Rachadinhas: Empresas de ex-esposa de Bolsonaro devem R$ 325,5 mil à União

Documentos mostram movimentações "atípicas" nas contas de Ana Cristina Valle, como saques que ultrapassam R$ 1 milhão. Ela seria responsável pela instalação de esquema nos gabinetes de Carlos e Flávio Bolsonaro

Entre multas trabalhistas e débitos previdenciários ou de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), as empresas de Ana Cristina Valle, ex-esposa do presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido), devem R$ 325,5 mil a União. Os tributos não pagos são referentes a três CNPJs ligados ao nome dela.

A mãe de Renan Bolsonaro seria responsável pela instalação de esquema de rachadinhas nos gabinetes de Carlos e Flávio Bolsonaro. As dívidas de Ana Cristina são citadas em relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Os documentos mostram movimentações “atípicas” em suas contas, como saques fragmentados que ultrapassaram R$ 1 milhão pela Valle Ana Consultoria e Serviços de Seguros.

No levantamento, feito pelo Estadão, essa é a empresa que concentra a maior parte das dívidas registradas. São R$ 241,6 mil no total. Na Receita Federal, a Valle Ana consta como inapta desde outubro de 2018.

De forma parecida com a que acontecia no suposto esquema de rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro, os saques de Ana Cristina se deram de modo fragmentado. Entre 2008, ano que ela saiu do gabinete, e 2014, foram 1.185 retiradas no CPNJ dela, uma média de pouco menos de R$ 1 mil por vez. Segundo o Coaf, os saques em espécie eram a principal forma de saída de recursos.

O MP mostra que Ana tem 90% da sociedade da empresa, e os outros 10% pertencem a uma mulher que também empregou familiares no gabinete de Carlos, Adriana Teixeira da Silva Machado. Sua mãe, Luci Teixeira da Silva, foi nomeada no gabinete durante dois anos, e seu irmão, Luiz Claudio Teixeira da Silva, trabalhou para Flávio.

“Tais vínculos, associados à expressiva movimentação de dinheiro em espécie na conta da Valle Ana Consultoria, sugerem a possibilidade de que Ana Cristina Siqueira Valle possa ter indicado parentes de sua sócia para atuarem como ‘funcionários fantasmas’, de modo a viabilizar o desvio dos recursos públicos destinados à sua remuneração (…)”, afirma o MP.

Por isso, as empresas entraram numa espécie de “subnúcleo” da investigação, vinculadas ao núcleo da família Valle.

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Em outro ponto, a Promotoria destaca que as movimentações financeiras nas empresas podem “reforçar a hipótese de que [os CNPJs] possam ter sido utilizadas para ocultação do desvio de recursos públicos oriundos do esquema de ‘rachadinha’”. Outras três empresas são citadas, mas de modo mais genérico. 

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Depósitos

Os relatórios do Coaf também apontam depósitos vultosos feitos por Ana Cristina na própria conta. Em março de 2011, ela depositou R$ 191,1 mil; quatro meses depois, mais R$ 341,1 mil.

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O MP também investiga a atuação de Ana Cristina no mercado imobiliário enquanto esteve casada com Bolsonaro, com uso de dinheiro vivo e o pagamento de valores supostamente subfaturados.

As ações são citadas pelo MP no pedido de quebra de sigilo, junto com novos indícios descobertos por meio dos relatórios do Coaf.

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Carolina Fortes

Repórter colaborativa no site Emerge Mag e antiga editora-assistente no site da Jovem Pan. Ex-repórter no site Elástica. Formada em jornalismo e faz a segunda graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP). Acredita no jornalismo como forma de impacto social e defende maior inclusão e representatividade.

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