Fórumcast, o podcast da Fórum
25 de outubro de 2018, 16h44

Há 43 anos era assassinado pela ditadura o jornalista Vladimir Herzog

Herzog foi morto, em 1975, no DOI-CODI, local que foi comandado pelo ídolo de Bolsonaro, o Coronel Ustra

Vladimir Herzog. Foto: Arquivo

Há 43 anos era assassinado pela ditadura militar o jornalista iugoslavo de origem judaica e naturalizado brasileiro, Vladimir Herzog. Vlado, como era conhecido, era diretor de telejornalismo da TV Cultura, professor de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e membro do Partido Comunista Brasileiro.

Herzog se apresentou espontaneamente às instalações do DOI-CODI, no dia 24 de outubro de 1975. O local funcionava dentro do quartel-general do II Exército, em São Paulo. Foi lá para “prestar esclarecimentos” sobre suas “ligações e atividades criminosas” e nunca saiu. No local, foi torturado e morto.

“Suicídio acontece”, diz Bolsonaro

O candidato à presidência, Jair Bolsonaro (PSL), afirmou, em julho deste ano, durante o programa “Mariana Godoy Entrevista”, da RedeTV, que “querem vitimizar em cima da morte do Herzog. Lamento a morte dele. Em que circunstância foi, se foi suicídio ou se morreu torturado. Não estava lá. Suicídio acontece. O pessoal pratica suicídio. Não tínhamos nada, pelo que o Herzog fazia, para dar pancada nele”, disse.

O DOI-CODI, onde Herzog foi morto, foi comandado pelo Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, saudado por Bolsonaro no Congresso Nacional, em abril de 2016, quando votou a favor do impeachment da presidenta deposta Dilma Rousseff, que também foi torturada no local. Na ocasião, Bolsonaro chamou Ustra de “o terror de Dilma”.

Suicidado pela ditadura

O Serviço Nacional de Informações (SNI) foi comunicado em Brasília de que naquele dia 25 de outubro: “cerca de 15h, o jornalista Vladimir Herzog suicidou-se no DOI/CODI/II Exército”. O jornalista Elio Gaspari, autor da série de livros “Ditadura”, comenta que “suicídios desse tipo são possíveis, porém raros. No porão da ditadura, tornaram-se comuns, maioria até.”

No laudo cadavérico expedido pela Polícia Técnica de São Paulo, Herzog se enforcara com uma tira de pano – a “cinta do macacão que o preso usava” – amarrada a uma grade a 1,63 metro de altura. Ocorre que o macacão dos prisioneiros do DOI-CODI não tinha cinto, o qual era retirado, juntamente com os cordões dos sapatos, segundo a praxe naquele órgão. No laudo, foram anexadas fotos que mostravam os pés do prisioneiro tocando o chão, com os joelhos fletidos – posição em que o enforcamento era impossível. Foi também constatada a existência de duas marcas no pescoço, típicas de estrangulamento.

Henry Sobel

Em uma atitude heroica, o rabino Henry Sobel ordenou que enterrassem Vlado no centro do Cemitério Israelita do Butantã, o que desmentia publicamente a versão oficial de suicídio. De acordo com a tradição judaica, suicidas são sepultados em local separado. “Vi o corpo de Herzog. Não havia dúvidas de que ele tinha sido torturado e assassinado”, declarou na época o rabino.

O ato ecumênico pela morte de Herzog, na Catedral da Sé, em São Paulo, no dia 31 de outubro de 1975, foi a primeira grande manifestação pública contra a ditadura desde a promulgação do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968. Oito mil pessoas conseguiram entrar na catedral e uma multidão ficou de fora.

Sentença Histórica

O juiz federal Márcio Moraes, em sentença histórica, em outubro de 1978, responsabilizou o governo federal pela morte de Herzog e pediu a apuração da sua autoria e das condições em que ocorrera. Entretanto nada foi feito.

O registro de óbito de Vladimir Herzog foi retificado, 24 de setembro de 2012, passando a constar que a “morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército – SP (Doi-Codi)”, conforme havia sido solicitado pela Comissão Nacional da Verdade. Em 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por negligência na investigação do assassinato do jornalista.

 

 

 


Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum