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02 de Maio de 2019, 22h12

Em defesa da universidade pública, por Daniel Trevisan Samways

A universidade resistirá e mesmo que a duras penas produzirá conhecimento. Mas, principalmente, fortalecerá o debate e defenderá a pluralidade de ideias. Tudo que regimes autoritários não suportam

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Por Daniel Trevisan Samways*

Ao longo do século XX, o mundo experimentou, tristemente, a ascensão de diferentes regimes autoritários e totalitários. Todos eles, sem exceção, difundiram o terror e a violência, mas também se basearam em uma política do medo e na criação de inimigos. Na tentativa de implementar uma sociedade pura e homogênea, tais regimes ditatoriais perseguiram com ferocidade todos aqueles que poderiam representar uma ameaça a esses ideais, seja através de longas prisões, mas também da tortura e do aniquilamento.

A política, em seu sentido mais estrito, é negada nesses contextos. Quem pensa diferente já não é visto como um adversário, alguém que deve ser enfrentado dentro dos espaços institucionais e democráticos, como um debate eleitoral. O adversário é visto como um inimigo, passível de toda a humilhação e seu extermínio ganha ares de legitimidade. Afinal, o inimigo é tratado como aquele que coloca as instituições, as famílias, a ordem estabelecida e os valores em risco. Ele é uma ameaça.

Ditadores enxergaram – e continuam enxergando – essas potenciais ameaças em muitos setores da sociedade, como movimentos de trabalhadores e de minorias, imprensa e universidade.

As universidades sempre foram alvo de tiranos por uma simples razão: são o espaço do debate de ideias por excelência. Por certo, a troca de conhecimento e a crítica não acontecem apenas na universidade, mas é nela que ocorrem com toda sua potência. Isso não significa que governos autoritários queiram o fim da universidade. Desejam, ao contrário, dominá-la, controlar a sua produção e obrigá-la a difundir um conhecimento que legitime o regime, que construa uma nova história que justifique a tomada do poder. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, escreveu George Orwell em 1949.

A ditadura brasileira (1964-1985) patrocinou um enorme ataque às universidades, demitindo servidores, prendendo estudantes e atuando de forma clandestina no espaço acadêmico. Era comum que agentes dos diferentes serviços de informações e repressão atuassem como espiões em salas de aula e eventos, relatando tudo que se passava nesses espaços. Também contavam com a simpatia de outros docentes e alunos que delatavam colegas, contribuindo para a ação repressiva. A documentação da ditadura traz não apenas informações de agentes oficiais, mas uma série de relatos obtidos com informantes. Muitos almejavam subir na carreira e receber recompensas do governo. As universidades contavam com um setor específico para vigiar servidores e alunos, a Assessoria de Segurança e Informações (ASI), vinculada diretamente à Divisão de Segurança e Informações (DSI) do Ministério da Educação. Talvez, em breve, o novo governo queira recriá-los.

Governos autoritários temem o conhecimento e a liberdade de expressão muito mais do que exércitos. A inteligência é capaz de retirar as vendas que cegam parte da sociedade, levando a crítica e o questionamento aos indivíduos. E o grande desejo de ditadores é que seus súditos não questionem, não critiquem, acreditando que todo discurso oficial é uma simples reprodução do natural, de algo que existe desde sempre e que respeita os valores tidos como tradicionais. Tomam aquilo que está estabelecido como a ordem natural das coisas e não aceitam nada que possa colocar em xeque suas posições.

É na universidade que esse questionamento é feito. Vários grupos de pesquisa, departamentos, cursos de graduação e programas de pós-graduação questionam o que supostamente seria o natural. É seu dever, sua função social e acadêmica. Não faço referência apenas aos cursos de ciências humanas, tão perseguidos pelo atual governo, mas a todas as áreas do conhecimento que produzem significativas transformações para a humanidade, resultado do embate com aquilo que um dia foi o padrão. É dessa forma que a ciência é construída, questionando o antigo e produzindo o novo.

Como sempre, a universidade resistirá e mesmo que a duras penas produzirá conhecimento. Mas, principalmente, fortalecerá o debate e defenderá a pluralidade de ideias. Tudo que regimes autoritários não suportam.

*Daniel Trevisan Samways é doutor em História e professor no Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM)

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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