Contra ‘sabotagem’ de Bolsonaro, Erika Hilton propõe criação do Dia em Defesa da Vacina e das Trabalhadoras da Saúde

“É um ato simbólico para provocar reflexos concretos, de reflexão dia após dia, ano após ano. Um povo que não tem marcos históricos, não se lembra da sua história e pode repeti-la mais facilmente”, afirma a vereadora

A vereadora Erika Hilton e Monica Calazans, a primeira brasileira vacinada em território nacional contra a Covid-19 (Reprodução)
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17 de janeiro de 2020. A data já entrou para a história como o dia em que a primeira brasileira recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19 em território nacional. Essa brasileira é Monica Calazans, enfermeira negra que atua na linha de frente do combate ao coronavírus no hospital Emílio Ribas, em São Paulo.

O gesto da primeira aplicação da Coronavac, imunizante produzido pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, marca o que pode ser o início do fim da pior crise de saúde do século, que já tirou a vida de mais de 200 mil brasileiros.

O início da vacinação, entretanto, ocorre em meio a uma disputa política e narrativa, alimentada pelo bolsonarismo, que nega a ciência e incentiva as pessoas a não se vacinarem. Na cidade de São Paulo, por exemplo, negacionistas já fizeram, por mais de uma vez, atos e encenações pregando contra a "vachina", termo pejorativo a que eles se referem à vacina do Butantan.

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Com o intuito de valorizar a ciência, os profissionais de saúde e contribuir para que a data da primeira aplicação de vacina contra a Covid não seja apenas uma notícia de jornal, a vereadora Erika Hilton (PSOL-SP), primeira mulher trans e negra da história a se eleger para a Câmara Municipal paulistana e mulher mais votada do Brasil na última eleição, anunciou que apresentará um projeto de lei para tornar o dia 17 de janeiro o "Dia Municipal em Defesa da Vacina e das Trabalhadoras da Saúde - Monica Calazans".

"É muito importante, ainda mais nos tempos de hoje, criar um Dia Em Defesa da vacinação e das Trabalhadoras da Saúde, porque parte das instituições que guiam o país, aparelhadas pelo grupo político que se instalou com Bolsonaro, vêm tentando sabotar a confiança que a população tem nas vacinas, que hoje, são nossa melhor ferramenta para salvar vidas", disse a vereadora à Fórum.

"É um ato simbólico para provocar reflexos concretos, de reflexão dia após dia, ano após ano. Um povo que não tem marcos históricos não se lembra da sua história e pode repeti-la mais facilmente", completa a psolista.

Profissionais de saúde e identidade do brasileiro

Uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Enfermagem, de 2017, aponta que a maior parte dos trabalhadores da área de enfermagem (53%) são mulheres negras. A enfermagem, por sua vez, configura como a categoria com o maior número de profissionais dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

Não foi à toa, portanto, que Monica Calazans, mulher negra e enfermeira, e Vanusa Kaimbe, mulher indígena que atua como técnica em enfermagem e assistente social, foram escolhidas para tomar a primeira dose do imunizante contra a Covid-19.

"A vacinação de Monica Calazans e Vanusa Kaimbe como primeira pessoa e primeira indígena vacinada são fundamentais. Elas interseccionam, juntas, a identidade da maioria do povo brasileira: trabalhadoras, mulheres, negras e indígenas", considera Erika Hilton.

Educação

Além de profissionais de saúde, indígenas e quilombolas, estão no grupo prioritário para receber a vacina em São Paulo as pessoas com 75 anos ou mais.

Para a vereadora do PSOL, é preciso incluir também na prioridade da vacinação os trabalhadores do transporte, da segurança e também da educação para, após obtido o registro definitivo da vacina, "caminhar com o máximo de agilidade para a imunização massiva da nossa população".

Com relação aos profissionais da educação, o secretário estadual de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, afirmou que os professores devem ser incluídos no segundo grupo prioritário da vacinação.

Na capital paulista, entretanto, as aulas presenciais na rede pública privada voltarão no dia 1º de fevereiro e, nesta data, é bem provável que os trabalhadores das unidades de ensino ainda não estejam vacinados.

Para Erika Hilton, é preciso adiar a volta presencial das aulas até que esses trabalhadores tomem a vacina.

"Acho que a educação, bem como outras áreas dos serviços públicos, sofreu um grande baque durante a pandemia. E os governos, todos eles, mais uma vez, desperdiçaram oportunidades de corrigir estruturalmente essas debilidades e fissuras, como as superlotações generalizadas nas salas de aula", opina a vereadora.

"Defendo que as aulas não voltem enquanto profissionais da educação, todos eles  professoras, inspetoras, faxineiras, merendeiras, porteiros, perueiros, bem como os familiares que são grupo de risco, não estiverem vacinados. Daqui até lá, nos planejamos: infraestrutura, concursos,  contratações, protocolos de segurança. Tudo com o objetivo de salvar vidas e poder ter algum tipo de legado positivo para nosso povo, que está sofrendo. Para corrigir fissuras históricas que já eram necessárias desde antes da pandemia da Covid-19", conclui.