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24 de outubro de 2019, 10h12

Geóloga garante que só censura explica Petrobras não ter identificado origem do óleo nas praias do Nordeste

O descaso e despreparo do atual governo e ministério do meio ambiente na identificação, prevenção e combate à poluição por óleo nesse caso específico é flagrante e deve ser investigado, diz Rosangela Buzanelli Torres

Poluição de óleo nas praias do Nordeste (Foto: Wilfred Gadelha)

Por Rosangela Buzanelli Torres*

O derramamento de petróleo que polui as praias do Nordeste brasileiro está envolto em um silêncio ensurdecedor e injustificável das instituições que detém capacidade técnica e tecnológica para identificar a origem do vazamento. E esse silêncio só tem uma explicação plausível: censura.

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Universidades, Inpe e Petrobras (através de seu centro de pesquisas – Cenpes) detém recursos tecnológicos e acadêmicos para apontar as prováveis origens do vazamento.

O sensoriamento remoto tem ferramentas para detecção de manchas de petróleo na superfície dos oceanos, sendo o imageamento por radares a tecnologia mais utilizada e apropriada para detectar essas manchas. Ainda que as órbitas dos satélites imageadores não contemplassem originalmente as áreas a serem investigadas, esses imageamentos podem ser redirecionados sob solicitação, podendo ser reprogramado para atender demandas específicas e o tempo para tal não é tão longo quanto o já decorrido desde o primeiro registro de poluição.

Outro recurso associado ao sensoriamento remoto é a “inversão” por modelagem matemática que, considerando o local da mancha, as correntes marítimas, a profundidade da lâmina d´água, temperatura, pressão e demais parâmetros oceanográficos, consegue estimar a origem do vazamento.

Esses recursos tecnológicos são de domínio das diversas instituições aqui citadas, Universidades, Inpe e Petrobras, que até o momento permanecem caladas sobre o problema. A Petrobras, através de seu centro de pesquisas, desenvolveu em parceria com Universidades, o software de modelagem inversa para detecção da origem do vazamento que geraram manchas de óleo, muitas vezes detectadas pelo sensoriamento remoto (imagens de radar). Utiliza há muito essa tecnologia.

O Cenpes tem em seus quadros pesquisadores que são mestres e doutores na área de sensoriamento remoto que trabalham dedicados a esse tema e nessa mesma gerência estão também lotados químicos e geoquímicos, mestres e doutores, dedicados à identificação da “digital” do petróleo. O Cenpes detém um banco de dados da “assinatura” do petróleo de praticamente todo o mundo, a partir do qual é possível identificar a origem de qualquer petróleo, ainda que biodegradado.

A mídia como um todo demorou muito tempo para noticiar e dar destaque ao vazamento que poluía várias praias nordestinas, embora já houvesse o registro da poluição e inclusive iniciado o tratamento da fauna afetada. Porquê a demora em noticiar? Se fosse um vazamento provocado pela Petrobras essa notícia estaria relegada? A poluição generalizada das praias do Nordeste apenas tomou conta dos noticiários depois que não havia mais como escondê-la, tamanha a dimensão que alcançou. E então, quando não se podia mais escondê-la, o presidente da república afirma que “o petróleo é, segundo pesquisa do Cenpes, provavelmente da Venezuela”.

Ao que tudo indica, aproveitou-se o fato de o petróleo ser muito pesado, viscoso para associá-lo ao petróleo venezuelano, uma narrativa aparentemente convincente, fácil e oportuna, porém inconsistente.

Em primeiro lugar, uma pesquisa do Cenpes sobre a digital de um dado petróleo não resulta em “provavelmente”.

Em segundo lugar, o que torna um petróleo pesado, viscoso, é principalmente sua biodegradação por bactérias, quando em contato com a água e oxigênio, o que pode ocorrer ainda soterrado no reservatório ou ao longo de sua migração pelo oceano, muito mais acentuadamente, a partir do vazamento original e ao longo de sua migração até o litoral.

Com relação aos impactos ambientais e as ações para mitigá-los, também demonstra esse desgoverno o descaso para com o ambiente. Os mapas de sensibilidade ambiental ao longo da costa brasileira são há muito conhecidos e cadastrados pelos órgãos competentes. A própria Petrobras elaborou vários desses mapeamentos como parte do licenciamento ambiental para instalação e operação da exploração e produção de petróleo offshore, como exemplos, na Bacia de Campos (desde pelo menos 1997), Bacia de Santos, Espírito Santo, e onde mais operou e/ou opera. Não há justificativas para a demora nas ações de combate à poluição.

O descaso e despreparo do atual governo e ministério do meio ambiente na identificação, prevenção e combate à poluição por óleo nesse caso específico é flagrante e deve ser investigado.

Diante do exposto, ficam os questionamentos:

Porque a demora na divulgação do “acidente” pela mídia?

Porque somente a Petrobras é convocada a combater a poluição por petróleo, se há várias outras petrolíferas operando no Brasil?

Porque estão calados o Cenpes, o Inpe e algumas Universidades sobre a origem do vazamento?

Rosangela Buzanelli Torres é Diretora do Sindicatos dos Petroleiros do Norte Fluminense, Engenheira Geóloga, Geofísica e mestre em Sensoriamento Remoto pelo INPE


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