Ministério da Defesa justifica gasto milionário com leite condensado: “potencial energético”

Comunicado também alega que “as Forças Armadas têm a responsabilidade de promover a saúde da tropa por meio de uma alimentação nutricionalmente balanceada”, para defender a compra de chicletes, batatas fritas e refrigerantes

Em meio ao escândalo pelo gasto milionário em leite condensado, o Ministério da Defesa publicou um comunicado, nesta quarta-feira (26), defendendo a compra desse e de outros produtos de necessidade questionável durante o ano de 2020.

A mensagem é composta de dois argumentos básicos. O primeiro defende a necessidade da compra em si, alegando que devido a que “ao contrário dos civis, os militares não recebem qualquer auxílio alimentação”, e que “as Forças Armadas devem, por lei, prover alimentação aos militares em atividade”.

“O efetivo de militares da ativa é de 370 mil homens e mulheres, que diariamente realizam suas refeições, em 1,6 mil organizações militares espalhadas por todo o país”, afirma o Ministério, que calcula que o gasto diário com a alimentação de cada militar seria supostamente de 9 reais – também afirma que esse valor não é reajustado desde 2017.

O segundo ponto do comunicado é a defesa explícita do leite condensado como produto importante na composição da dieta militar, devido ao “seu potencial energético”.

“Eventualmente, (o leite condensado) pode ser usado em substituição ao leite. Ressalta-se que a conservação do produto é superior à do leite fresco, que demanda armazenamento e transporte protegido de altas temperaturas”.

O comunicado também afirma que “a gomas de mascar, o produto ajuda na higiene bucal das tropas, quando na impossibilidade de escovação apropriada, como também é utilizado para aliviar as variações de pressão durante a atividade aérea”.

“As Forças Armadas têm a responsabilidade de promover a saúde da tropa por meio de uma alimentação nutricionalmente balanceada”, afirma o Ministério da Defesa, para defender a compra de chicletes, batatas fritas e refrigerantes.

Além da questionável necessidade do produto, o caso também chama a atenção devido ao fato de que algumas empresas se beneficiaram com a compra milionária. Uma delas teria adquirido contratos que somam um total de 37 milhões de reais, para fornecer leite condensado ao Palácio do Planalto.

Em meio à polêmica, a professora e pesquisadora Ivana Bentes, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) comparou o gasto em leite condensado com o orçamento destinado pelo governo de Jair Bolsonaro a projetos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que receberá 22 milhões de reais em 2021.

Segundo a acadêmica, essas medidas são “do mesmo Presidente que diz que o Brasil está quebrado, do mesmo ministro da Economia que ameaça congelar o orçamento da Educação”.

Para finalizar, a pesquisadora também disse que chamou a atenção o tipo de produto comprado. “Que nutricionista orienta as compras do governo? Não parece comida de adultos”, comentou.

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Victor Farinelli

Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, há 15 anos é correspondente na Argentina (2004 e 2005) e no Chile (desde 2006).

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