Distopia: Para Bolsonaro e Guedes, “economia está ajustada” e “Brasil está bem avaliado”

O presidente e o ministro da Economia fizeram pronunciamento conjunto nesta sexta após especulações sobre possível saída de Guedes

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes se reuniram no Ministério da Economia na tarde desta sexta-feira (22) para afinar o discurso e garantir a manutenção do titular da pasta. Após nova debandada de assessores e diante de péssimos resultados econômicos, especulou-se que Guedes deixaria o governo.

O presidente usou o encontro para demonstrar apoio ao ministro e evitar uma queda do principal fiador do governo com o mercado financeiro. A pressão pela demissão de Guedes cresceu após a saída de quatro secretários da Economia.

“Nós entendemos que economia está ajustada, não existe solavanco”, disse Bolsonaro em pronunciamento realizado após o encontro.

O presidente e o ministro reafirmaram as intenções de criar o programa Auxílio Brasil a partir da aprovação da PEC dos Precatórios, que recebeu parecer favorável em comissão na Câmara.

“São 16 milhões que estão no Bolsa Família, cujo ticket médio está em R$ 192. A gente vê esse valor como insuficiente para o mínimo. Assim, com responsabilidade, estudamos há meses essa questão, onde se chegou a um valor. Esse valor tem responsabilidade, não faremos aventura”, disse Bolsonaro. O valor deve ser de R$ 400.

Guedes, no entanto, reforçou que o programa, ao contrário do Bolsa Família, será temporário.

“Ninguém vai questionar esses 400 reais pros mais frágeis: subiu o preço da comida, subiu o preço do gás de cozinha”, disse. O ministro, no entanto, não falou em como frear essa alta de preços.

Em dado momento da coletiva, Guedes afirmou que o Brasil está “bem avaliado” no exterior. “Fui representar o Brasil lá fora, onde nós estamos muito bem avaliados. Porque o Brasil caiu menos, voltou mais rápido e está crescendo mais que a média dos avançados, da Zona do Euro, da América Latina. O Brasil vacinou 90% da população, a pandemia está sendo abatida. O Brasil vai crescer bem mais do que as projeções no ano que vem”, disse, sem apresentar qualquer dado que comprove essas afirmações. Nem mesmo o percentual da vacinação o ministro acertou: sao pouco mais de 70% com uma dose e 50% com duas.

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No pronunciamento, Bolsonaro ainda afirmou que o governo não pretende alterar a política de preços da Petrobras, apesar da disparada dos combustíveis, e prometeu um apoio financeiro aos caminhoneiros.

A teoria do crescimento em “V” voltou a ser mencionada pela dupla que parece viver em um Brasil distinto do que vê a fome atingir níveis graves.

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Debandada na Economia

Na quinta-feira (21), quatro ministros deixaram a pasta: Bruno Funchal, secretário especial de Tesouro e Orçamento; Gildenora Batista Dantas Milhomem, secretária especial adjunta de Tesouro e Orçamento; Jeferson Bittencourt, secretário do Tesouro Nacional; e Rafael Araújo, secretário-adjunto do Tesouro Nacional.

Apesar do motivo real da debandada não ter sido explicitado pela pasta, nos bastidores especula-se que as demissões estejam ligadas à discordância dos secretários com as intenções de Bolsonaro e de Guedes de furarem o teto de gastos para bancar o Auxílio Brasil, programa do governo que visa substituir o Bolsa Família. O novo programa, que tem claros objetivos eleitorais, não tem uma fonte de financiamento clara e pode não se sustentar por mais de um ano.

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Lucas Rocha

Lucas Rocha é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e cursa mestrado em Políticas Públicas na FLACSO Brasil. Carioca, apaixonado por carnaval e pela América Latina, é repórter da sucursal do Rio de Janeiro da Revista Fórum e apresentador do programa Fórum Global