Michel Gherman: “O genocídio não ensina nada! Não é pedagógico, nunca foi”

Na última entrevista da série Judeus e Bolsonaro, Michel Gherman, historiador e coordenador do Núcleo de Estudo Judaico da UFRJ, analisa a relação estabelecida entre alguns membros de sua comunidade e o governo atual.

A última entrevista da série Judeus e Bolsonaro, uma produção da Revista Fórum, dá a palavra a Michel Gherman, historiador e coordenador do Núcleo de Estudo Judaico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Gherman transita por vários aspectos do tema e afirma que o fato de os judeus terem sido vítimas de uma atrocidade como o Holocausto não faz com que os integrantes da comunidade automaticamente tenham consciência das incoerências que um apoio a uma figura como Jair Bolsonaro acarreta, já que o genocídio do povo judeu (e qualquer outro), segundo ele, não tem caráter pedagógico, e seus únicos legados seriam o trauma e o sofrimento.

Começo questionando o historiador sobre a relação que se construiu entre extremistas brasileiros, além de alguns setores neopentecostais radicais, e a simbologia que representa o Judaísmo e o próprio Estado de Israel em si. Para ele, há uma subdivisão entre esses entusiastas não judeus que veneram a religião e Israel, que deve ser compreendida da seguinte maneira:

“Há uma representação de um Judaísmo imaginário, de um Israel imaginário, que faz com que ocorra uma coalizão de movimentos que acaba se consolidando em torno de uma candidatura de extrema direita… A percepção que esses caras têm de Israel é vista pela perspectiva desses extremistas de direita, no Brasil e no Mundo, a partir de uma lógica da branquitude. São quatro os grupos contidos nesse movimento. Para o primeiro, Israel representa a luta contra a incivilização e a barbárie. Para eles, ser israelense, em última instância, é ser branco”, diz.

O entrevistado dá continuidade à explicação e mostra que os radicais que se apropriam de elementos do Judaísmo formam uma massa bem diversificada.

“O segundo grupo é o grupo armado. É o grupo que vê em Israel um estado superarmado e supermilitarizado e que figura como um projeto a ser seguido. Já o terceiro grupo é o dos ultraliberais, que enxerga em Israel uma perspectiva econômica. Eles veem uma ausência de Estado, um exemplo de capitalismo, um exemplo de liberdade de mercado. Por fim, há um quarto grupo, que percebe Israel e o judeu como representantes do Israel imaginário, vinculado ao reino de Judá, ao reino de Davi, que é o grupo religioso, fundamentalista”, completa.

Ele completa ainda salientando um fato sobre esses não judeus que veneram o Judaísmo:

“É interessante que a veneração a Israel imaginário e ao judeu imaginário ocorre sem a participação do judeu real. O judeu real não faz parte desse conluio.”

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Para Gherman, a vinculação aos setores de extrema direita que ocorre no Brasil não é comum em outros países, onde judeus habitualmente se posicionam mais ao centro.

“As comunidades judaicas espalhadas pelo mundo costumam se vincular ao centro político. Isso é muito claro por exemplo na França, na Áustria, na Hungria, países onde ocorreu essa apropriação dos símbolos judaicos (não na intensidade como ocorreu com o bolsonarismo no Brasil, claro). Nos EUA, pra você ter uma ideia, não teve nenhum setor social que votou menos em Trump do que os judeus. Os muçulmanos, inclusive, votaram mais nele do que os judeus”, compara.

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Para o coordenador do Núcleo de Estudo Judaico da UFRJ, o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro passou por um processo de limpeza em sua imagem, para que se tornasse aceitável para amplos espectros da sociedade brasileira, escondendo sua verve autoritária e violenta.

“Aqui houve uma higienização de Bolsonaro produzida por setores muito centrais da sociedade brasileira. O empresariado, os setores religiosos, enfim, transformaram um potencial genocida, um fanático, um homem que celebrava a violência e a morte nos últimos 30 anos em alguém palatável. Só que a gente precisa compreender que o judeu é também um brasileiro e que ele também passa a aceitar esse homem como palatável. E pior: pensam assim “esse homem é palatável e é a nosso favor”, o que faz com que os judeus que não tenham uma perspectiva ideológica mais à esquerda, mais democrática, que não se enojam com o que Bolsonaro representa, o aceitem”.

Ele faz questão de frisar que é absolutamente absurdo tentar colar nos judeus uma pecha de apoiadores de Bolsonaro, já que foi a maioria do total da população do país que o escolheu.

“Há que se lembrar que os judeus votaram menos em Bolsonaro do que os seus vizinhos, até porque os judeus no Brasil são pouco mais do que 100 mil pessoas. Eu fico enojado é com o apoio a Bolsonaro de todos os setores da sociedade brasileira. Mais de 50% dos eleitores votaram em Bolsonaro e isso já é assustador”, argumenta.

Na sequência, Michel Gherman lembra que um outro fenômeno que contribuiu para a aceitação de um extremista no cenário político foi o fato de a esquerda ter o naturalizado como um candidato “de direita, comum”.

“Há aqui uma questão voltada à esquerda. Pois me parece que não se conseguiu perceber Bolsonaro como um fascista, um nazista, de extrema direita, até porque nas eleições esse não foi o tom, não se vendeu a ideia de que ele representa o fascismo. Vendeu-se a ideia de uma disputa entre um candidato de direita e um de esquerda, mas Bolsonaro é um extremista que está fora do arco do que podemos chamar de uma direita democrática”, critica o acadêmico.

Quando lembro da famigerada palestra de Jair Bolsonaro na Hebraica, no Rio de Janeiro, em 2017, e questiono sobre nada ter sido feito para que se evitasse o evento, Gherman discorda e reage com muita firmeza.

“Foi feito! A comunidade judaica é a comunidade, dentro do Brasil, com a maior diversidade que eu conheço. Houve muitas rupturas. A primeira manifestação pública contra Bolsonaro, ainda em 2017, foi na porta da Hebraica e foi feita por judeus. Por algum motivo, a esquerda preferiu olhar para dentro da Hebraica e não para fora. Aí as pessoas perguntam: “mas vocês não fizeram nada para impedir isso por quê?” Como não fizemos? Estávamos lá na porta protestando! Eu estava lá!”, protesta.

Com relação à lógica estabelecida pelo senso comum entre o passado do Holocausto e uma consciência em relação aos movimentos extremistas, o historiador é enfático e diz que isso não existe. Para ele, a simples ocorrência do genocídio não confere aos judeus, nem a outros povos, uma percepção crítica e consciente quanto a posições políticas.

“A história não ensina nada… Muito menos uma história construída com um genocídio, com sofrimento, com morticínio. O genocídio não ensina nada a ninguém. A gente tem, sim, que trabalhar os genocídios pra entender como chegamos até isso. O genocídio não é pedagógico, nunca foi!”, opina.

Para ele, a questão é outra no caso da ascensão de Bolsonaro e não se resume apenas ao papel dos judeus nisso.

“A pergunta não é como judeus votaram em Bolsonaro, mas sim como brasileiros votaram em Bolsonaro”, indaga.

A discussão surgida nos últimos tempos sobre Bolsonaro estar conduzindo ou não um genocídio no Brasil, assim como o emprego do termo, também foi explanada por Gherman.

“Há aí critérios muito claros que possibilitam… Veja… O que a gente está vendo aqui, e que tem a ver com que a Hannah Arendt pressupunha, é que o Estado mudou a sua percepção em relação ao seu povo e deixa de dar a ele as melhores condições de vida, passando a dar condições de morte”, teoriza.

Na sequência, ele cita fatos e ações do governo federal na condução da pandemia que comprovam, de acordo com sua análise, a tese que apresentou sobre o papel do Estado em relação à sua população.

“Nós temos um caso claro aqui: um governo, em meio a uma pandemia, fazendo propaganda de um medicamento que não tem nenhuma eficácia, ou então fazendo boicote à vacinação. Ou seja: está implementando uma política de morte para seu povo, quando deveria, na verdade, implementar uma política de vida.”

Por fim, Michel Gherman diz o que espera com relação à responsabilização de Bolsonaro e de membros de seu governo na tragédia da Covid-19, que já deixou mais de 375 mil brasileiros mortos.

“Em relação a esses crimes, isso tudo vai ter que ser investigado lá, na CPI… Que não é CPI da Covid, é CPI do Genocídio… Porque a questão que eu tenho levantado e insistido é sobre esses caras terem sido fomentados por algum Ministério… O caso do oxigênio em Manaus… Até que ponto aquilo foi deliberado?”, finaliza.

Acesse aqui a matéria de abertura da série especial Judeus e Bolsonaro.
Acesse aqui a 1ª entrevista, com Guilherme Cohen.
Acesse aqui a 2ª entrevista, com Liana Lewis.
Acesse aqui a 3ª entrevista, com Noemi Jaffe.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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