segunda-feira, 21 set 2020
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Ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas deixa PCdoB e vai para o PT

O ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, Kerison Lopes, divulgou uma carta para falar sobre sua iniciativa de trocar o PCdoB pelo PT. Ele pretende disputar uma vaga na Câmara Municipal nas próximas eleições.

Veja a íntegra da “Carta aberta aos camaradas”

Não encontrei um novo partido, encontrei um novo Kerison

Demorei muito tempo para escrever este texto. Tempo que não se mede apenas nas voltas que o mundo dá, mas também naquilo que dá voltas dentro da gente. Tentei e desisti várias vezes, nos últimos meses, tirar o aperto das palavras da garganta e deixar que elas falassem por mim aqui na tela do computador. Não sabia como, não sabia quando, não sabia qual a forma de desaguar a nuvem do peito e vencer esse medo que, como diz Drummond, esteriliza os abraços quando o amor se refugiou abaixo dos subterrâneos.

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E tenho vivido de abraços estéreis, de encontros desencontrados, de sorrisos hesitantes com algumas das pessoas que mais amo e venero em toda a vida, diante da minha incapacidade, até aqui, de explicar a minha saída do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. Saída justamente no ano que completaria 30 anos de filiação, já que assinei a ficha aos 13 anos lá no meu Bom Sucesso. Agora, com 43 anos, deixo de fazer parte das suas fileiras. Mas o PCdoB é tão grande no meu caminho que às vezes não consigo nem mesmo repetir essas palavras diante do espelho.

Demorei muito tempo para começar a escrever este texto. Mas ele agora é do tamanho da urgência da represa que rompe o vazio. Nunca achei possível desassociar a palavra Kerison do nome desse partido que ajudei a construir com um vertedouro das minhas próprias lágrimas, sonhos, sangue, vitórias, derrotas, aprendizados, esperanças, desesperanças na enorme travessia que é a luta pelo socialismo no Brasil e a utopia de um país livre dos seus quinhões de maldades e desigualdades.

Ao tornar-me comunista, morando numa pequena cidade do interior de Minas, com a rebeldia a rasgar a pele, em um país que renascia após o trauma da ditadura, conheci também o meu próprio renascimento. As lembranças que tenho, pregressas à minha filiação a essa bela história, encontram estranhamento e imprecisão. Será mesmo possível que já houve, em algum ponto da vida, um Kerison que não tenha sido comunista?

A força desses laços, da certeza, das convicções, da militância junto ao PCdoB por quase todos os meus dias me fez ser quem eu sou. Mas, por outro lado, inibiu também a descoberta de dissonâncias, desencaixes, diversidades de pensamento e ação que se tornaram mais evidentes nos últimos anos, em meio a esse turbulento e desafiador período de resistência do nosso campo das esquerdas frente ao monstro da ameaça fascista e da supressão violenta das classes trabalhadoras e oprimidas.

Ter descoberto o meu distanciamento do partido, durante essa conjuntura que requereu – e requer – a unidade do nosso campo popular, fez com que eu protelasse a evolução da minha decisão pessoal, o que hoje, em retrospecto, julgo correto. Porém, sempre soube que as sementes dessas reflexões acerca do meu lugar no PCdoB teriam ramos, tronco, galhos e frutos. Perdi o medo de aceitar essas mudanças, e de chamá-las pelo nome que têm: mudanças.

Não acho que fui alguém a encontrar um novo partido. Encontrei, na verdade, um novo Kerison. Nos últimos anos, busquei o novo dentro de mim. Ou o desenhei a partir das minhas novas convicções. Descobri que nossa geração tem a magnífica oportunidade de se redesenhar depois dos 40 anos.

Assim, descobri minha espiritualidade e me realizo na plenitude dos terreiros da Umbanda e no milagroso chá de Santo Daime, que me purifica a cada dose. Essas novas experiências que abrem as portas da percepção e me levam a buscar a purificação permanente. Meus costumes se alteraram em vários aspectos, como o desafio de ser vegetariano, de não usar mais carro para poder caminhar pela cidade. Um novo mundo vai se abrindo.

E também descobri um Kerison que, independentemente do partido, desde os seus primeiros tempos de formação política, leva como inspiração e liderança a pessoa de Luiz Inácio Lula da Silva. Ao colaborar, nos últimos anos, com a magnitude do movimento Lula Livre, percebi e assumi que ele sempre esteve lá, desde os meus primeiros dias de militância.

No Lula Livre fui jogado numa linha do tempo e remetido à uma noite de 1989. Eu estava sentado num sofá fazendo o dever de casa e assistindo televisão. Começou o programa eleitoral pela disputa da presidência e um plim plim anunciou a entrada no ar da Rede Povo, programa da campanha do Lula. Quando dei por mim, estava desenhando o símbolo da campanha no meu caderno. Não foi um fato isolado. Nossa turma da rua já estava avermelhada. Eu tinha 13 anos e me juntava à uma galera um pouco mais velha, em que participava o atual deputado Reginaldo Lopes, com quem me junto novamente no PT, e seu irmão, o filósofo Rogério Lopes, que moravam em frente à minha casa.

Lula e o PT na verdade nunca saíram de mim. Tive a chance de cerrar as fileiras pela libertação de Lula, de 2018 até agora, com companheiras e companheiros que hoje são pedaço de mim, como o Coletivo Alvorada, o Coletivo Linhas do Horizonte, o Ponto de Lutas, o Resistência, a Casa do Jornalista, meus blocos de Carnaval, o MST, os lutadores e lutadoras do movimento sindical, do movimento estudantil, do movimento cultural, os movimentos de artistas, comunicadores, ativistas das ruas e das redes de Minas e do Brasil. Estar no partido criado por Lula é pra mim, hoje, estar também onde sempre estive.

Junto-me ao Partido dos Trabalhadores, cuja presença sempre esteve por perto, cuja centralidade e importância para a luta das esquerdas brasileiras é inquestionável e incontornável no curso das transformações sociais do Brasil.

Continuo o Kerison que acredita, da mesma forma, no coletivo, na organização popular, mas que também se volta às lutas individuais das minorias que são o alvo do ataque dos fascistas e dos donos do poder de sempre. Que se filia à militância central da comunicação, da cultura, das liberdades de afirmação das identidades diante da opressão estrutural. Que busca construir os caminhos da igualdade pela diversidade, garantir o protagonismo daquelas pessoas que nunca o tiveram, de organizar a nossa resistência em muitas frentes. Que se encontra na luta pela democracia direta, pela participação popular, pela defesa dos mais pobres, das mulheres, da população negra, indígena, da população LGBT, de quem está na linha de tiro diante dos retrocessos que estão na ordem do dia.

Preciso dizer que estou feliz onde estou e confiante no futuro, mesmo no difícil tempo em que vivemos. Porque ao dizer isso sinto que abraço forte cada amigo e amiga, cada irmão e irmã do PCdoB que esperava por essas palavras por aqui. Preciso dizer que tenho o maior carinho do mundo, o maior amor do mundo, pelo PCdoB de João Amazonas, Luiz Carlos Prestes, Pagu, Osvaldão, Sérgio Miranda, porque essa é a forma de aceitar, com tranquilidade, que compreendi as minhas divergências com ele e não estou mais em seu quadro de filiados, e sim de aliados de luta.

Preciso externar o meu agradecimento pelo que aprendi na mais antiga escola da esquerda brasileira, no partido que completará 100 anos em 2022, para que esteja certo que estarei próximo dele em todas as batalhas conjuntas que teremos pela frente na resistência a esse pesadelo e na tessitura dos nossos novos sonhos.

A união do nosso campo nunca foi tão urgente e a força do que nos une é a força torrencial de um país que voltará a caminhar em direção ao seu povo. Como ouvi outro dia, se não somos iguais, o que nos mata é sempre o mesmo. Estejamos juntos e juntas, celebrando as diferenças e as convergências do nosso belo percurso. Pois assim viveremos. Pois assim venceremos.

Com o amor e a verdade que me cabem, obrigado por tudo, camaradas.

Kerison Lopes

Redação
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