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27 de julho de 2019, 13h53

Marcos Danhoni: Maringá além da lagoa do marreco

Infelizmente, a cidade de Maringá foi maculada pelas ações fascistas de um juiz que esqueceu a Justiça para praticar o justiçamento (que havia prometido ao seu pai no leito de morte)

Outdoor divulga palestra de Moro em Maringá em 2017 (Reprodução)

Por Marcos Danhoni*

 

O pior analfabeto é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas macionais e multinacionais.

(“O Analfabeto Político”, Bertholt Brecht)


Infelizmente, a cidade de Maringá foi maculada pelas ações fascistas de um juiz que esqueceu a Justiça para praticar o justiçamento (que havia prometido ao seu pai no leito de morte) da esquerda no Brasil e na América Latina … Sim! Estamos falando dele: Sérgio Fernando Moro, apelidado em todo o país, graças à sua voz de soprano (especialmente quando está diante de uma autoridade intelectual ou política superior à sua), de “O Marreco de Maringá”!

Infelizmente, o nome da cidade está ligado hoje ao personagem fascista aqui nascido. Uma infelicidade sem tamanho! Porém, muitos outros personagens de natureza política envergonharam e envergonham a cidade: Ricardo Barros (deputado golpista, ex-Ministro da Saúde do governo usurpador de Michel Temer), Cida Borghetti (esposa de Ricardo Barros, ex-vice-Governadora do Paraná e, posteriormente, Governadora); Victoria Barros, filha do casal Ricardo e Cida (deputada estadual que votou favoravelmente à destruição da previdência dos funcionários públicos do Paraná e foi a favor do massacre de 29 de abril de 2015 que feriu mais de 500 professores em Curitiba), Luis Nishimori (deputado federal, vassalo da família Barros, eleito pela comunidade japonesa de Maringá – votou a favor de todas as Deformas que passaram pelo Congresso desde o desgoverno Temer até o atual desgoverno Bolsonaro)! Ainda temos um representante do MBL na ALep, cujo nome não pode ser mencionado, mas que foi apelidado (o inominável!) de “Hesíodo Tranqueira” … Todos estes nomes, e o de Moro incluído, envergonham a cidade não somente pelos clãs políticos que formaram, quanto pela noção nada republicana de poder que erigiram.

Porém, a despeito de tudo, Maringá, além de uma bela cidade, a 2ª mais arborizada do país (João Pessoa é a 1ª), ainda tem uma história que a faz digna. Após um saque faraônico nos cofres da cidade, protagonizado pelo alcaide da cidade, Jairo Gianotto (prefeito eleito pelo PSDB), a cidade elegeu pela primeira e única vez um candidato à prefeito da Cidade, José Claudio Pereira Neto (mas que, infelizmente faleceria vitimado por um câncer no meio do mandato). José Claudio conseguiu recuperar as colheitadeiras que foram compradas por Gianotto (as fazendas compradas pelo ex-prefeito, fruto do roubo, nunca foram recuperadas na Justiça), durante o saque da cidade. Porém, o escritório de advocacia onde Moro trabalhava conseguiu manter Gianotto fora da cadeia e os bens roubados intocados. Foi o primeiro corrupto que Moro conseguiu deixar impune (os demais viriam do faraônico Caso Banestado e, posteriormente, da Lava Jato, como a VazaJato do THE INTERCPET está revelando!).

Maringá consegue manter até hoje uma pequena bancada petista na Câmara Municipal tentando lutar contra os arbítrios que frequentemente assolam aquela Casa. A mais recente: conceder os títulos de Cidadãos Beneméritos à dupla delinquente do Judiciário brasileiro: Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, proposto por um vereador da Direita.

A cidade, apesar de ter dado quase 70% dos votos ao fascista Bolsonaro, apresenta outros focos de resistência acadêmica e cultural! Da cidade saíram nomes como a atriz Sonia Braga, o escritor Laurentino Gomes, a lateral-direita do futebol feminino Simone Jatobá, além de abrigar sua mais prestigiosa Instituição: a Universidade Estadual de Maringá (UEM). A instituição já cinquentenária oferta quase 70 cursos de graduação, quase 80 de especialização e mais de 40 cursos de pós-graduação (Mestrado, Doutorado e estágios de Pós-Doutorado).

No ranking elaborado pela Revista inglesa “Times Higher Education” (THE), que ranqueia cerca de 1.250 universidades em todo o mundo, a UEM ficou entre as 600 melhores no caso das Ciências da Vida (Biologia, Medicina Veterinária e Educação Física) e Clínica, Pré-Clínica e Saúde (Medicina, Odontologia e outros vinculados à Saúde). Nas Ciências Físicas está citada entre as 800 melhores – esta categoria abrange as graduações em Matemática, Estatística, Física, Astronomia, Química, Geologia e Ciências Ambientais. A Universidade Estadual de Maringá também ganha destaque no ranking divulgado pelo “US News & World Report”. A UEM ficou em 58ª na avaliação das melhores universidades da América Latina e em segundo lugar no Paraná. Apenas 30 universidades brasileiras foram avaliadas (24 federais e as demais estaduais).

A UEM recentemente ganhou grande destaque nacional por ser a 2ª Universidade, no mundo, que abriga o maior número de publicações em periódicos científicos indexados cujos autores são mulheres. O resultado vem do “Ranking Leiden” que anualmente avalia o desempenho científico das universidades com base bibliométrica. Dos 1.288 trabalhos produzidos na Instituição, 54,1% eram de autoria feminina.

A UEM abriga pesquisas de grande destaque no Brasil e no mundo. O mais recente foi a descoberta (a primeira de um dinossauro no Estado), em colaboração com a USP, do fóssil do Vespersaurus paranaensis, um predador (da mesma linhagem do velociraptor) de pequenos animais que caçava em dunas. Teria vivido há 85 milhões de anos, num ambiente desértico muito diferente da fauna atual.

Além do mais, a UEM desenvolveu importantes pesquisas que resultaram na stevia (é pioneira, no Brasil, nos estudos tecnológicos de adoçantes a base de Stevi), no desenvolvimentos de softwares (diversas patentes registradas), desenvolvimento de fármacos (especialmente a descoberta de mecanismos sobre como o pâncreas libera a insulina), abertura de arquivos depositados no “National Archives and Record Adminsitration-NARA”, de 1908 a 1963, junto com a Brown University, a descoberta da primeira lua craterada numa pintura do Renascimento na Igreja de Santa Maria Maggiore, em Roma, etc.

Mas não é somente na questão acadêmico-científico-cultural que a UEM se destaca. A Universidade recusou há dois anos a conceder o título de Doutor honoris causa a Sergio Moro, o que causou grande comoção na imprensa PIG, no MBL, na Maçonaria local e no meio empresarial golpista da cidade. Devo lembrar que a UEM sempre liderou os movimentos paredistas em prol da educação superior e geral. Durante seu primeiro movimento grevista nos estertores do regime militar, o sindicato enfrentou a ferocidade do governo biônico (indicado) do Estado, do reitor também biônico e, pasmem (!!!), do pai de Moro, Dalton Moro, que furou greve junto com a professora e esposa do então Reitor. Por terem impedido a aula do pai de Moro, três sindicalistas, amigos meus, foram punidos por comissões de sindicância durante os 3 anos seguintes. É daqui também que foram descobertos os dois apartamentos do MINHA CASA MINHA VIDA comprado por Deltan Dallagnol em Ponta Grossa para obter ganhos com a especulação imobiliária (Detalhe: estes apartamentos são destinados a famílias com renda global de até R$ 6.500,00 – Dallagnol, como sabemos, ganha, no mínimo, dez vezes mais!!!).

Nossas manifestações de maio em prol da educação e de LULA LIVRE foram cheias, vigorosas, e pararam o centro e as principais vias da cidade. Conseguimos desidratar as manifestações vigaristas em prol de Bozo e Moro!

Ainda existem focos de grande resistência tanto na UEM quanto em sua população, especialmente numa periferia de operários extremamente descontentes com os rumos desastrosos tanto da política do Roedor que ora des-administra o Estado quanto do usurpador federal, Bolsonaro.

Resistiremos e liquidaremos a lagoa do Mahaecker (outro dos nomes do marreco) de Maringá, devolvendo à cidade, o esplendor que ela merece não somente pelo seus aspectos urbanísticos e paisagísticos, mas, especialmente, por ideias libertárias e revolucionárias contra o status quo que estancou o progresso da cidade e de todo o país!

Fora Moro!!!

*Marcos Cesar Danhoni Neves é Professor Titular da Universidade Estadual de Maringá, autor do livro “O Labirinto do Conhecimento” entre outras obras

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


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