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04 de outubro de 2018, 09h38

Em ‘Segundo Sol”, novela da Globo, torturador é bandido. No jornalismo, é apenas o herói de um dos candidatos

Em cena da novela, personagem interpretado por Francisco Cuoco, uma das vítimas de tortura, cospe no caixão de seu algoz. Em seu jornalismo, emissora releva o assunto

Narcival Rubens, o Galdino, de Segundo Sol. Foto: Divulgação

No capítulo da novela ‘Segundo Sol’, de João Emanuel Carneiro, que foi ao ar na Rede Globo, nesta quarta-feira (3), aconteceu o enterro de Galdino, vivido pelo ator Narcival Rubens, o terrível vilão da trama, que foi torturador do regime militar.

Em cena comovente, o personagem Nestor, interpretado por Francisco Cuoco, ex-militante político e uma das vítimas de tortura, cospe no caixão de seu algoz e se afasta lentamente, após afirmar que sobreviveu a ele.

A cena completa pode ser vista neste link.

No seu jornalismo, ou seja, na vida real, no entanto, o comportamento da emissora, que já se desculpou por apoiar a ditadura, passa batido pelo assunto. O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) sempre afirmou defender a tortura, conforme pode ser visto nos vídeos abaixo:

Mais do que isso, Bolsonaro dedicou o seu voto a favor de Impeachment de Dilma ao coronel Ustra: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, como pode ser visto no vídeo abaixo:

Quem é Ustra, o herói de Bolsonaro

O Carlos Brilhante Ustra (1932-2015), conforme informações de matéria de Tiago Cordeiro, na Revista Super Interessante, de setembro de 2018, é o único brasileiro declarado pela Justiça torturador na ditadura. A prática da tortura começou com a criação da Operação Bandeirantes (Oban), em 1969. A Oban torturava dissidentes para obter informações sobre os colegas militantes. A um dos presos, frei Tito, Ustra disse, em 1970: “Você vai conhecer a sucursal do inferno”.

Depois da Oban, o governo criou o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi). Com sede nas principais capitais, ele tinha celas de detenção e salas de interrogatório – e de tortura. Ustra comandou o Doi-Codi de São Paulo entre 1970 e 1974 e era chamado de “doutor Tibiriçá” (não se sabe por quê).

O trabalho sujo, como espancamentos, choques e afogamentos, cabia aos gorilas (policiais e militares que demonstravam prazer em agredir os prisioneiros). Envolvido no dia a dia da operação, Ustra cumpria um papel de chefia: instruía os agentes de campo e os torturadores para focarem na caça aos opositores do regime militar.

Ustra não acompanhava todas as torturas. Aparecia do nada em casos difíceis para fazer os “passeios” que lhe deram fama: abraçava o detento e o levava a uma sala, onde havia o corpo de um militante. “Se você não falar, vai acabar assim”, dizia. Ele chegou a espancar uma grávida e, certa vez, levou filhos para ver uma mãe torturada.

Um problema era o que fazer com os corpos. No DOI-Codi paulistano, foram 47 mortos oficialmente, mas a Comissão da Verdade, que investigou os abusos da ditadura, calcula que o escritório matou 502 pessoas. Nas décadas de 1990 e 2000, Ustra foi processado várias vezes por ocultar cadáveres, especialmente em valas comuns do cemitério de Perus, na capital paulista.


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