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03 de outubro de 2018, 17h17

Maria Angélica Ferrasoli: Eu não, mas e você?

Você, que um dia foi menina, que hoje é mulher, e vai escolher para dirigir esse País imenso um homem (sic) que defende a tortura, agride mulheres, ataca gays e quer botar armas nas mãos de milhões?

Foto: Jéser Souza

Por Maria Angélica Ferrasoli*

Eu, não – porque busquei meu espaço, espalhei minhas sementes, construí meus livros e escrevi meu canto.

Mas e aquelas que ainda engatinham e não sabem o que lhes espera?

Eu, não – porque superei violências, atropelei assédios, sofri e atenuei as dores do meu aborto.

Mas e aquelas que serão atacadas sem chance de defesa, sem respeito, saúde ou afeto? As que serão estupradas sob ameaça de uma arma livremente comprada, por seres que se dizem homens, mas são apenas assassinos de sonhos?

Eu, não, que já me aposento, que viajo para a praia, que posso ir embora, se quiser.

Mas e aquelas que não têm emprego, que eternamente ganharão menos, que não poderão ter e dar vida digna a seus filhos? Aquelas que perambulam pelas ruas sem expectativas nem chances, que estão em famílias violentas ou esquecidas em albergues?

Eu, não – que, sim, posso pagar por moradia, educação, saúde, diversão.

Mas e aquelas a quem tudo falta, até a comida, e ficarão (ainda mais) sem qualquer proteção do Estado?

Eu, não – que encontrei pela vida um homem, e não um torturador, que me dá amor, autoestima e acende meus dias como sol.

Mas e aquelas que apanham de seus namorados, maridos, que são humilhadas em casa e no trabalho, as eternas culpadas por tudo – pela roupa, pelo riso, pelo cheiro? Culpadas pela existência, invejadas em sua divina natureza de dar a vida?

Eu, não – porque sou livre, e ando pelada pelas praias livres do mundo, sem ter que dar satisfação a ninguém.

Mas e aquelas sob o peso do pecado, da censura, do ostracismo, do obscurantismo moral e religioso?

Eu, não – porque sei que meu caminho se cruza todos os dias com o de centenas de mulheres jovens, e tenho guardada em minha história a chama da esperança.

Mas e aquelas que têm como memória apenas o abandono, a desilusão e a informação falaciosa?

Eu, não – porque não preciso pedir perdão nem autorização por minhas escolhas, porque aprendo a cada dia com uma pequena grande mulher que ajudei a gerar.

Mas e aquelas subjugadas em casas, apartamentos, barracos, comunidades, em coberturas de luxo ou sob a ponte mais próxima?

Eu, não – porque não mora em mim a barbárie, o desejo de matar, amordaçar, acorrentar, vilipendiar quem quer que seja, e acredito num tempo de oportunidades iguais para todos.

Eu, não!

Mas e você, que um dia foi menina, que hoje é mulher, e vai escolher para dirigir esse País imenso um homem (sic) que defende a tortura, agride mulheres, ataca gays e quer botar armas nas mãos de milhões?

Você, sim. Que talvez tenha até uma filha de olhos brilhantes e sonhadores mirando os seus, ou uma adolescente cheia de planos e de vontade de sorver o mundo.

Não creio que as iluminadas, rebeldes e libertárias mulheres que por certo formarão as gerações do futuro vão lhe perdoar.

*Maria Angélica Ferrasoli é jornalista


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