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02 de janeiro de 2019, 10h24

Fátima Bezerra diz que herda “legado dramático” e que Rio Grande do Norte não tem mais “donos”

"A população disse que esse Estado não tem mais donos e que mesmo na adversidade nós devemos ter esperança. A esperança que Paulo Freire nos ensinou, do verbo esperançar. Não a esperança que espera, mas a que se levanta, que vai atrás, que constrói, que não desiste", disse a pedagoga.

Por Rafael Duarte, da Agência Saiba Mais

A governadora Fátima Bezerra (PT) evitou dar nome aos bois, mas destacou no primeiro discurso após assumir oficialmente o Governo do Rio Grande do Norte que o Estado não tem mais “donos”. Esse foi um dos recados lançados nos dois primeiros pronunciamentos de Fátima nesta terça-feira (1º) já como chefe do Executivo.

Natural de Nova Palmeira e pedagoga formada pela UFRN, Maria de Fátima Bezerra foi oficialmente empossada pelo poder Legislativo como governadora do Rio Grande do Norte para cumprir um mandato de 1º de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022.

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E já para o primeiro dia útil de trabalho do ano, Fátima confirmou uma reunião com representantes dos trabalhadores, do judiciário, do legislativo e do setor empresarial, na qual vai anunciar as primeiras medidas do pacote de recuperação fiscal do Estado.

As medidas estão na lista de mais de 40 sugestões elaboradas pela equipe de transição do governo entregues à governadora desde o final de dezembro do ano passado.

Nas entrelinhas da posse, ao dizer que o Rio Grande do Norte não tinha donos, Fátima se referia às famílias tradicionais que governaram o Estado nas últimas décadas e que estiveram no palanque adversário, na campanha eleitoral.

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“Minha eleição como governadora significa a gente interromper décadas e décadas de oligarquias no comando do Rio Grande do Norte”.

O tom mais político ficou para o segundo discurso, improvisado e direcionado ao público que prestigiou a cerimônia de posse em frente a governadoria.

Prometendo um governo que olhará para frente e não pelo retrovisor, Fátima Bezerra também deixou seu recado para o antecessor Robinson Faria, que chamou a atenção por não aparecer em público. O ato de transmissão do cargo foi realizado no gabinete do governador, à portas fechadas, e registrada por uma fotógrafa do Governo.

Em que pese a gravidade da situação fiscal do Estado, a governadora disse que não vai delegar responsabilidade nem esperar pela ajuda de ninguém.

Olhando para o povo que assistia ao pronunciamento, Fátima também destacou que não estava sozinha, mas com a maioria dos potiguares, uma crítica velada ao comportamento de Robinson, que passou a responsabilizar, desde a campanha eleitoral, o fato de ter ficado isolado e sem apoio da bancada federal quando o Estado precisou de socorro financeiro.

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“Nem eu nem o companheiro Antenor Roberto vamos ficar olhando no retrovisor. Eu quero botar os pés no chão e olhar para frente, mas eu tenho obrigação de alertar ao povo do Rio Grande do Norte para a situação que estamos recebendo esse Estado. O povo precisa ter claro o momento que o Estado atravessa, com um desequilíbrio fiscal violento. Tirar o Rio Grande do Norte da situação em que ele se encontra não é uma tarefa apenas do Executivo. Cabe a mim e eu não vou transferir responsabilidade. Cabe a nós, a mim e ao Antenor, liderar esse processo. Mas tenho, tive e terei ao meu lado a Assembleia Legislativa. Não tenho dúvidas de que também vou contar com a bancada federal, independente de divergências ideológicas. Eu sei que não estou sozinha, eu tenho vocês, eu tenho o povo do Rio Grande do Norte ao meu lado”.

Fátima discursou em dois momentos: para convidados e autoridades na Escola de Governo, num tom administrativo, e para o público
Falando para autoridades, convidados e jornalistas, Fátima optou por um tom mais administrativo e um discurso estrategicamente elaborado, destacando as potencialidades do Estado em contraponto ao rombo nas contas públicas deixadas pelo ex-governador Robinson Faria.

Ela afirmou que está herdando um “legado dramático” do ponto de vista financeiro com dívidas de aproximadamente R$ 2,6 bilhões e não deu prazo para resolver o problema, embora tenha garantido dedicação integral para mudar o cenário de caos financeiro do Rio Grande do Norte.

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“Sabemos que o legado que estamos recebendo é dramático. Basta falarmos da crise fiscal. Estamos herdando uma dívida da ordem de R$ 2,6 bilhões; três folhas de pagamento do funcionalismo público atrasadas; dívidas com fornecedores que fornecem para áreas essenciais do governo. Uma das faces mais cruéis dessa herança se expressa no completo desrespeito com os servidores públicos”.

Falando especificamente sobre os atrasos na folha do funcionalismo, Fátima disse que a sociedade não pode naturalizar essa situação e deixou no ar que é preciso um “esforço fiscal”.

“É grave a realidade que vivem os servidores, que não só não recebem seus salários em dia, como não dispõem sequer de um calendário de pagamento. Essa situação, que se tornou rotineira, não pode ser por nós naturalizada. Nosso foco, antes de mais nada, será organizar as contas para colocar em dia o pagamento dos servidores. Isso exigirá de nós muito esforço fiscal, tanto para conter o crescimento das despesas obrigatórias como para ampliar a arrecadação. Nos empenharemos nisso”.

Única mulher a governar um estado brasileiro pelos próximos quatro anos, Fátima Bezerra citou expoentes potiguares femininas e dedicou a eleição a todas as mulheres do país.

“Sou a única mulher a tomar posse hoje como governadora. A única governadora eleita em todo o país. Eleita pelo estado onde as mulheres primeiro conquistaram o direito ao voto; que primeiro elegeu uma mulher ao cargo de deputada estadual; e que teve a primeira prefeita eleita em toda a América Latina. Por isso, trago aqui a memória de Maria do Céu Fernandes, de Alzira Soriano, de Clara Camarão, de Nísia Floresta, de Alta de Souza, de Celina Guimarães e Dona Militana. De todas as mulheres potiguares e brasileiras que me inspiram cotidianamente a seguir a luta. Vocês tomam posse hoje comigo”.

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A governadora também se emocionou em pelo menos duas ocasiões, especialmente quando lembrou da infância difícil no povoado paraibano de Nova Palmeira, onde nasceu. Três das seis irmãs de Fátima estavam na plateia e assistiram a posse da filha mais famosa da parteira Luzia e do tropeiro Severino.

“Não será fácil, já sabíamos. Mas, afinal, fácil nunca foi. Como a maioria do povo potiguar, eu não nasci em berço de ouro, sempre lidei com as dificuldades. Com a fome, a pobreza, a falta d’água, a dificuldade para estudar. Sei o significado da luta e da construção de oportunidades”.

Citando Paulo Freire, a principal inspiração da trajetória de Fátima Bezerra na área de Educação, a governadora terminou o discurso falando que a chegada dela ao Executivo estadual representava, sobretudo, esperança:

“A população disse que esse Estado não tem mais donos e que mesmo na adversidade nós devemos ter esperança. A esperança que Paulo Freire nos ensinou, do verbo esperançar. Não a esperança que espera, mas a que se levanta, que vai atrás, que constrói, que não desiste. Esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo”.

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