quarta-feira, 23 set 2020
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Exclusivo: Vítimas do vazamento de óleo sentem vergonha do descaso das autoridades ambientais

Por Wilfred Gadêlha*

“Não tá muito bom, não”, responde, com voz baixinha, o catador de caranguejo Francisco dos Santos, 46 anos. Às margens da SE-100, também conhecida como Rodovia dos Náufragos, ele espera, junto à esposa Nataly, três filhas e uma sobrinha, uma condução para Pirambu, praia que dá nome ao município de pouco mais de 8.500 habitantes, no litoral norte de Sergipe.

Francisco tem vergonha. Vergonha de passar pelo que está passando: com o derramamento de óleo na costa do Nordeste, ele e mais milhares de pessoas que tiram seu sustento do mar e do mangue estão sem saber o que lhes reserva o futuro.

A família do catador de caranguejo Francisco dos Santos é uma das milhares de vítimas do descaso do governo

No rastro do crime ambiental nas praias do Nordeste: Ajude a Revista Fórum a mergulhar na realidade dessa grande tragédia

“O óleo atacou o mangue. Atingiu muita gente que vive da pescaria. Quando a maré coloca, chega lá”, diz ele, que mora no pequeno povoado de São José, na vizinha Japaratuba. Francisco tem fé de que o governo faça alguma coisa por eles. “Eu vi na reportagem que ele vai fazer uma melhora nisso. Eu espero isso”.

Ao seu lado, Nataly explica que cada dúzia de guaiamum, crustáceo muito apreciado nas praias nordestinas e que está em extinção, sai por 40 reais. “Quando a feira é boa, a gente tira uns 150 reais por semana”, completa a catadora de 36 anos. “E isso dá para sustentar a família”?, eu pergunto. “Dá, não. Ainda mais que faz seis meses que a gente não recebe o Bolsa Família. Lá em casa são oito bocas pra comer”, se queixa ela, alegando que duas parcelas atrasadas do programa deverão ser pagas no próximo dia 5.

Pergunto a Francisco se os caranguejos-uçá que estão em um saco, ao lado dos guaiamuns em uma bacia, estão contaminados. “Mostra a ele pra eu não melar minha mão”, diz Nataly. O catador se apressa em dizer que os crustáceos estão bons. “Não, é a lama do mangue mesmo”.

Sem funcionário

Ali perto fica a Reserva Biológica de Santa Isabel, santuário protegido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por conta da afluência das tartarugas-de-pente, outra espécie ameaçada de extinção. Integrante da rede de unidades de conservação que deveriam ser protegidas pelo Ministério do Meio Ambiente, a Rebio de Santa Isabel foi uma das 14 afetadas pela onda de óleo. Em frente à sede da unidade, sacos de plástico preto cobrem resíduos retirados do mar. Entretanto, em meio à crise, em plena sexta-feira, não havia sequer um funcionário no local.

Em frente à sede Rebio de Santa Isabel, sacos de plástico cobrem resíduos retirados do mar, mas não havia sequer um funcionário no local

Agenda

Neste sábado (26), vamos chegar ao quarto estado desde que começamos a percorrer as praias do Nordeste na quarta-feira (23). Depois de Pernambuco, Alagoas e Sergipe, é a vez da Bahia e dos balneários de Subaúma e Porto Sauípe, em Entre Rios, e a conhecida Praia do Forte, no município de Mata de São João, onde fica localizada a sede nacional do Projeto Tamar – o órgão do Ministério do Meio Ambiente que cuida das tartarugas marinhas.

*Wilfred Gadêlha é jornalista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Atuou como repórter e editor de periódicos como Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, cobriu assuntos como o terremoto do Haiti, a visita do papa Bento XVI ao Brasil, cúpulas Brasil- União Europeia e esteve nos Estados Unidos a convite do Departamento de Estado, além de publicar textos em IstoÉ, O Estado de S. Paulo e O Globo. É autor do livro Pesado – Origem e Consolidação do Metal em Pernambuco, que já está em sua segunda edição. Escreveu o argumento e o roteiro e conduziu as entrevistas do documentário Pesado – Que Som É Esse Que Vem de Pernambuco?

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