sexta-feira, 18 set 2020
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Judia da Polônia, negra da Maré

Por Juliana Neuenschwander* e Marcus Giraldes**

No dia 15 de janeiro do próximo ano terão se passado exatamente cem anos da derrota da revolução socialista na Alemanha e da execução à sangue frio, em Berlim, de seus dois principais líderes, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Ambos tinham 47 anos e haviam participado há poucas semanas da fundação do Partido Comunista alemão (KPD), após anos de polêmicas em face das linhas dominantes no interior da social-democracia. E ambos haviam se dedicado a denunciar a Primeira Guerra Mundial como uma carnificina que servia apenas para matar trabalhadores em prol dos interesses econômicos das burguesias de cada país imperialista. Karl era um jurista das causas populares e em 1914 foi o único deputado da bancada do Partido Social-Democrata (SPD) no parlamento alemão a votar contra a entrada da Alemanha na guerra, o que lhe valeu perseguições penais, a despeito de sua imunidade parlamentar. Além de líder revolucionária, Rosa Luxemburgo também entraria para a história como uma das mais importantes teóricas da tradição marxista: os seus estudos sobre o caráter necessariamente violento da acumulação do capital e sobre a relação irredutível entre socialismo e democracia são até hoje imprescindíveis. Para Rosa, socialismo revolucionário e democracia deveriam andar sempre juntos. Certamente não deve ter sido fácil para ela, uma mulher (ainda mais judia e que nem alemã era) ter se tornado uma líder de partido e do movimento operário em uma sociedade marcada por forte machismo e chauvinismo. Contam que alguns maus camaradas tentavam ridicularizá-la ao dizerem que ela seria representante de um tal “materialismo histérico”. Como imaginar hoje que alguém (de esquerda) pudesse insultar Rosa Luxemburgo?

No 15 de janeiro de 1919 a revolução fracassou e os dois líderes foram sequestrados, brutalmente espancados e baleados. Na execução do crime estavam os chamados Freikorps, uma milícia de extrema-direita formada por ex-combatentes de guerra e que veio a dar origem ao que seriam mais tarde as SS e SA nazistas. Apenas em 1933 Hitler se tornaria chanceler alemão e em janeiro de 1919 o que se tinha na Alemanha era um período de turbulências que se colocavam entre o fim do regime monárquico da dinastia dos Hohenzollern, em novembro de 1918, e o início das atividades da Constituinte de Weimar, em fevereiro de 1919. Mesmo assim, aquele crime foi em si um ato inaugural do pior que ainda viria. Por isso, tempos depois, o historiador Isaac Deutscher diria, com muita razão, que o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foi o último triunfo da Alemanha dos Hohenzollern e o primeiro triunfo da Alemanha Nazista. No instante do crime a ala ultra-moderada e conciliadora dos social-democratas colocou-se do lado da repressão, porque estavam no governo e preferiam uma transição negociada com a cúpula das forças armadas. E pelos anos seguintes, a esquerda alemã se mostraria desunida e politicamente incapaz de impedir a ascensão do fascismo. Em 1948, logo após o fim de uma outra guerra mundial, com suas montanhas de muitos milhões de mortos, o poeta e dramaturgo Bertold Brecht homenagearia os dois líderes comunistas alemães com poemas em forma de epitáfio. Na homenagem a Rosa é muito incisivo o apelo lançado pelo poeta, não para um passado que é sempre imutável, mas para o presente e o futuro:

Aqui jaz
Rosa Luxemburgo,
judia da Polônia,
vanguarda dos operários alemães,
morta por ordem
dos opressores.
Oprimidos,
enterrai as vossas desavenças!

Desde o covarde assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes que estes versos de Brecht não saem da cabeça: “Oprimidos, enterrai as vossas desavenças!” O contexto histórico-social em que estiveram inseridas e a trajetória individual de cada uma são muito diferentes, mas, assim como Rosa, Marielle também era uma mulher incômoda para o poder dos opressores. Poderíamos, sem qualquer traição ao poema, parafrasear Brecht para honrar Marielle, negra da Maré, lutadora pelos direitos humanos na cidade do Rio de Janeiro. Muito se tem repetido sobre tudo que Marielle simbolizava a partir das identidades que reunia. Mas um símbolo só é justo pelo conteúdo que carrega. Marielle era mulher, negra, lésbica, mãe e também socialista. Era uma militante ligada aos movimentos sociais e ao mesmo tempo um quadro de partido. Vinda da favela, chegou à institucionalidade parlamentar sem negar suas origens. Criticava o sistema com radicalidade e defendia a efetividade dos direitos humanos. A riqueza da trajetória e da militância de Marielle, sem dúvida uma das mais promissoras das novas lideranças da esquerda brasileira, estava no fato de pertencer a vários lugares e não trair nenhum deles. Marielle era admirável pela sua própria singularidade de pessoa no mundo.

Marielle denunciava o terror do Estado em uma guerra em que pobres matam pobres e jovens negros são encarcerados em massa. Não leva a lugar nenhum a discussão em redes sociais sobre se o mais importante como causa social de sua morte é a tradicional violência do Estado contra os pobres e os negros ou é a piora da conjuntura pelo golpe de 2016 e o crescimento da direita. Lembremos de uma publicação da própria Marielle no Facebook em 10 de março: “O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior”. O texto é brilhante pela verdade que consegue condensar em poucas palavras: aponta-se tanto o terrorismo histórico reiterado contra a população das favelas quanto a análise de que vivemos uma conjuntura presente que favorece politicamente cada vez mais essa violência. Um conhecimento não exclui o outro. Contudo, agora os canais midiáticos dos opressores irão se dedicar a falsificar sua imagem e transformá-la em algo não perigoso para o sistema, comparável ao que desde 1988 tentam fazer em relação a Chico Mendes, outro militante que ocupava lugares diversos. Tentam usar a imagem de Marielle para justificar a política de segurança do governo, na contramão de tudo o que ela defendia. É a antiga violência contra os mortos. Todos os que morrem, e não são esquecidos, perdem a capacidade de dizer por si mesmos e passam a depender dos vivos para se comunicarem. Os opressores sabem disso e utilizam seus canais para dizerem falsidades. O que os oprimidos dirão de Marielle depois que a comoção já tiver passado?

 “Oprimidos, enterrai as vossas desavenças!” Para os dias de hoje não podemos ler essa sentença como um apelo à ausência de debates e críticas. Não é possível construir uma sociedade emancipada de pessoas livres e iguais sem o processo de exercer radicalmente a crítica e a autocrítica que permitem o aprendizado das experiências. É o que chamavam de “unidade de teoria e prática”. Também esse apelo não significa uma defesa da unidade indiferenciada, o que é sempre artificial. A esquerda brasileira precisa ter a maturidade para compreender e respeitar suas diferenças filosóficas, organizacionais, partidárias e eleitorais. Que os mais jovens olhem para as tradições das lutas passadas e que os mais velhos estejam abertos a renovar suas ideias e práticas. Enterrar as desavenças significa a compreensão afetiva e racional de que há um inimigo comum, os opressores (aqueles que são os responsáveis pelas mortes de Marielle e Anderson). E esses opressores, que mandam no Brasil desde sempre, têm alcançado vitórias importantes nos últimos anos e querem avançar mais. Ninguém realmente crítico pode apostar com absoluta certeza se de fato teremos eleições este ano e nem o quanto livre serão essas eleições caso ocorram, mas sabemos que a extrema-direita tornou-se uma competidora real e é nossa responsabilidade levar a sério todas as ameaças. Duas semanas após a morte de Marielle e Anderson, milícias rurais, sob o aplauso de lideranças políticas de direita, dispararam tiros contra a caravana do presidente Lula, primeiro colocado nas pesquisas eleitorais para o pleito de 2018. Ninguém poderá dizer até onde irá o pior, e a mais importante lição da história é que nunca devemos duvidar do pior. Precisamos de mais ação e mais unidade na ação!

 

*Professora Titular da Faculdade de Direito da UFRJ.

**Advogado e analista da Fiocruz.

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