Seja #sóciofórum. Clique aqui e saiba como
02 de março de 2019, 17h57

Lula e a meningite: um apelo à razão

Insinuar que Lula é responsável de certa forma pela morte de seu neto é parte de um ódio irracional e desumano que só cresce no Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Carlos Magno C. B. Fortaleza*

Circula nas redes um texto segundo o qual Lula vetou a vacina contra a meningite que vitimou seu neto de 7 anos. Qualquer pessoa que publique ou compartilhe uma notícia desse tipo é ao mesmo tempo desinformada e mal-intencionada. O Programa Nacional de Imunização (PNI) do Brasil nasceu na década de 1970 e vem ampliando o número de vacinas disponíveis desde então, não importa o governo.

As decisões são tomadas pelo Ministério da Saúde com base na orientação do Comitê Nacional de Imunização, apartidário e formado pelos maiores especialistas em vacinas do país. Em 2010 (aliás, durante o governo Lula), foi introduzida no calendário vacinal infantil a vacina contra o meningococo tipo C, responsável pela esmagadora maioria dos casos de meningite meningocóccica no país.

Desde então, houve significativa redução dos casos dessa doença na população vacinada (Bierrenbach, 2018). É importante ressaltar que qualquer introdução de vacinas leva em conta o impacto da doença na população e a sustentabilidade financeira do seu uso continuado. Vacinas contra os meningococos tipo A, C, W e Y não foram incluídas no calendário nacional pela raridade de sua ocorrência. Já a vacina contra o tipo B foi somente recentemente desenvolvida, é extremamente complexa e tem um preço ainda proibitivo para sua inclusão em políticas públicas (lembrando que esse tipo também é minoritário no Brasil) (Azevedo, 2013).

O Brasil é universalmente respeitado por seu programa de vacinações (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2017).

Em resumo, as decisões de incluir ou não vacinas no calendário infantil são técnicas. Insinuar que Lula é responsável de certa forma pela morte de seu neto é parte de um ódio irracional e desumano que só cresce no Brasil.

Referências

Azevedo LC et al. PLoS One. 2013; 8(6): e64524.

Bierrenbach AL et al. Hum Vaccin Immunother. 2018; 14(5): 1138–1145.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. (WORLD HEALTH ORGANIZATION). From warehouse to remote indigenous communities: The journey of vaccines in Brazil. online: https://www.who.int/news-room/feature-stories/detail/from-warehouse-to-remote-indigenous-communities-the-journey-of-vaccines-in-brazil.

*Carlos Magno C. B. Fortaleza é médico infectologista, professor livre-docente da Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista / UNESP)

Nossa sucursal em Brasília já está em ação. A Fórum é o primeiro veículo a contratar jornalistas a partir de financiamento coletivo. E para continuar o trabalho precisamos do seu apoio. Saiba mais.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum