Inquérito é aberto pela PF para apurar vazamento de depoimentos encaminhados à CPI

Vários veículos de imprensa tiveram acesso ao material. Senadores têm acusado a corporação de enviar vídeos adulterados à comissão, o que demonstraria o aparelhamento político do órgão policial

A direção da Polícia Federal determinou nesta quarta-feira (4) a abertura de inquérito para apurar o vazamento de depoimentos sigilosos em vídeo que fazem parte de duas investigações que correm paralelamente no órgão: o caso em que o presidente Jair Bolsonaro é acusado de prevaricação e o escândalo da compra superfaturada da vacina indiana Covaxin.

A medida foi tomada depois que diferentes veículos de imprensa tiveram acesso a parte das gravações em que depoentes aparecem contando às autoridades policiais fatos relacionados a esses dois inquéritos, que correm em sigilo. O diário conservador carioca O Globo já havia publicado na terça-feira (3) trechos do depoimento do deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), que denunciou o caso da compra ilegal dos imunizantes produzidos pelo laboratório Bharat Biotech.

O site Metrópoles, segundo o senador Rogério Carvalho (PT-SE), que é membro da CPI do Genocídio, já havia apontado que o material encaminhado à comissão no Senado tinha seu conteúdo adulterado (os vídeos seriam editados), o que levou a PF a interpretar que esses depoimentos sigilosos estariam sendo acessados, ou vazados, por jornalistas a partir de membros do Senado.

Os senadores reagiram de forma enérgica à instauração do inquérito, que na visão deles, é uma tentativa de intimidar a CPI, uma vez que a abertura do procedimento sugere que o tal vazamento teria partido de senadores e não da própria Polícia Federal.

“É gravíssimo e, como disse, pode sinalizar a utilização de instituições de Estado brasileiro para o aparelhamento de grupos cujos interesses não se coadunam com os objetivos da nação… Solicito imediatas providências desta comissão e do Senado Federal visando ao esclarecimento destes fatos. Solicito especialmente a requisição da integralidade das informações de interesse desta comissão, acompanhada das devidas justificativas para o envio”, protestou Carvalho.

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES) foi outro que se indignou com as supostas manobras da PF para atribuir aos parlamentares o vazamento do material. “Temos que dar uma basta nisso”, falou.

Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que é vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, foi mais longe. O senador amapaense acusou a Polícia Federal de ser um órgão aparelhado politicamente para defender os interesses do governo atual e fez até uma comparação de tom muito forte.

“A Polícia Federal não abriu inquérito no caso Precisa. Só abriu quatro meses depois por causa da CPI. A Polícia Federal manda para cá depoimentos incompletos, com suspeita de edição, conforme denunciado aqui pelo senador Rogério Carvalho. O ministro da Justiça, eu acho que deve ser chamar Anderson Torres. Não consta que ele se chama Franz Gürtner (o ministro da Justiça do regime nazista). Então o ministro da Justiça, no alvorecer dessa CPI, dá uma entrevista intimidando, dizendo qual investigação deveria ocorrer aqui. Isso equipara-se a transformar a honrosa Polícia Federal em polícia política”, disparou.

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Horas depois, Randolfe foi a seu perfil oficial no Twitter e lançou mais respostas ao que ele já havia classificado como aparelhamento por parte do governo de Jair Bolsonaro em relação à PF.

“Bolsonaro e seus aliados compreenderão que não permitiremos que transformem a Polícia Federal em uma Gestapo ou KGB!”, escreveu.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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