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13 de setembro de 2019, 14h48

Márcia Tiburi diz que fascismo de Bolsonaro pode levar o Brasil para um futuro ainda pior que o presente

Em entrevista exclusiva, Márcia falou com a Fórum do exílio autoimposto sobre o início de uma nova vida no velho mundo. Nos próximos semestres ela levará Bolsonaro, Trump e Berlusconi à Universidade Paris 8 nas aulas sobre “capitalização do ridículo na política mundial”

Marcia Tiburi (Arquivo)

Doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Márcia Tiburi ainda luta para tirar das páginas de seus livros e levar para a sociedade uma filosofia com pensamento democrático, pela emancipação, pela liberdade, pelos direitos humanos e fundamentais da sociedade. Buscou fazer isso pelas vias democráticas, ao se lançar candidata ao governo do Rio de Janeiro em 2018, mas teve que deixar o Brasil ao final do processo eleitoral após receber ameaças de morte do mesmo fascismo emergente que denunciara em uma de suas últimas obras: “Ridículo Político: uma investigação sobre o risível, a manipulação da imagem e o esteticamente correto”.

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Antes de embarcar para uma viagem de trem com destino à Itália, para participar de uma conferência, Márcia falou com a Fórum do exílio autoimposto sobre o início de uma nova vida no velho mundo. Após passar pelos Estados Unidos – de onde também recebeu convites para dar aulas em uma universidade – a filosofa brasileira agora se prepara para se estabelecer definitivamente na França, onde dará aulas sobre “capitalização do ridículo na política mundial”, tema do seu livro e parte do seu cotidiano nos últimos anos.

“Eu resolvi aceitar o convite da Universidade Paris 8. Recebi também o convite de uma universidade americana, mas resolvi ficar em Paris. Vou dar aulas nos próximos semestres, começar trabalhando um assunto que sempre trabalhei quando lecionei Filosofia no Brasil, que é a relação entre estética e política”, disse.

Segundo ela, o trabalho será orientar pesquisadores da pós-graduação na análise do discurso “ridículo e risível” capitalizado pela extrema-direita no mundo.

“Esse discurso se infiltra na sociedade através de uma prática de graça, de uma certa bufonaria, vamos chamar assim, que na verdade se torna uma chave de entrada para o cinismo, que é uma das características principais do fascismo através de sua história e também no Brasil nesse momento”, diz ela, que cita como exemplo dessa apropriação estética do discurso, além de Jair Bolsonaro, o ex-premiê italiano Silvio Berlusconi, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“O fascismo sobre o qual estou falando não é ainda um fascismo de estado, mas um fascismo que está dado na cultura e na subjetividade. Ele está na mentalidade das pessoas e tem que ser praticado com o mais próximo. E isso o Bolsonaro conseguiu disseminar”.

Para Márcia, a televisão arou o terreno para que o discurso de ódio fosse levado às redes sociais e construísse uma base psico-social que se difundiu no Brasil, principalmente a partir dos atos que começaram contra o aumento das tarifas do transporte público, em 2013.

“Foram multidões capturadas em um processo de lavagem cerebral, um processo de cancelamento da reflexão crítica, analítica e razoável, e, ao mesmo tempo, havia um esvaziamento emocional forte. A partir daí, esse semear do ódio aconteceu de forma muito fácil”, diz ela, influenciando no discurso de ódio que levou Bolsonaro ao poder em 2019.

É em meio a essa “guerra híbrida”, que se dá sobretudo pela propagação da informação, que Márcia Tiburi volta à academia para continuar sua luta contra o mal fascista. E, para ela, é só por meio da unidade do campo progressista sobre um discurso – e uma prática – realmente democrática e voltada aos direitos humanos e fundamentais da sociedade que será possível vencer o fascismo, sem simplesmente esperar uma “resposta dos deuses”.

“Sem uma unidade forte, que combata o mal fascista nós não teremos muito futuro no nosso país. Isso é lastimável. Eu lastimo ter que dizer isto. Eu espero que a gente consiga produzir essa unidade, que tem que acontecer rapidamente, porque hoje o processo histórico tem outra velocidade em função da difusão rápida das redes sociais. E a guerra híbrida está dada. Nós não podemos negligenciá-la. Então, tudo pode acontecer. Se não houver “deux ex-machina” (NR.: expressão latina que significa uma solução inesperada) ou um grande confronto é muito provável que o Brasil se encaminhe para um futuro ainda pior do que estamos vivendo no presente”.


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