Diretores de creches da rede conveniada coagem por votos em Bruno Covas: “Votar por emprego ou desemprego”

Exclusivo: Fórum obteve áudios em que diretora de creche coage funcionários. Diretora Regional de Educação de São Mateus marca live para falar de plano de Covas com mantenedoras e diz que secretário de Educação "está sabendo dessa repercussão toda"

Diante do crescimento nas pesquisas do candidato do PSOL, Guilherme Boulos, no segundo turno das eleições para a Prefeitura de São Paulo, diretores de creches ligadas à rede conveniada – que são contratadas com dispensa de chamamento público – estão coagindo funcionários e até pais de alunos a votarem em Bruno Covas.

Em um áudio que circula em um grupo de funcionários de uma das creches, a que a Fórum teve acesso, uma das dirigentes – que não é identificada – pede descaradamente para as “meninas” votarem em Covas, sob ameaça de ficarem desempregadas.

“Oi, meninas, tudo bem? Não estou fazendo política partidária para A ou B, mas estou fazendo um alerta porque nós somos uma categoria que trabalha para uma rede conveniada. Então, fazer escolhas para quem nos provém emprego é uma forma de escolher estar empregada em detrimento de escolher uma pessoa que não valoriza o convênio e a gente ficar desempregada. Acho que a decisão agora é a gente votar por emprego ou desemprego”, diz o áudio.

A ação é coordenada junto às diretorias regionais de educação, que estão convocando mantenedores das Organizações da Sociedade Civil – as chamadas Oscips -, diretores e funcionários das creches para reuniões para falar sobre “o plano de governo do Covas e do Boulos”. No entanto, gravações obtidas pela Fórum mostram que o foco se dará apenas nas ações propostas pelo atual prefeito e candidato tucano à reeleição.

A diretora regional de Educação na subprefeitura de São Mateus, Mirtes Innocencio da Silva, convocou uma reunião pelo Google Meet nesta segunda-feira (23), às 19h. Embora diga que o tema será o plano de governo dos dois candidatos, em áudio, Mirtes confessa a motivação de convocar o encontro virtual.

“Ninguém vai falar aquilo que não é. Aliás, eu não preciso falar do plano do oponente, o próprio plano já se diz por conta própria. Ele tem um plano registrado na Justiça e nesse plano consta o que ele pretende e o que ele não pretende fazer. Como o Covas também tem e é esse plano que a gente pretende conversar, tá?”, diz a diretora regional de Educação de São Mateus, na zona leste da capital.

Mirtes ainda confirma que teve acesso a dados pessoais dos professores para fazer o “convite” e fala de alertas sobre as possíveis irregularidades de uso da máquina pública na campanha eleitoral. Ela afirma, inclusive, que já teria conversado com o secretário municipal de Educação, Bruno Caetano, que estaria ciente e teria dado consentimento para realização da campanha para Covas.

“Eu quero agradecer todas as mensagens que tenho recebido no sentido de alerta, cuidado, com a repercussão que essa possível reunião com mantenedores e creches. […] Eu já consultei o jurídico, a assessoria da secretaria, consultamos também o cartório eleitoral, não há irregularidade nenhuma. Nós não estamos utilizando a máquina para nada. Nós utilizamos e-mail pessoal, à noite fora do horário de trabalho. A reunião, se vai acontecer ou não, também acontecerá às 7 horas da noite, fora do horário do trabalho. Ninguém está coagido a participar, foi um convite e não uma convocação. O secretário também já está sabendo dessa repercussão toda e é, assim, mais ou menos aquilo que a gente esperava para esse período”, afirma Mirtes, que diz que “semana que vem está voltando de férias, com tudo, para passar a régua em 2020 e começar 2021”.

Pais de alunos
A ação se estende aos pais dos alunos beneficiados pelas creches conveniadas. A Fórum teve acesso a um comunicado que está sendo enviado pela direção das creches aos responsáveis pedindo abertamente voto em Covas.

“Estamos acompanhando na mídia a repercussão das eleições e uma possível reviravolta no segundo turno e por esse motivo, viemos aqui pedir encarecidamente que pensem antes de votar, caso o candidato de vocês não seja o atual Prefeito Bruno Covas. O outro candidato não tem propostas muito favoráveis à nós da Rede Parceira e chegou a dizer inclusive que tem a intenção de reverter de forma gradativa a privatização e como consequência disso, teremos o fim das creches conveniadas, não havendo vagas para os filhos de vocês e também um elevado índice de desemprego”, diz o comunicado enviado pela CEI Madagascar e Associação Sonia Maria, que foi contratada em fevereiro de 2020 ao custo de R$ 57.713,13 para atender 52 crianças, sendo 29 de berçário, na região administrada pela subprefeitura da Penha, também na zona leste.

Aluguéis
Reportagem de Artur Rodrigues no último dia 10 de outubro na Folha de S.Paulo revelou que o vice de Bruno Covas, Ricardo Nunes (MDB), comandaria um grupo que lucrou R$ 1,4 milhão somente no ano passado com o aluguel de pelo menos sete imóveis locados por creches conveniadas. O modelo é investigado há anos por supostas irregularidades.

Ao menos três dos envolvidos nos esquemas foram indicados por Nunes para ocupar cargos públicos: Valderci Malagostini Machado, subprefeito da Capela do Socorro; Ronaldo do Prado Farias, diretor da SPObras; e Marcelo Messias, que atuou como chefe de gabinete da sub da Capela do Socorro e é candidato a vereador apoiado por Nunes.

O esquema funcionaria nas duas pontas, segundo a reportagem: com servidores ligados a Nunes contratando os serviços pela prefeitura que são oferecidos por aliados do vice de Covas junto às creches.

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Plinio Teodoro

Jornalista, editor de Política da Fórum, especialista em comunicação e relações humanas.