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20 de abril de 2018, 11h09

Dilma sobre prisão de Lula: “Todos os processos podem ser revertidos”

Em entrevista a Bia Willcox, nos EUA, a ex-presidenta afirmou estar “sentindo muito a prisão” de Lula: “Existe a certeza histórica de que todos os processos podem ser derrotados”

A ex-presidenta Dilma Rousseff viajou para o exterior nas últimas semanas, com o objetivo de denunciar o golpe, em palestras realizadas em grandes universidades. Na última terça-feira (17), ela esteve em Stanford, na Califórbia, Estados Unidos, e concedeu uma longa entrevista a Bia Willcox, no dia em que o impeachment completou dois anos. Após a entrevista, segundo a jornalista, Dilma se dirigiu ao auditório, onde foi recebida pela professora e ativista Angela Davis.

Alguns trechos da entrevista foram publicados com exclusividade pelo Jornal do Brasil nesta sexta-feira (20), onde pode ser ouvido o áudio. A íntegra está no Brasil 247. Acompanhe alguns trechos:

Uma coisa que me chama muita atenção é o seu caráter. Um sentido de lealdade e solidariedade ao Lula. Me fale disso

Eu tenho uma relação com o Lula que foi construída ao longo dos anos que comecei a trabalhar com ele. Em 2003, virei ministra de Minas e Energia, mas não convivia muito com ele. Em 2005, eu virei chefe da Casa Civil, que é como se fosse um coordenador do governo. O meu gabinete ficava em cima do gabinete do Lula. Passávamos o dia descendo e subindo. Eu fiquei nesse cargo participando de todas as ações, convivendo com ele uma média de 12 horas por dia. Estou sentindo muito a prisão do Lula. Eu conheço a personalidade do Lula, ele é uma pessoa extremamente generosa. Ele foi muito amado pela mãe. Mãe é uma figura fundamental, sabia? A mãe dele era paupérrima, tinha somente uma lata de leite, era uma mulher analfabeta, mas um dia disse à professora do Lula, que queria ficar com ele porque era um aluno muito inteligente: “Não, ele tem mãe, obrigada”. Esse amor irrestrito dela por ele transformou ele numa pessoa muito boa. Eu sei o que ele representa, sei da capacidade dele. Como qualquer ser humano, Lula também tem defeitos, mas as qualidades do Lula são infinitamente superiores. Olha, eu não chorei na minha prisão. Eu fiquei três anos na cadeia. Não chorei no meu processo de impeachment. O dia que eu soube que ele ia ser preso, eu chorei. Sabe por quê? Comove muito uma situação de absoluta injustiça. Engraçado que no dia do meu impeachment, atrás de uma pilastra no Palácio da Alvorada, quando eu desci a rampa, ele me abraçou chorando, soluçava. Eu disse para ele: ‘acalme-se’. Agora, na sua prisão, ele quem me acalmou.

Sobre a sua candidatura ao Senado, o que a motivou a se candidatar?

Eu fui muito estimulada pelo Lula a me candidatar em Minas Gerais. Só saberemos da candidatura em agosto. O que houve agora é que eu levei meu título de eleitor para lá. Por que Minas Gerais? É minha terra Natal e minha mãe está com 94 anos e doente. Preciso estar mais perto dela. A candidatura sendo em Minas eu junto as duas coisas.

Como se tira o Lula do confinamento?

Olha, eu vou lutar e resistir. Eu acredito que não existe um processo fácil. Existe a certeza histórica de que todos os processos podem ser revertidos, todos os processos podem ser derrotados. Eu acho que temos de entender por que é um golpe e que é um golpe contra a democracia. Temos que expandir os limites da democracia, já que a questão é de ameaça democrática. Muitos me perguntaram: “Por que você vai ao Senado se você sabe que há uma altíssima probabilidade de eles aprovarem o impeachment?”. Eu vou para o Senado não por eles, mas porque é uma instituição do meu país e lá eu vou confrontar do único jeito que se pode confrontar numa democracia: uma discussão aberta, expondo as contradições deles e fazendo a denúncia. Se nós, digo ‘nós’ porque tive advogados, companheiros que me ajudaram, não tivéssemos feito isso, não teríamos conquistado uma narrativa que ninguém tira de nós. Construímos a narrativa e ninguém tira o que construímos com nossa luta e nossa tristeza, com as nossas dores. Esse processo tem uma força de verdade, todos nós nos motivamos quando vemos que uma narrativa é verdadeira.Uma pessoa me disse algo muito importante aqui nos EUA: “você percebe que a verdade é extremamente carismática?”. Foi o professor Harley Shaiken, da Universidade de Berkeley. Ou seja, a verdade tem uma capacidade enorme de convencer, porque ela dá conta da realidade que compartilhamos.

 


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