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28 de Maio de 2019, 11h00

Ciro Gomes chama ex-comandante para briga em debate de policiais antifascismo

"Coloque esse dedo no bolso, seu bosta! Coloque esse dedo no bolso, seu merda! Então venha aqui, agora!”, gritava Ciro Gomes, ao microfone, chamando o policial para a briga

Participantes do Congresso Nacional dos Policiais Antifascismo (Foto: Mídia Ninja)

Por Rafael Duarte, da Agência Saiba Mais

O debate sobre Segurança Pública mais aguardado do I Congresso Nacional dos Policiais Antifascismo terminou em confusão generalizada entre o ex-candidato à presidência da República Ciro Gomes (PDT), a deputada federal Maria do Rosário (PT) e simpatizantes do ex-presidente Lula.

O evento foi realizado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Além de Ciro e de Maria do Rosário, a mesa principal contou ainda com a presença do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), do presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco Áureo Cisneiro, e do delegado e coordenador do movimento nacional dos policiais Antifascismo, Orlando Zacconi. O Congresso termina nesta terça-feira (28). A agência Saiba Mais está cobrindo o evento.

O auditório estava dividido entre jovens simpatizantes do PDT, PT e PSOL, além de estudantes da própria UFPE e policiais do movimento Antifascismo. Um telão foi instalado fora do auditório para os que não conseguiram entrar.

Foi o primeiro encontro público de representantes de centro-esquerda após as eleições de 2018. Era o momento de lamber as feridas da derrota eleitoral. Em fevereiro deste ano, Ciro já havia sido vaiado na Bienal da União Nacional dos Estudantes após criticar o ex-presidente Lula, mas em Recife a mesa era bastante representativa. Estavam ali representantes do PDT (Ciro Gomes), PT (Maria do Rosário) e PSOL (Marcelo Freixo). A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB) foi convidada, mas não pôde comparecer. De surpresa, o metalúrgico e ex-candidato à presidência da República pelo PSTU, Zé Maria, também apareceu e fez uma saudação ao público que prestigiou o Congresso.

Chato da noite
Último a falar, Ciro Gomes avisou desde o início que faria provocações e não mentiu. Ele disse que seria o chato da noite e não falou nada que já não vinha dizendo desde que as eleições terminaram. Só quem não acompanha a trajetória e as estratégias eleitorais do ex-governador do Ceará não imaginaria o que iria acontecer durante o debate.

O quadro de tensão já começou a se desenhar nos discursos de Marcelo Freixo e Maria do Rosário, que defenderam a unidade do campo progressista na luta contra o fascismo. Era um recado claro ao debatedor que estava na ponta direita da mesa.

Ciro olhava, esboçava um sorriso e escutava.

Quando pegou o microfone, o líder do PDT fez elogios aos colegas, especialmente a Marcelo Freixo, a quem reconheceu como um dos melhores quadros da política nacional. Mas repetiu que estava ali para provocar o debate. A estratégia de Ciro Gomes é simples: de olho em 2022, ele avança sobre os votos do PT apostando no desgaste da inviabilidade eleitoral do ex-presidente Lula, preso há mais de um ano em Curitiba após a condenação em 2ª instância no polêmico processo do tríplex do Guarujá.

O pedetista iniciou o discurso lembrando que houve um salto na população carcerária durante os governos do PT, saindo de 250 mil para 750 mil. E fechou a análise destacando que a gestão petista não fez nada pela segurança pública do país.

“Vocês sabem o que mudou na Segurança Pública do país entre 2002 e 2016? Nada! E se mudou, foi para pior”, disse.

Sobre a “unidade” sugerida pelos debatedores que o antecederam, foi curto e grosso.

“Unidade para quê, cara-pálida? Para fazer o mesmo? Não conte comigo, não. Dessa unidade estou fora para sempre”, afirmou já subindo o tom e dividindo o público.

A primeira reação negativa mais incisiva sobre a fala de Gomes partiu da deputada Maria Rosário quando o representante do PDT disse que não via diferença entre os projetos de Segurança Pública dos governos Lula e Bolsonaro.

Com as queixas de Rosário, Ciro passou o microfone para a deputada que fez uma defesa do governo petista. Na réplica, disse que não falara mal do ex-presidente e passou a comentar a condição de preso condenado de Lula.

A cada menção ao nome do ex-presidente, Maria do Rosário interrompia e Ciro lhe passava o microfone em tom de deboche.

“Sabe por que eu falo? É porque o presidente Lula não está aqui para se defender”, retrucou a parlamentar do Rio Grande do Sul, aplaudida pelos petistas da plateia.

Feridas eleitorais
Àquela altura, o relógio chegava perto das 23h e o debate sobre Segurança Pública já havia descambado para as feridas eleitorais ainda não cicatrizadas de 2018 e as autocríticas que parte da esquerda cobra do PT.

Era uma autêntica lavagem de roupa suja com transmissão ao vivo pelo coletivo Mídia Ninja. As provocações de Ciro Gomes então incitaram a plateia, que passou a provocar o ex-presidenciável.

“Se juntasse seus votos e os do Haddad o Brasil não estava nessa situação”gritou um estudante.

Ciro então passou a criticar a escolha de Haddad como candidato em substituição a Lula e incendiou o debate quando disse que para isolá-lo da disputa presidencial, o PT sacrificou a candidatura ao governo de Pernambuco de Marília Arraes, que liderava as pesquisas de intenção de voto (durante a pré-campanha eleitoral, o PDT vinha costurando uma aliança com o PSB, mas um acordo nos bastidores do PT com os socialistas, chancelado por Lula, garantiu apoio à candidatura de Haddad sacrificando várias candidaturas estaduais onde o PSB tinha chance de vencer a disputa).

Os ânimos se exaltaram e Ciro subiu o tom ainda mais quando Maria do Rosário disse que ele ainda estava magoado com o resultado eleitoral de 2018.

“Você está magoado e a mágoa não é boa conselheira”, afirmou para logo em seguida ouvir a resposta de Gomes: “Pode dizer que estou magoado. Satanize a o carteiro, mas agora leia a carta. O PT sacrificou Marília Arraes aqui em Pernambuco. Bolsonaro se elegeu por erro nosso! Não vou mudar discurso porque quem não vê a realidade é louco”, disse com parte do auditório já de pé.

O tempo fechou de vez quando um policial de Alagoas pediu para Ciro “parar de chorar” e voltar para o debate sobre Segurança Pública. O ex-candidato do PDT rebateu a provocação pedindo para o público esquecer a paixão por Lula e pensar com a cabeça.

“É a realidade. Unidade é o cacete, eu conheço vocês!”, gritou.

O ex-comandante da polícia militar de Alagoas, um coronel da reserva, entendeu a frase como um desrespeito à Maria do Rosário e os dois começaram bater boca.

Ciro Gomes ainda tentou explicar que cacete, no Ceará, era um pedaço de pau e perdeu completamente a razão quando passou a ofender o policial que, da plateia, falava com o dedo apontado para o líder do PDT.

“Coloque esse dedo no bolso, seu bosta! Coloque esse dedo no bolso, seu merda! Então venha aqui, agora!”, gritava Ciro Gomes, ao microfone, chamando o policial para a briga.

Já passava das 23h, a plateia estava de pé, um tumulto foi formado em frente à mesa dos debatedores e o mediador tentava controlar os ânimos. Da plateia, o antropólogo Luiz Eduardo Soares pediu a palavra como homem mais velho do evento e em tom pacificador explicou que o inimigo de todos ali é outro e, exaltando as trajetórias dos componentes da mesa, afirmou que aquele era um momento importante de exercício da democracia.

Quando tudo parecia levar para o encerramento do evento, a organização do Congresso decidiu voltar abrindo o debate para falas de cinco policiais do movimento antifascismo e as considerações finais dos palestrantes.

Com todos mais calmos, os policiais que se revezaram ao microfone destacaram a importância daquele momento para a construção do movimento e a necessidade dos partidos de esquerda se abrirem para as pautas de Segurança Pública e Direitos Humanos. A maioria se queixou da invisibilidade do movimento dentro do próprio campo de esquerda.

Nas considerações finais, Ciro Gomes, Maria do Rosário e Marcelo Freixo exaltaram a importância dos policiais antifascismo.

Principal provocador da noite, o representante do PDT disse que o papel dele era suscitar os debates.

“Não faço mais discurso de sobremesa, meu papel é suscitar debates. Não vim falar para corações, mas para mentes. Se isso fere alguém, isso é paixão. Quem me convidou sabe que eu vim para dizer o que eu penso, e não o que os outros querem ouvir”disse.

Maria do Rosário lembrou o que é o fascismo e o desafio que o campo progressista tem pela frente:

“Se vocês são os movimentos antifascismo é bom lembrar que o fascismo é o da direita e quer a eliminação do outro. Diferente de nós”comentou.

O deputado federal Marcelo Freixo admitiu que ficou em pânico quando o clima esquentou.

“Estou trabalhando muito para a unidade. E não é uma unidade eleitoral, mas de luta. Fiquei em pânico. Pensei comigo: ‘não é possível que isso vai acabar assim’. Era uma mesa de risco desde o início. E não encarar (nossas divergências) não é dar trato a elas. Somos minoria, temos um problema social a tratar. Na maioria das polícias somos estranhos. O desafio do movimento dos policias antifascismo é construir uma alternativa”, encerrou.


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