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27 de fevereiro de 2019, 22h11

Fenae denuncia manobra para desvalorizar e privatizar a Caixa

“Se todas as propostas de descaraterização da Caixa como banco público e social forem efetivamente implantadas, será o fim de um modelo de crescimento inclusivo em prol da população”, diz Jair Pedro Ferreira, presidente da entidade

Foto: Fenae/Divulgação

A Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae) divulgou, nesta quarta-feira (27), uma nota, na qual critica medida contábil anunciada por Pedro Guimarães, presidente do banco, com o objetivo de desvalorizá-lo e criar uma situação favorável à privatização.

A ideia é criar uma provisão extraordinária de até R$ 7 bilhões para supostas perdas esperadas com calotes no financiamento imobiliário e com a desvalorização de imóveis que foram retomados pelo banco.

Leia a íntegra da nota:

Por proposição do presidente Pedro Guimarães, a Caixa Econômica Federal prepara uma provisão extraordinária de até R$ 7 bilhões para possíveis perdas com calotes no financiamento imobiliário e com a desvalorização de imóveis que foram retomados pelo banco. A manobra contábil, divulgada nesta quarta-feira (27) pela agência de notícias Reuters, mira no desmonte acelerado da instituição com vistas a torná-la fraca e deficitária, para pavimentar o caminho da privatização.

Caso seja efetivada, a medida deve reduzir o lucro anual da Caixa para menos de R$ 10 bilhões. Até setembro do ano passado, a empresa havia registrado um saldo líquido de R$ 11,5 bilhões, com expectativa de que este valor subisse para R$ 16 bilhões ao final do exercício. Antes mesmo da divulgação das demonstrações contábeis referentes a 2018, e ainda sem previsão de quando isso será feito, a ordem de Pedro Guimarães para uma provisão bilionária extra está criando insatisfação dentro do próprio banco e vem sendo interpretada como uma desautorização às normas e práticas históricas adotadas pela Caixa até a virada do ano passado, com aval de auditores independentes, do Banco Central e do Tribunal de Contas da União (TCU). Isso, na prática, se reflete na preparação para a venda ao mercado privado de unidades lucrativas nas áreas de seguro, gestão de ativos, loterias e cartões de crédito.

Causa preocupação ainda o fato de que o provisionamento extra possa significar uma redução drástica do montante que será distribuído aos empregados a título de Participação nos Lucros e Resultados (PLR). A PLR como é paga na Caixa é uma conquista histórica das entidades representativas. Antes, o que existia era a chamada PRX, um plano atrelado ao cumprimento de metas, que deixava a maioria dos empregados sem receber nada.

O propósito é de privatizar setores estratégicos da instituição, de modo a deixar cada vez mais distante a perspectiva de uma empresa pública sintonizada com os desafios sociais do Brasil. Para resistir a essa demolição, a Fenae entende que a alternativa está na defesa e valorização da Caixa 100% pública e no projeto de crescimento sustentável e duradouro do país, capazes de construir um horizonte de oportunidades positivas para a população voltar a sorrir com pleno emprego, rendimento decente para os trabalhadores e serviço público universal e de qualidade. O inverso disso é o que ocorre hoje na condução da Caixa.

“A luta contra a decisão sobre a provisão extra deve ser assumida por todos os empregados. Em defesa do desenvolvimento nacional e do caráter público do banco, a partir do investimento em programas sociais, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae) contesta a proposta de enfraquecimento da Caixa e reafirma seu compromisso de alertar a sociedade para se contrapor a essa sangria do patrimônio público”, declara Jair Pedro Ferreira, presidente da Fenae.

Jair Ferreira lembra que a Caixa é fundamental para o desenvolvimento econômico e social do país, para conceder crédito em segmentos que não interessam ao mercado privado e para operacionalizar políticas públicas. Ele destaca que a instituição, na condição de maior financiador imobiliário do país, com 70% dos contratos, possui uma carteira de crédito habitacional avaliada em R$ 440 bilhões e ostenta patamares de inadimplência menores do que os praticados no mercado financeiro privado. De acordo com dados dos balanços da Caixa, operações imobiliárias classificadas pelo banco como ratings de “D” a “H”, com maior chance de não pagamento pelo tomador, equivaliam em setembro de 2018 a 6,6% da carteira total do setor, numa proporção estável em relação aos anos anteriores.

Para a Federação do Pessoal da Caixa, o banco não pode ser submetido à mesma lógica dos bancos privados. O Brasil não precisa de mais um banco comercial no estilo de um Bradesco ou Itaú, pois a gestão Pedro Guimarães, ao trilhar esse caminho, prejudica empregados cada vez mais sobrecarregados, e destrói a própria sustentabilidade financeira da instituição. “A mobilização contra o desmonte do banco deve ocorrer em todo o país, de modo a combater uma gestão que representa aumento da sobrecarga de trabalho, mais filas e o enfraquecimento cada vez maior da empresa”, denuncia Jair Ferreira.

Se todas as propostas de descaraterização da Caixa como banco 100% público forem efetivamente implantadas, será o fim de um modelo de crescimento inclusivo em prol de toda a população. O presidente da Fenae observa que a resistência a esse desmonte consiste em não se submeter à lógica de fuzilamento sumário do legado social de 158 anos da história do banco, fundado em 12 de janeiro de 1861. “A voz em defesa da Caixa e do seu papel social não carrega apenas palavras, mas também experiências, lutas, mobilizações, avanços, recuos, derrotas e vitórias, cujo saldo são conquistas coletivas traduzidas em reajuste salarial, comida, casa, emprego, valorização profissional, solidariedade, esperança e cidadania”, admite.

A luta é para que a Caixa sempre reflita as aspirações da sociedade, com absoluta transparência em suas ações. Diante disso, a Fenae cobra da atual direção da empresa mais respeito para com seus trabalhadores. Isto está associado à defesa da Caixa 100% pública e à mobilização contra as privatizações das operações e serviços prestados pelo banco. Afinal, defender o papel social da instituição é defender um país mais justo e independente.

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