Lava Jato contou com assessoria do procurador Vladimir Aras para burlar acordo com MP da Suíça

Diálogos obtidos pela operação Spoofing revelam que primo do atual procurador-geral da República atuou em conluio com força tarefa para driblar lei de cooperação internacional

O procurador Vladimir Aras, primo do atual procurador-geral da República, Augusto Aras, ajudou a força-tarefa da Lava Jato de Curitiba a driblar leis de cooperação internacional para obtenção de documentos em investigações. Um dos países com quem a força-tarefa trocou documentos foi a Suíça.

É o que indicam novos diálogos entre procuradores da Lava Jato enviados pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira (22). Eles foram obtidos por meio da Operação Spoofing.

Nos diálogos, os procuradores demonstram temer que um atalho usado pelo Ministério Público Federal para obter documentos internacionais fora do que é previsto em lei viesse à tona. O site Conjur havia obtido a informação e questionado o MPF. As falas demonstram que eles tinham receio ainda que, caso fosse publicado pelo Conjur, o teor pautasse sites como o 247 e o jornalista Luís Nassif.

O Conjur publicou naquele dia 5 de novembro de 2015 uma reportagem intitulada “Ministério Público driblou a lei para trazer documentos da Suíça na ‘lava jato’”.

Nas conversas, eles acabam revelando que, de fato, tal burla foi usada. O procurador Vladimir e a procuradora Renata falam sobre o pedido do Conjur para saber se a entrega dos documentos havia sido efetuada fora das hipóteses constantes na legislação.

Depois da publicação, Renata comenta: “Não ficou bom, pq está parecendo que escondemos algo”. Ela, então, sugere dizer que o grupo não usou nada que não tenha vindo por meio de cooperação e via diplomática.

Em resposta, o procurador Vladimir acaba confirmando o uso de informações obtidas fora dos canais oficiais. “Melhor nao dizer nada, pois não é ‘toda’ a verdade. Eles usaram. Não no proceso, mas usaram.”

Abaixo, a transcrição dos diálogos, preservados eventuais erros de grafia que constam do original.

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5 NOV 15

 15:11:24 Vladimir Vou combinar com Deltan

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 15:13:21 Podemos dizer algo nesse sentido desejado? Eles querem que confirmemos essa entrega. Não sei se é prudente.

 15:23:53 Também acho que não

 15:24:41 Quando eu estava lá Deltan me garantiu que os dados eram de PRC a partir da autorização dele

 15:33:21 Renata Tb acho. Posso falar que nao vamos mudar a resposta

 15:33:33 Conjur é bem pro advogado

 15:34:17 Posso dizer q o que veio com deltan foi o que Pelella fala

 15:34:34 E que isso levou ao pedido de cooperação como um todo

 16:01:11 Espera o Vlad

 16:01:28 Renata Claro

 19:43:15 http://www.conjur.com.br/2015-nov-05/documentos-trazidos-suica-mpf-colocam-lava-jato-risco

 19:43:23 Acabaram publicando…

 19:44:44 Não ficou bom, pq está parecendo que escondemos algo. Pra tentar melhorar, acho que devemos dizer (pois não está dito com todas as letras) que não usamos nada que não tenha vindo por meio de cooperação e via diplomática

 19:45:37 Do jeito que está dá interpretação de que podemos ter utilizado algo irregular

 19:45:56 Aguardo posição pra me movimentar aqui.

 19:59:43 Receio que isso vai pautar 247, luis nassif e companhia

 21:06:27 Alguém?

 21:09:09 Vladimir Exato

 21:10:15 São sacanas. Não dá para esperar nada melhor do Conjur. A pauta é sempre enviesada

21:11:19 Renata Concordo. Mas vamos deixar assim mesmo? No vale explicar, mesmo sendo redundante, que as informações prévias não foram utilizadas no processo
21:11:35 *nao vale?

21:11:50 Vladimir Melhor nao dizer nada, pois não é “toda” a verdade. Eles usaram
21:12:17 Não no proceso, mas usaram

21:13:24 Renata Ok. Vou ver a repercussão dessa matéria. Conforme for, conversamos amanhã.

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Fabíola Salani

Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.

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