Guedes se revolta com estratégia “fura teto” do Auxílio Brasil: “De jeito nenhum”

Lançamento do programa seria nesta terça, mas foi adiado pro divergências no governo Bolsonaro

O ministro da Economia, Paulo Guedes, ficou bastante insatisfeito com as estratégias propostas pelo governo Jair Bolsonaro para emplacar o substituto do Bolsa Família, o Auxílio Brasil. O possível novo programa social teria uma vigência incerta e é apontado como estratégia eleitoral de Bolsonaro.

Segundo informações da jornalista Talita Laurino, do Metrópoles, Guedes teria chegado irritado ao Ministério nesta terça-feira (19) após as articulações dos ministros Ciro Nogueira, da Casa Civil, e João Roma, da Cidadania, para estabelecer o valor do auxílio em R$400. Guedes alega que não há recursos para esse aumento e que isso furaria o chamado “teto de gastos”, defendido por ele.

Guedes teria dito a auxiliares que “não aceita de jeito nenhum” que o novo benefício fure esse teto. A insatisfação do ministro pode provocar um rompimento com o governo.

As bases do programa seriam recursos temporários, o que garantiria apenas a vigência para 2022, justamente ano eleitoral.

Lançamento do Auxílio Brasil foi cancelado

Estava marcada para às 17h desta terça-feira (19), no Palácio do Planalto, a cerimônia de lançamento do programa. Faltando apenas 30 minutos para o cerimonial, no entanto, o evento foi cancelado.

O cancelamento do evento foi anunciado pelo Ministério da Cidadania, por meio de nota, sem justificativas. A explicação, no entanto, seria que não há consenso dentro do governo sobre a viabilidade do programa.

Ainda não há previsão sobre o lançamento oficial do “Auxílio Brasil” e nem informações sobre se o valor do benefício será rediscutido.

“O desgoverno Bolsonaro mais uma vez trata de forma eleitoreira o desespero dos brasileiros que estão passando fome. A suspensão do lançamento do Auxílio Brasil, faltando 30m p/ o evento, é a prova de que o presidente não tem proposta concreta p/ socorrer quem mais precisa”, afirmou o deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ), líder da Minoria na Câmara.

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“Em vez de fazer política com a miséria do povo, o desgoverno deveria fortalecer o Bolsa Família, programa que é referência mundial no combate à fome e que hoje está com uma fila de 1,2 milhão de pessoas à espera de receber o benefício. São famílias que não têm o que comer”, completou o parlamentar.

Programa é inviável

Em nota divulgada em agosto, a Frente Parlamentar Mista pela Renda Básica, composta por mais de 200 parlamentares de diferentes partidos e que tem o vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) como seu presidente de honra, expressou preocupação com o “Auxílio Brasil”.

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No texto, a frente apresentou uma série de inconsistências do programa que dão conta da sua inviabilidade, além do risco de acabar com o legado do Bolsa Família.

“É importante ressaltar que um dos grandes méritos do Bolsa Família é a focalização exclusiva no combate à fome e pobreza e promoção ao acesso de serviços públicos, o que garante a execução simplificada, com fácil monitoramento e capilaridade nas regiões mais remotas do país”, diz um trecho da nota.

“Por isso, vemos com grande preocupação a inclusão de benefícios como auxílios ao esporte escolar, iniciação científica e incentivos de inclusão produtiva ao Programa Bolsa Família. A iniciativa atual de agregar um número extremamente alto de benefícios quem têm objetivos diversos complexifica o programa e o torna, segundo muitos especialistas, uma política que não conseguirá ser operacionalizada na sua integridade”, completam os parlamentares.

A frente chama a atenção ainda para o fato de que nenhum documento do governo aponta qual será o valor do benefício e que, segundo a MP, os valores a serem pagos ficarão condicionados à disponibilidade de dotações orçamentárias. “Coloca em sério risco a sustentabilidade do programa a longo prazo”, afirma.

O grupo de parlamentares classifica a iniciativa, por conta de seu atrelamento a recursos precatórios para seu financiamento, de “irresponsável fiscal e socialmente”. Saiba mais aqui.

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Lucas Rocha

Lucas Rocha é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e cursa mestrado em Políticas Públicas na FLACSO Brasil. Carioca, apaixonado por carnaval e pela América Latina, é repórter da sucursal do Rio de Janeiro da Revista Fórum e apresentador do programa Fórum Global