Fórumcast #20
19 de julho de 2019, 12h14

Capa da Veja pode ser prenúncio de um AI-5 da era Bolsonaro

Atentados que levaram ao endurecimento da Ditadura e institucionalização do regime de tortura pelo Estado, em 1968, foram iniciados por grupo paramilitar de extrema direita comandado pelo guru esotérico Aladino Félix

Capas da primeira edição e da atual, de 19 de julho, da revista Veja. Ao fundo, Jair Bolsonaro saudado por militares (Reprodução)

A repetição de uma farsa pode estar estampada na capa da revista Veja, na edição que vai às bancas nesta sexta-feira, 19 de julho de 2019.

Na reportagem principal, a revista – criada em 1968, três meses antes do Ato Institucional número 5 (AI-5), com reportagem de  capa sobre “o grande duelo no mundo comunista” – “revela” o plano de um desconhecido grupo “ecoterrorista” intitulado Sociedade Secreta Silvestre, com a sigla SSS, para matar Jair Bolsonaro (PSL) e fomentar teorias da conspiração já tão propagadas pela extrema-direita conservadora que o apoia.

Há pouco mais de 55 anos, o cenário político, que levou a derrubada do presidente progressista, democraticamente eleito, João Goulart, por militares adeptos da ideologia da direita era muito semelhante.

A conjuntura internacional se dividia pela Guerra Fria. O “inimigo” dessa extrema-direita, combatido em nome da família, de Deus e da “liberdade”, era o mesmo dos que hoje pregam um discurso centrado na família, em Deus e na “liberdade” (econômica): o comunismo – mesmo que entendido de forma totalmente subjetiva pelos soldados rasos e até mesmo pela “intelectualidade” conservadora.

Nestas mais de cinco décadas, a matéria da revista Veja mostra que as táticas usadas pelos militares em 1964 para implantação da Ditadura militar e, quatro anos depois, a edição do AI-5, parecem também não ter mudado.

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Documentos revelados pela Agência Pública no ano passado, quando se completou 50 anos da edição do AI-5, provam que a direita paramilitar deu início à série de ameaças e atentados que institucionalizou a censura e o regime de tortura como política de Estado.

O aquecimento para o AI-5 se deu através de atentados a órgãos públicos que pudessem ser reconhecidos como alvos da esquerda: o II Exército, o prédio do Dops, o QG da Força Pública e a Bovespa, na região central de São Paulo.

Os documentos revelam que os atentados foram praticados por 14 policiais da antiga Força Pública (a PM da época), comandados por um “líder messiânico”, Aladino Félix, conhecido como Sábado Dinotos, que liderava uma seita esotérica, paramilitar e de extrema direita.

As ações de esquerda, segundo a Agência Pública, iniciaram apenas em 19 de março de 1968, com a explosão de uma bomba que feriu três estudantes na biblioteca do consulado dos Estados Unidos, no Conjunto Nacional, na avenida Paulista, e se juntaram aos atos da extrema-direita.

Guru da direita
Autor de livros sobre ufologia e de profecias bíblicas, Aladino Félix serviu como militar na Segunda Guerra e era reconhecido por relevantes serviços prestados ao golpe de 1964, além de manter contatos com autoridades do regime militar.

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Detido no Departamento de Investigações Criminais (DEIC), Aladino escreveu um manuscrito em que revela que seu grupo recebia ordens da Casa Militar do Palácio do Planalto, chefiada à época pelo general Jayme Portella, e de fontes do Ministério da Justiça através da Polícia Federal, e que o objetivo dos atentados era justamente forçar um endurecimento do regime ditatorial.

“Brasília queria que nossas ações continuassem até dezembro de 1968 ou janeiro de 1969”, escreve no manuscrito, entregue à polícia em 27 de setembro de 1968. Todos os integrantes de seu grupo, ouvidos em inquéritos civis e militares, reafirmariam que a motivação era levar o regime a editar medidas de exceção.

Aladino Félix sustenta que, diante de pressões que só aumentavam, o governo concordara com a linha dura do regime. “Para evitar a reformulação dos planos revolucionários, a única forma proposta e aceita pelo governo federal, através do general Paulo Trajano, foi a ação terrorista”, escreve no mesmo manuscrito.

General da reserva, Paulo Trajano da Silva era adepto da ideia fantasiosa de Félix, de que a Frente Ampla contra a Ditadura planejava “um golpe contra o General Costa e Silva” usando as polícias e brigadas de vários estados.

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Todos os responsáveis pelos atentados foram julgados e alguns cumpriram penas reduzidas pelo Supremo Tribunal Militar pela participação nos atos. Paulo Trajano não chegou nem mesmo a ser investigado.

Já Aladino Félix, teve a pena de cinco anos de prisão – apenas pelo crime de furto de armas nas Forças Armadas – reduzida a 8 meses pelo STM.

Mais tarde, passou por um conselho de exame de sanidade mental. Foi tido como doido pelos psiquiatras forenses José Roberto Belelli e Carlos Roberto Hojaij, com “inteligência acima da média”.

“Não se trata de doente mental. Trata-se de portador de perturbação da saúde mental cuja capacidade de entendimento ao tempo dos fatos era apenas parcial”, dizem no documento.

Aladino Félix morreu aos 68 anos no dia 11 de novembro de 1985, quando o Brasil se preparava para pôr fim à Ditadura.

Leia a reportagem da Agência Pública na íntegra


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