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02 de outubro de 2019, 11h59

É a hora dos Comitês de Mobilização por todo o país, por Leonardo Regis

É um momento que exige antes de tudo lucidez na análise, mas principalmente trabalho na base. Não será possível resistir e avançar em nada se não houver trabalho de base

Greve na UFSC: Foto: Matheus Rosa

Por Leonardo Regis*

Convivemos cada vez mais com presos políticos, com a pilhagem das riquezas nacionais, tudo a partir de decisões arbitrárias e unilaterais sem qualquer fundamento ou justificativa racional, as instituições se encontram prostradas e recuadas em suas esgotadas funções republicanas de outrora. A única lógica que impera é a do poder, do capital sem freios, da autoridade, do Império do Norte com seus violentos e ignorantes lacaios do Sul, a história sendo repetida em nova roupagem e aprofundada para níveis desconhecidos. Um desmonte completo de nosso futuro, um “novo tipo de ditadura”, como afirmou Manuel Castells, uma que é disfarçada e gritante ao mesmo tempo.

É um momento que exige antes de tudo lucidez na análise, mas principalmente trabalho na base. Não será possível resistir e avançar em nada se não houver trabalho de base. O trabalho é medido em horas de trabalho, em nervos e músculos gastos com uma finalidade consciente. Não será feito por palavras soltas ao vento, mas sim por palavras afiadas direcionadas às correntes mentais que prendem nossos compatriotas. Não será feito com argumentos improvisados, mas por materiais elaborados, sucintos, diretos e impactantes. A frase que deve ecoar na cabeça de todos os militantes pela democracia e dignidade humana é a paráfrase do ditado ancestral: Se não nós, quem? Se não agora, quando?

Esse tipo de empreitada certamente estará envolta em medo e inexperiência, a polarização política atinge o ponto de criar realidades paralelas nas mentes dos brasileiros. A tarefa de quebrar as ilusões, desmascarar as conspirações infundadas e infundir esperança e razão neste país jamais poderá caber a apenas um cidadão único e iluminado, e jamais será através de uma fórmula simples e óbvia. Será, de fato, um complicado e longo processo, mas que precisa se estruturar realmente.

Os anos e décadas de letargia e comodismo, que levaram a grande maioria da esquerda brasileira a contentar-se quase imóvel em seus gabinetes institucionais e ensimesmada em suas elucubrações acadêmicas, terão de ser quebrados agora pela força das necessidades históricas e práticas. A falida máquina de mobilização e consciência política que vimos nos últimos anos, acostumada a atuar apenas em momentos eleitorais como marketing, precisa ser reinventada às pressas. O fracasso rotundo frente ao golpe de 2016, contra a reforma trabalhista e na atual reforma da Previdência indicam, sem sombra de dúvidas, que os métodos atuais não podem fazer frente à nova máquina de propaganda digital e distorção social do agora (des)governo.

A atual estratégia majoritária de confiar e reduzir a luta de um povo inteiro à figura do maior líder popular de nossa era tem se mostrado mais que insuficiente e é sozinha, ao contrário, conveniente a quem está no poder. A única maneira de sanar as injustiças e libertar todos os presos e presas políticas neste país é o impedimento do atual governo, vendido a interesses externos e inapto a lidar com os desafios sociais, ambientais, econômicos e políticos deste gigante país.

Após esta última eleição envolta em escândalos de corrupção e uso de técnicas inovadoras de manipulação e fraude midiática e em redes sociais que, diga-se de passagem, são cada vez mais relatadas e conhecidas ao redor do mundo, é mais do que legítimo pedir pela interdição do atual governo e clamar por novas eleições gerais e justas. Os recentes vazamentos de conversas dos personagens lavajatistas, que manipularam intencionalmente as eleições de 2018, apenas vêm a reafirmar esta posição.

Apesar de tais artifícios, não podemos pretender que a vitória de Bolsonaro advenha tão somente dessas trapaças. Pelo contrário. A construção no imaginário brasileiro dos elementos mais ressaltados de sua retórica provém, também, de anos de condicionamento midiático e dominação cultural, assim como de erros estratégicos na condução política e econômica do governo anterior, que devem ser foco de profunda autocrítica – sim!

Há um longo e árduo caminho na superação desses conceitos e na construção de uma verdadeira consciência política e de classe no Brasil. E para atingir esse nível de consciência e mobilização, é necessário transformar a maneira com que lidamos com a política. Não mais vê-la como um botão a apertar na urna, uma reverberação dos grandes canais e jornais, ou um protesto que devemos ir e convocar de tempos em tempos, não se trata apenas de um meio de indignação contra as injustiças e barbaridades, muito menos é uma conversa acalorada que temos para exercício intelectual, ou então um exercício retórico frente a amigos e familiares. A política no Brasil precisa ir para o estágio da mobilização total, do trabalho de base, da formação emergencial de quadros, da difusão de conhecimento, teoria e prática revolucionárias e democráticas.

Aquilo que separa os militantes políticos, pessoas mais experimentadas nesses assuntos, e o cidadão leigo, curioso de como determinar seu destino, deve ser rompido pelo contato direto e linguagem acessível e inclusiva. O objetivo primário é combater frontalmente a fácil ilusão do Grande Líder e das Panaceias Políticas, típicas das ideologias autoritárias e fascistas, que foram vendidas nas últimas eleições. Esse processo não ocorrerá do dia para noite e nem sem qualquer tipo de revés. Muitas palavras terão de ser trocadas, argumentações reformuladas, panfletos reescritos, ações repensadas, gráficos reorganizados, mal-entendidos explicados, até que se atinja, em uníssono e de maneira massificada, a consciência de nossos problemas e desafios. Nesse próprio processo, aqueles que se pretendiam a vanguarda poderão ver suas próprias limitações e rever seus conceitos muitas vezes elitizados, aprendendo com o povo aquilo que ele mais precisa para se colocar em movimento.

Na falta de iniciativa central e organizada, cada um(a) de nós em cada canto, bairro e cidade deste imenso país deve tomar a responsabilidade de organizar as entidades políticas representativas e movimentos sociais que ainda não estejam mobilizados, ou então mobilizados apenas em aparência, quando na prática, em relação a sua base, são passivos. Devemos ir para as ruas no dia a dia e nos finais de semana, plantar-nos nas áreas de maior movimento e concentração para dialogar e disseminar a verdade sobre nossos problemas econômicos, emprego e renda, a segurança pública, a saúde e epidemias, os problemas ambientais, assim como a ciência, pesquisa e educação no Brasil, a reforma da Previdência e o que é democracia de verdade, qual a nossa nação e suas riquezas, sua soberania e potenciais: quem é quem, quais os projetos e interesses em jogo.

Na ausência inicial de recursos e movimentos nacionalmente organizados teremos de revezar com nossos compatriotas, para poder contribuir nesta grande mobilização conciliando trabalho, estudos e família. Só assim forçaremos nossas lideranças no caminho da mobilização, assim como novas lideranças serão forjadas no calor da mobilização para que dia a dia convençamos mais pessoas a se juntarem em nossas fileiras, combatamos a desinformação e o ódio com conhecimento e esperança. Saiamos do negativismo e derrotismo e comecemos a ser propositivos. Se sabemos o que não fazer, também digamos o que precisa ser feito!

Produzamos materiais informativos e verídicos para contrastar com as mentiras e falácias do governo e suas redes de influência digital, organizemos pontos de distribuição e encontro: trabalhemos neles para dialogar e mobilizar. Serão horas que muitos de nós e cada vez mais brasileiras e brasileiros teremos de sacrificar pelo nosso futuro e das futuras gerações, é um turno extra emergencial que os estudantes e trabalhadores brasileiros terão de fazer frente a esta crise. E, se tudo der certo, certamente constituirá no futuro parte de nossa vida política normal, organizada e com recursos, para que jamais voltemos a regredir a este estado sombrio e angustiante, primeiramente conseguindo superá-lo.

A fagulha do estopim

Quando comecei a escrever este texto, em maio deste ano, tratava-se de algo muito embrionário, que não foi adiante no âmbito do Centro Acadêmico que componho, porém sendo muito convergente com uma iniciativa que se organizava pelos estudantes de pós-graduação chamada “UFSC na Praça”. Este texto foi reescrito dia 28 de agosto, visando uma publicação imediata, a fim de aprofundar as iniciativas de mobilização de base. Só que cerca de uma semana depois estourou na Universidade Federal de Santa Catarina a primeira greve estudantil do Brasil, através de assembleias massivas com milhares de estudantes, e o texto teve que aguardar o agir dos fatos.

O clima de mobilização tomou a universidade e a cidade. Agigantou-se a esperança de construir a greve nacional da educação para recuperar o orçamento bloqueado (de 30%), assim como o que já foi anunciado de cortes para o próximo ano (de 40%), e fazer o governo recuar em suas pretensões privatistas. A destruição acelerada, tal como prometida em campanha, da Amazônia se soma a essas lutas, assim como aqueles contra a violência policial nas periferias e a criminalização de movimentos sociais históricos, que vêm sofrendo ataques há muito mais tempo.

Iniciativas como o “UFSC na Praça” foram fortalecidas e massificadas, o Comitê de Mobilização Externa da UFSC também foi criado e posto em funcionamento: as praças, ruas, escolas, centros comunitários de Florianópolis estão vendo cada vez mais manifestações, bancas, atividades educacionais e culturais, exposições e diálogo da comunidade universitária com a sociedade em geral.

A greve, decerto, enfrenta problemas internos, principalmente pela reação conservadora de professores que, aparentemente, sentem medo de retaliações ou por um comodismo egoísta de suas posições, que terão de ser deixadas de lado se quiserem defender seus próprios interesses. Na prática, o movimento começa a angariar vitórias institucionais e reais, como o seu reconhecimento legítimo por parte do Conselho Universitário, assim como o apoio em outras universidades, como a Universidade Federal de Santa Maria, que também se encontra em estado de greve, com indicativos em vários cursos em outras universidades.

Infelizmente, a União Nacional dos Estudantes não aproveitou a oportunidade para lançar uma ofensiva nacional em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade. A mentalidade política atual tem esquecido ou desistido do significado original de uma greve (por tempo indeterminado). Nos últimos anos os chamados são de paralisações, seja de 24 ou 48 horas, os quais são erroneamente chamados de greve (geral). É mais do que necessário que, neste momento, convertamos em greve o chamado nacional de paralisação dos dias 2 e 3 do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES), da Federação de Sindicatos dos Trabalhadores em Universidades Brasileiras (Fasubra), do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação (Sinafese).

É através da greve que é possível demonstrar o tamanho do problema e também sermos capazes de ter tempo e recursos para organizar as estruturas de comunicação e mobilização necessárias para o momento. São os estudantes que iniciaram tal processo, como tantas vezes na história, mas é necessário que se alastre e aprimore de forma que trabalhadores e cidadãos em geral também possam contribuir com a mobilização, com a ocupação dos espaços públicos e o diálogo amplo – a defesa da educação e um projeto de nação inclusivo e soberano.

Espera-se, e age-se, para que este seja um dos primeiros de muitos textos que surgirão sobre o assunto. Que mais Comitês de Mobilização e iniciativas de diálogo e defesa política se alastrem pelo Brasil afora. Cada um com suas respectivas bases de apoio, seja em universidades, bairros e movimentos sociais. Que as melhores práticas sejam divulgadas e reproduzidas, aprimoradas e intensificadas cada vez mais – para juntos construirmos uma nova etapa da resistência e política nacional. Parafraseando a carta aberta que foi enviada pelo nosso Centro Acadêmico a dezenas de outros centros acadêmicos de todas as regiões do Brasil:

Não espere sua universidade fechar, lute por ela!

Só poderemos resistir, avançar e vencer juntos!

*Leonardo Regis é estudante de Economia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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