Jean Wyllys: PT me convidou a ser candidato por São Paulo

O ex-deputado também critica afirmações de que o Partido dos Trabalhadores estaria buscando “candidaturas estilo PSOL”, pois, o histórico da legenda é marcado por candidaturas negras, feministas e que o governo Lula “abraçou a bandeira do arco-íris”

Após o anúncio de sua filiação ao Partido dos Trabalhadores, o nome de Jean Wyllys começou a ser cogitado como candidato do PT para a Câmara dos Deputados, porém alguns setores da imprensa afirmaram que isso seria uma estratégia do partido para buscar candidaturas “estilo PSOL”.

A primeira tese Jean Wyllys confirma, a segunda ele refuta. “Em primeiro lugar eu acho curioso, para não dizer desmemoriado o fato de a imprensa (tradicional) tratar o investimento do PT em candidaturas que representem as agendas políticas que vão além das lutas pelos direitos trabalhistas e a justiça social… Até onde eu sabia Benedita da Silva fez toda sua carreira política no PT e o PT abrigou a candidatura de Herbert Daniel já como um candidato gay na década de 1980”, lembra Wyllys.

Wyllys também lembra que “foi o PT que, quando governo, na primeira era Lula (2002-10), realizou todas as conferências dos movimentos sociais e identitários. Lula indicou o primeiro negro ao STF (ex-ministro Joaquim Barbosa) e foi o primeiro presidente a abraçar a bandeira do arco-íris. E, não por acaso, no ano em que, por um milagre, eu me elegi deputado pelo PSOL, o PT elegeu a primeira mulher presidenta da república e já tinha candidatas trans. Essa história de que o PT está fazendo isso por estratégia eleitoral é um equívoco”.

O ex-deputado também afirma que essa movimentação que PT faz “é resultado de sua transformação fruto de uma luta Interna para que se compreenda que trabalhadores e trabalhadoras, além de seus empregos e classes sociais, têm gênero, cor de pele, orientação sexual, identidade de gênero e habita ambientes mais ou menos degradados. E é natural que essa compreensão leve o partido a ampliar o protagonismo das pessoas que representam essas questões do novo mundo. É por isso também que estou no PT, com parte dos que querem fortalecer Lula para uma futura era, que trará o melhor do passado, mas que olhará para o futuro”.

O PSOL e a agenda interseccional

Na eleição de 2010, Jean Wyllys se elegeu deputado federal pelo PSOL do Rio Janeiro. Wyllys analisa a sua passagem pelo partido e afirma que foi o seu trabalho parlamentar que vinculou, nacionalmente, o PSOL com as agendas das políticas das identidades.

“O fato de eu ter identificado nacionalmente o PSOL com essa agenda identitária e interseccional (e, sim, fui eu que o fiz) nunca foi completamente aceito por dirigentes anacrônicos do século XX, que ainda se tratam por patentes militares e sonham com revoluções socialistas; essas figuras, além de expressarem sua homofobia contra mim sempre podiam tentam me sabotar de todas as formas, inclusive publicando fake news me tratando como “porco sionista” pelo fato de eu não ser antissemita como eles. Eles têm raiva de mim porque minha atuação acabou levando para o PSOL, com mais protagonismo (um protagonismo que se devia à minha atuação e não à do partido), algo que já era do PT, mas sem protagonismo: as questões identitárias”, analisa Jean.

Em seguida, Jean também analisa que foi o alcance do trabalho de seu mandato que abriu espaço no PSOL para que surgissem outras lideranças LGBT. “Minha atuação no PSOL resultou, por exemplo, em figuras como Érika Malunguinho, Érika Hilton e etc.”, comenta.

São Paulo ou Bahia?

Questionado sobre a possibilidade de sair candidato a deputado federal pelo estado de São Paulo, Jean afirma que essa questão ainda não está fechada

“Quando me filiei, o partido me convidou a vir candidato por São Paulo ou pela Bahia. Lula, Mercadante, Tatto e Gleisi preferem que seja por São Paulo, porque São Paulo, a cidade, é mais cosmopolita e aberta a uma candidatura como a minha. Além disso, eu tenho uma relação com os trabalhadores da Cultura de São Paulo desde o meu primeiro mandato”, revela Wyllys.

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Jean também afirma que a sua candidatura poderia ser lançada em qualquer um dos estados mais progressistas, mas, afirma que pelo Rio de Janeiro ele não voltaria a se candidatar, ele agradece o seu eleitorado, mas diz que ainda há traumas deixados pela violência da qual foi vítima.

“Caso eu seja candidato, porque eu ainda não me decidi, eu sou um tipo de candidato que posso lançar minha candidatura em qualquer dos estados mais progressistas. Porém, pelo Rio, eu não voltaria a me candidatar, embora eu tenha a maior gratidão e amor pelo meu eleitorado naquele estado. Agradeço. Mas a violência ali me deixou traumas e feridas ainda não cicatrizadas. Além disso, é justamente no Rio onde estão os dirigentes do PSOL que estão dando ataques de pelanca contra o que eles chamam equivocadamente de ‘agenda identitária’”.

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Conflitos internos e inspiração militante

Logo depois de sua filiação, Jean deu uma entrevista ao Fórum Onze e Meia e, à época, quando questionado se lançaria candidatura, trouxe para a conversa a questão de sua segurança. Além disso, Wyllys também afirma que há questões internas que precisam ser resolvidas.

“Além da superação de meus conflitos internos, de se devo voltar ou não para representação política sendo quem eu sou, uma pessoa honesta que diz a verdade sempre ainda que pereça o mundo; um político humanista engajado na defesa das liberdades civis; alguém que vê a cultura e o meio ambiente como agendas estratégicas, que defende radicalmente a laicidade do estado; além de não saber se quero, por causa dessas características todas, virar alvo dos criminosos e charlatões da extrema-direita de novo; há a condição sem a qual não volto: a garantia de que terei segurança para ir fazer os trâmites burocráticos e depois voltar para a campanha”.

Por fim, Jean Wyllys lembra que foi o movimento pastoral da igreja católica, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), umas das forças que compuseram o PT em sua origem, que o inspirou a se tornar um ativista e que, a sua filiação ao PSOL do Rio de Janeiro foi “circunstancial”.

“O fato de, quando decidi me filiar a um partido, o PT estar, naquele momento, sob a hegemonia do PMDB no Rio – eu me filiei ao PSOL. Não foi uma filiação fácil. O PSOL do Rio era classista, tinha preconceitos pelo fato de eu participar do BBB e não compreendia as lutas chamadas de identitárias. Eu só consegui identificar nacionalmente o PSOL com essas lutas porque nunca me importei com a homofobia e a sabotagem internas ao partido e sempre busquei falar para fora”, finaliza Jean Wyllys.

O ex-deputado Federal Jean Wyllys será um dos entrevistados da edição desta quinta-feira (5) do Fórum Onze e Meia.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).