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15 de setembro de 2019, 13h53

Linha do tempo de Gaspari revela em detalhes armação de Moro e Dallagnol contra Lula e Dilma

Naquele dia fatídico, a República de Curitiba teve sua maior vitória, conforme relata Gaspari. Como no gol de Maradona, a bola foi ajeitada com a mão (“de Deus”, como ele disse)

Foto: Montagem

Com uma clareza nunca usada pela grande imprensa com relação ao assunto, o jornalista Elio Gaspari publicou na Folha deste domingo (15), uma linha do tempo onde relata com exatidão a armação que ocorreu em 16 de março de 2016 por parte do então juiz atual ministro da Justiça, Sergio Moro, e os procuradores da Lava Jato.

Naquele dia fatídico, a República de Curitiba teve sua maior vitória, conforme relata Gaspari. Como no gol de Maradona, a bola foi ajeitada com a mão (“de Deus”, como ele disse).

Veja abaixo a cronologia dos fatos:

A pedido de Moro, os telefones usados por Lula estavam grampeados pela Polícia Federal (PF). Em 15 de março, a equipe que ouvia as conversas concluiu um relatório com 42 transcrições. A última havia ocorrido às 19h17m do dia 14.

Desde o dia 9 o procurador Deltan Dallagnol sabia que Dilma havia oferecido a chefia da Casa Civil a Lula.

No dia seguinte, falando com o delegado, Deltan pediu para receber todo o conjunto que “pode ser importante para indicar riscos à segurança e a condução”. Era voz corrente que Lula poderia ser preso.

No dia 13, Moro alertou Dallagnol para a possibilidade de mudança de foro do processo de Lula caso ele virasse ministro. De fato, os grampos do dia seguinte informavam que Lula iria a Brasília para conversar com Dilma, precisando de “meia hora sozinho com ela”.

Às 7h45m do dia 16, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima perguntou qual a posição da Procuradoria-Geral com relação ao assunto que discutiria dali a pouco com Moro. Tratava-se de saber o que se faria com o relatório dos grampos. Carlos Fernando queria “abrir tudo”.

Ele sabia que Lula e Dilma estavam tomando café da manhã juntos e explicou: “Por isso a urgência”.

Às 11h12m, Sergio Moro oficiou à PF a suspensão da escuta dos telefones.

Até as 12h58m, Moro não havia decidido tirar o sigilo das 42 conversas transcritas pela Polícia Federal. Divulgadas, elas prejudicariam a manobra, mas não teriam um efeito letal.

O telefonema de Dilma muda tudo

Às 13h32m, Dilma telefonou para Lula, avisando que o “Bessias” estava a caminho, levando o documento de sua nomeação para chefia da Casa Civil.

Doze minutos depois, o jogo mudou. Numa rapidez inédita, o agente federal Rodrigo Prado informou aos procuradores:

“Senhores: Dilma ligou para Lula avisando que enviou uma pessoa para entregar em mãos o termo de posse de Lula. Ela diz para ele ficar com esse termo de posse e só usar em ‘caso de necessidade’… Estão preocupados se vamos tentar prendê-lo antes de publicarem no Diário Oficial a nomeação do Lula”.

Às 13h46m, o Planalto divulgou a nomeação de Lula para a chefia da Casa Civil.

Às 14h26m, o delegado Luciano Flores de Lima mandou que Prado transcrevesse a conversa de Dilma com Lula, “sem comentários”. Às 15h34m, o delegado narrou ao juiz Moro o conteúdo da conversa.

Às 16h21m, Moro levantou o sigilo de todos os telefonemas, inclusive daqueles que ocorreram depois do seu despacho suspendendo a escuta.

Às 17h21m, Moro disse a Deltan que havia levantado o sigilo mas que “aqui não vou abrir a ninguém”.

“O mundo caiu”

Às 18h40m, ao vivo e a cores, o diálogo de Dilma com Lula foi ao ar e o procurador Carlos Fernando registrou: “Tá na GloboNews”.

Deltan comentou: “Ótimo dia. Rs”.

O procurador Athayde Costa arrematou: “O mundo caiu”.

Caiu, mas todos sabiam o que haviam feito.

O procurador-geral Rodrigo Janot estava na Suíça e seu chefe de gabinete, Eduardo Pelella, perguntou: “Vocês sabiam do áudio da Dilma? (…) A gente não falou sobre isso”(19h17m).

Minutos antes, Deltan dissera que “por cautela, falei com Pelella e deu ok”. Esquisito, porque ao saber que o grampo de Dilma com Lula não estava no relatório da PF, Pelella espantou-se:

“Não estão nos relatórios? Caralho!!!” (19h23m).

A partir das 21h, os procuradores de Curitiba temem pelo que pode acontecer. O procurador Orlando Martello, que se surpreendeu com a divulgação dos áudios, avisa:

“Estou preocupado com o Moro! (…) Vai sobrar representação contra ele”.

Carlos Fernando concorda: “Vai, sim. E contra nós. Sabíamos disso”.

A procuradora Laura Tessler entra na conversa: “A população está do nosso lado, qualquer tentativa de intimidação irá se voltar contra eles”.

Martello propõe: “Se acontecer algo com Moro, renúncia coletiva MP, PF, RF”. (Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal).

“Por mim, ok. Adoro renunciar… Rsrsrs”, disse Carlos Fernando

Não foram necessárias renúncias coletivas nem entrevistas agressivas. A manobra teve o apoio da opinião pública, o ministro Gilmar Mendes cassou a posse de Lula e seis meses depois Dilma Rousseff foi deposta pelo Congresso.

Cinco dias depois, trocando mensagens com Deltan, Sergio Moro resumiu sua conduta:

“Não me arrependo do levantamento do sigilo. Era a melhor decisão”.

Era?

 


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