindo o decoro do cargo afirmou que “a Alemanha pode usar este dinheiro para reflorestar seu país” e “a Noruega pode emprestar sua oferta para ajudar a Alemanha no reflorestamento”.

Para nós, brasileiros, que conhecemos a besta-fera eleita no último processo eleitoral fraudulento de 2018, sabemos o que queria verdadeiramente dizer Bolsonaro: se houvesse legendas que pudessem traduzir as frases que ele proferiu sobre a Alemanha e a Noruega, elas ficariam no âmbito do escatológico e do impublicável, nos dizeres de um político típico de regimes fascistas.

Fosse estudado, ou cercado de pessoas honestas e de estudiosos, Bolsonaro rapidamente veria que a Alemanha se constitui num exemplo de preservação de florestas originais e de reflorestamento da área desmatada e com uso controlado de fontes energéticas para não impactar ainda mais o ambiente.

Saberia que o processo de ocupação humana intensa na Alemanha remonta mais de quatro mil anos, tendo sido palco de duas grandes guerras mundiais, que ajudaram a devastar enormemente as áreas florestais existentes e reflorestadas. Mas a Alemanha venceu! Venceu a destruição causada pelo fascismo em corações e mentes de seus cidadãos, que repudiaram o nazismo, e na recuperação de suas florestas e do viver comunitário.

A figura 1 mostra um mapa que exagera propositalmente as áreas geográficas com maior concentração de florestas (forest) e bosques em todo (woodland) o mundo. Podemos perceber que a Alemanha (círculo vermelho) encontra-se com uma grande cobertura vegetal (fonte: https://worldmapper.org/maps/grid-treecover-2005/).

Figura 1 (disponível em: https://worldmapper.org/maps/grid-treecover-2005/)

Numa outra ilustração (figura 2 – fonte: https://www.efi.int/knowledge/maps/forest), podemos perceber melhor a área ocupada por manchas de florestas primárias e secundárias, e reflorestamentos. Para uma ocupação tão longeva, a preocupação ambiental da Alemanha é um exemplo, e não somente para seu próprio país, mas para todo o mundo pois a Alemanha, assim como a maioria dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, acata os resultados dos IPCCs da ONU (International Panel on Climate Change – Painel Internacional sobre Mudança Climática). Um só planeta, para todos, e para a sanha voraz de destruidores no Poder!

Estive na Alemanha em três ocasiões, para fins de pesquisa e troca de experiências, especialmente em Kiel, Frankfurt, Dresden, e é admirável a quantidade de florestas e bosques por todo o país, com áreas intercaladas por captação de energia solar e eólica. Algo quase inacreditável em se conhecendo a longa história europeia.

No entanto, por aqui, como sofremos dois golpes, o de 2016 e o de 2018, estamos vivendo as Trevas do conhecimento: o embate na Globo entre o ex-Diretor do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o Ministro delinquente Salles, mostra o grau de ignorância e selvageria que Bolsonaro e seu desgoverno estão mergulhando o Brasil. A demissão do Prof. Galvão chocou todo o mundo (até o Diretor da NASA)!

Quando lembramos que a cidade de Dresden foi destruída em poucas noites por incessantes e desnecessários bombardeios aéreos utilizando bombas de fósforo, proibidas pelo Convenção de Genebra, destruindo completamente a cidade e matando 130 mil pessoas, e vermos a cidade e seus arredores, com toda sua cobertura de bosques recuperada, é algo que nos enche de júbilo diante de um povo que venceu o horror do nazismo em que havia mergulhado (ver o reflorestamento e reconstrução de Dresden em: https://www.jstor.org/stable/43323881?seq=1#metadata_info_tab_contents ; e na Alemanha como um todo em: https://www.bmel.de/SharedDocs/Downloads/EN/Publications/ForestsInGermany-BWI.pdf?__blob=publicationFile).

Bolsonaro dispõe hoje das piores figuras para fazer seu trabalho sujo de liquidar a educação, a ciência, a tecnologia, os direitos sociais, trabalhistas e implantar sua política destrutiva completa: Ministros capazes de falsificarem diplomas de pós-graduação (Salles, Damares) ou de falsificar dados de satélite para esconder o crescimento desmesurado do desmatamento (Salles e Marcos Pontes, o astronauta quase terraplanista). O comportamento escatológico, lombrosiano, histriônico de Bolsonaro levará o país rapidamente à ruína. Agora, esse triste personagem de nossa História investe rapidamente no sucateamento total das universidades públicas e no fechamento de uma das maiores agências de fomento científico e tecnológico do mundo: o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento e Pesquisa) do MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia). Ou façamos algo urgente para varrer esses canalhas do poder, ou seremos tragados pelas mesmas desventuras e tragédias que sucederam a Marcha sobre Roma na década de 1920 e o incêndio criminoso do Reichstag na década de 1930! É Hora de agir, e rápido!!!!

*Marcos Cesar Danhoni Neves é professor titular da Universidade Estadual de Maringá, autor do livro “Lições da Escuridão”, entre outras obras.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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