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05 de julho de 2019, 20h58

Em entrevista, Lula faz longa explanação sobre a história do racismo no Brasil

“Não faz muito tempo que acabou a escravidão neste país. Ela ainda está arraigada na cabeça da elite brasileira. Ela ainda não se conforma de ver um negro dirigindo um carro. Só se for jogador de futebol”, disse o ex-presidente

Foto: Reprodução/Sul21

Em outro trecho da entrevista concedida ao site Sul21, Lula aborda a questão do racismo estrutural que sempre se fez presente na história do Brasil.

“Não faz muito tempo que acabou a escravidão neste país. Ela ainda está arraigada na cabeça da elite brasileira. Ela ainda não se conforma de ver um negro dirigindo um carro. Só se for jogador de futebol”, disse.

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Questionado sobre qual a dimensão e a gravidade do problema do racismo estrutural na sociedade brasileira, o ex-presidente declarou que é muito grande.

“Eu vivi isso a minha vida inteira. Achei que era uma coisa que a gente ia superar com o tempo. No meu governo, a gente criou ‘n’ condições para valorizar a questão de gênero, a questão LGBT, os quilombolas e assim por diante. Criamos políticas, mecanismos e conselhos para tratar desses temas. Mas é uma coisa que está arraigada na consciência das pessoas”, analisou.

O ex-presidente afirmou que “a sociedade ainda não se conforma de ver um negro dirigindo um carro. Só se for jogador de futebol. Ela parte do pressuposto de que um negro dirigindo um carro é ladrão. Ela não consegue ver uma menina negra que não seja empregada doméstica. Quando nós valorizamos o salário da doméstica, com décimo terceiro, carteira profissional e férias, isso foi uma afronta para a classe média que adorava chamar a empregada de secretária, sem que ela tivesse nenhum direito”, explicou.

Sem aceitação

Lula afirmou, ainda, que há uma parte da sociedade brasileira, que pode chegar a 20 ou 30 por cento, que não aceita a ascensão dos mais pobres.

“Não é todo mundo que anda pelo Parque do Ibirapuera e fica contente quando um pobre da periferia de São Paulo está andando por lá. Não é todo mundo que aceita chegar num teatro e ver um monte de gente de cor negra, ou chega no seu restaurante predileto e vê lá gente que não é daquele ambiente”, acrescentou.

O ex-presidente contou uma história, na qual demonstra que ele mesmo sofreu preconceito por ser um homem de origem humilde.

O caso ocorreu em um avião da Varig. Há muitos anos, quando ainda o era líder sindical, ao chegar em Frankfurt, na Alemanha, o comandante da aeronave o convidou para ir para a primeira classe.

“Eu fui. Maravilha. Aí veio uma aeromoça com um carrinho oferecendo caviar ou lagosta. Eu disse pra ela que queria caviar. Nunca tinha comido caviar. É a chance que eu tenho de experimentar, pensei. Ela saiu do meu lado e falou para a amiga dela: é, ele diz que é trabalhador, mas quer comer caviar. Eu fui obrigado a levantar e, educadamente, disse pra ela: ‘a senhora tem feijão, arroz ou um ovo frito? Não. A senhora foi lá e me ofereceu lagosta e caviar. Eu pedi caviar e a senhora vem aqui dizer que caviar não é pra mim’. Não tinha a música do Zeca Pagodinho ainda, essa do caviar…”, disse.


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