quarta-feira, 23 set 2020
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David Miranda critica postura de Eduardo Bolsonaro na Câmara: “Quebra política de hierarquia”

Em entrevista à Fórum nesta quarta-feira (20) após a primeira reunião da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, da qual é membro titular, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) criticou a “relação entranhada” que Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), presidente do colegiado e filho de Jair Bolsonaro (PSL), está promovendo entre o governo do pai e o órgão parlamentar – que tem também a atribuição de fiscalizar o Executivo.

A avaliação é motivada pela postura de Eduardo na condução dos trabalhos da comissão e, especialmente, pelo papel que desempenhou junto à comitiva presidencial nos Estados Unidos, onde entrou para o encontro com o presidente Donald Trump, provocando “chilique” do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo – que ficou de fora da reunião.

“Cria uma atmosfera de preterição e uma quebra política de hierarquia. A gente não consegue ver até onde os filhos vão mandar dentro do gabinete do pai”, avalia David.

O deputado do Rio de Janeiro falou ainda do constrangimento que esse tipo de relação cria para a Câmara Federal. “O Eduardo sendo presidente da comissão [de Relações Exteriores], tem que manter seriedade e não só fazer base ao governo, para passar as coisas que seu pai quer aqui na Casa.”

Dos 17 requerimentos pautados para a primeira reunião do colegiado, cinco eram de autoria de Bolsonaro, dos quais quatro foram os primeiros a serem votados.

David Miranda acredita que o envolvimento da população e da sociedade organizada, nas ruas e nas redes sociais, fortalece a resistência que acredita ser necessária para o campo progressista enfrentar as manobras de Eduardo na comissão.

“A população precisa ser bem informada, com jornalistas fazendo boa cobertura, com comunicação simples”, ressalta.

Mudança de regra

A comissão presidida por Eduardo Bolsonaro rejeitou a inclusão na pauta do requerimento de David Miranda para que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, prestasse esclarecimentos sobre os rumos da política exterior do governo.

O documento foi protocolado antes das 16h de segunda-feira (19), mas a assessoria do PSOL foi surpreendida com a informação de que o prazo se encerrava às 11h – tradicionalmente, o limite sempre foi as 18h do dia anterior à reunião.

A falta de transparência e comunicação prévia acerca da mudança gerou reclamações.

David Miranda falou à Fórum sobre a necessidade de que o ministro se explique o quanto antes sobre o que chamou de “quebra da soberania”, a partir de acordos assinados por Bolsonaro em visita aos Estados Unidos – citando a liberação unilateral de vistos para turistas estadunidenses, as declarações catastróficas do presidente brasileiro e a intenção do governo em autorizar Trump a lançar foguetes e satélites da Base de Alcântara, no Maranhão.

Sobre o último ponto, David Miranda cita o quão estratégica pode ser para os norte-americanos a instalação de Base Militar no local. “Podem lançar mísseis para qualquer lugar da América do Sul. A gente da vontade [de Trump] de entrar em conflito com a Venezuela”, pontuou.

Mais light

O chanceler Ernesto Araújo vai, contudo, falar à comissão na próxima quarta-feira (27), após a aprovação de audiência pública para que o chanceler apresente “as prioridades” da pasta das Relações Exteriores para 2019.

A iniciativa foi do próprio Eduardo Bolsonaro, em manobra para evitar as tentativas de convocação para cobrança de explicações ao chanceler.

Dois requerimentos com esse intuito – um de autoria de Tadeu Alencar e Alessandro Molon (PSB-RJ) e outro assinado pela deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC) -constavam na pauta, mas só foram apreciados após o de Eduardo, o que, na prática, tornou-os inócuos.

Perpétua reclamou que, tradicionalmente, o presidente da comissão deixa que seus requerimentos sejam apreciados por último para evitar atropelos sobre os colegas.

Vinicius Lousada
Vinicius Lousada
Jornalista formado pela Unesp, com atuação em coberturas legislativas. Cursou especialização em História, Cultura e Poder. Estuda Gestão em Políticas Públicas. É repórter da Sucursal da Fórum em Brasília.