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02 de outubro de 2019, 19h06

Resistência: Em greve há quase um mês, estudantes da UFSC lutam contra medidas do governo Bolsonaro

A motivação para o movimento foi o anúncio do programa Future-se e os bloqueios nas verbas das universidades públicas feitos pelo Ministério da Educação

Foto: Matheus Rosa

Com o objetivo de resistir aos ataques do governo de Jair Bolsonaro à educação e combater as medidas nefastas anunciadas pelo ministro Abraham Weintraub para o setor, os alunos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) decidiram entrar em greve. A paralisação começou, oficialmente, no dia 10 de setembro.

“A motivação foi a oficialização do programa Future-se, anunciado pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, junto com os bloqueios que já estavam ocorrendo nas verbas das universidades públicas”, explica Leonardo Regis, estudante do curso e Economia na UFSC.

Ele conta que, após as medidas do governo, a reitoria começou a emitir comunicados, falando abertamente sobre o risco de a universidade fechar ou de interromper serviços básicos, com o corte nas verbas.

“Está faltando segurança, pois foram demitidos 95 terceirizados. Além disso, a limpeza nas instalações também está complicada, com sobrecarga para os funcionários. O instrumento de protesto que decidimos, ou seja a greve, surgiu espontaneamente, durante assembleia unificada. Foi, inclusive, uma alternativa à ocupação, proposta que não foi aprovada. A greve propicia inclusive, mobilizar a comunidade externa”, avalia o aluno de Econonia.

Adesão

Em relação ao posicionamento dos estudantes em relação ao movimento, Regis revela que a maioria dos cursos aderiu à greve, através de reuniões que ratificaram a assembleia unificada central. Além disso, foi criado em comando de greve.

“Porém, a adesão efetiva, da parte dos estudantes, tem sido um pouco contraditória. Isso é normal, pois há certa resistência por parte dos professores em respeitarem a decisão dos estudantes. Este cenário cria desinformação e desencontro. Muitos estudantes não sabem como participar. Em resumo, a maioria está em greve. Dos 40 ou 50 cursos, cerca de cinco decidiram não aderir”, destaca.

Foto: Felipe do Canto

Professores

Ainda em relação à posição dos professores, Regis conta que a reação, em geral, foi negativa. “Os progressistas apoiaram, mas é impressionante como a maior parte repetia a narrativa de que se a gente entrasse em greve iria fazer o que eles querem. Ou seja, mesmo quem está meio contra o governo, contra a privatização, fica com o pé atrás em relação ao movimento de greve. E ainda tem uma parcela minoritária dos professores, que é totalmente contra qualquer iniciativa política”.

O movimento conta com o apoio do Conselho Universitário, que rejeitou o Future-se por quase unanimidade. “O órgão tem se posicionado favorável a reconhecer o direito à greve dos estudantes, garantindo que quem participe não seja prejudicado ou assediado moralmente, nem sofra retaliações acadêmicas”, acrescenta Regis.

Durante o período de paralisação são implementadas atividades clássicas, como aulas públicas com temas sobre questões orçamentárias, sobre como está a situação política, qual a importância da universidade no desenvolvimento nacional, soberania, entre outros, além de grupos de trabalho e confecção de cartazes.

Mobilizações externas

Segundo o estudante, surgiram, ainda, outras questões de mobilizações externas, como a “UFSC na Praça”, visitas a escolas e outros locais de movimentação. “O que tem sido feito para fortalecer o movimento é procurar promover mobilizações, como panfletagem em salas de aula para falar sobre a greve, além de ações institucionais, de garantir que os estudantes não sejam prejudicados, com a realização de chamadas e avaliações por parte dos profssores, reconhecendo legitimamente a decisão democrática de entrar em greve. Também está sendo discutida a questão da reposição das aulas, que vai ser um conflito bem grande, porque vai acabar estendendo a jornada do semestre letivo”.

Regis explica que o “UFSC na Praça” foi uma iniciativa dos estudantes de pós-graduação, com o objetivo de mudar o paradigma de manifestação, mostrando que não são apenas atos isolados, mas tentar fazer uma ponte para divulgar o que é feito dentro da universidade em ternos de pesquisa, ciência, para a comunidade em geral.

Foto: Felipe do Canto

“Balbúrdia”

“Principalmente para combater o discurso bolsonarista de que nas universidades públicas existe balbúrdia, que os estudantes são vagabundos. Então, a ideia é mostrar, na prática, o que é feito cientificamente dentro da instituição”, conta.

Paralelamente, foi criado o comitê de mobilização externa, cujo objetivo é mais político, para chamar a população à mobilização e mostrar a importância da universidade pública não só em termos científicos, mas também para a educação gratuita de qualidade.

Regis diz que os estudantes da UFSC estão entrando em contato com outras universidades. “O movimento de greve aqui não pode ser isolado. Se isso acontrecer, vai acabar, inevitavelmente, perdendo força. A gente pensa que para o sucesso da greve é necessário que ela esteja nacionalizada, e que outras universidades sejam aderentes ao movimento”, completa.

UNE

Na avaliação de Danielle de Paula, diretora de assistência estudantil da União Nacional dos Estudantes (UNE) e também estudante de Economia da UFSC, com os bloqueios orçamentários feitos pelo governo federal, a universidade chegou a uma situação de calamidade.

“O reitor anunciou cortes no restaurante universitário, a demissão de terceirizados, congelamento de bolsas e outras consequências, por conta da falta de verba para manter a instituição”, conta.

Danielle avalia como importante o debate com os estudantes sobre a relevância da radicalização do movimento de greve, para além de passeatas e mobilizações. “Que a gente construa uma greve para que possa reverter esses cortes”.

Em relação ao posicionamento da UNE, ela explica que é de apoio total. “Entendemos que a greve na UFSC é um pontapé importante para a greve nacional da educação, e que é um ponto fundamental de resistência”.

“Além disso, nosso movimento tem sido histórico. Uma assembleia com 5 mil estudantes não se tem memória da última vez que aconteceu. É uma demonstração de compreensão dos estudantes sobre a necessidade que agora a gente tem de se organizar”, acrescenta.


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